Na Capital do Império:
sete dias em Washington
Para nossa semana em Washington, Odete e eu alugamos um apartamento na área da Capitol Hill, perto do centro. Bairro, sossegado, típico de classe média. Na primeira saída, paramos na calçada consultando o mapa e olhando para os lados. Na mesma hora, uma moça que ia passando perguntou se precisávamos de informações e logo deu pistas de bares e restaurantes nas redondezas. Estávamos começando bem e nos pusemos a perambular. Nas ruas, víamos casas tendo no jardim placas com frases de Martin Luther King ou algum outro personagem.
Em Washington, o que já de início impressiona é a majestade dos espaços amplos, com o traçado de longas avenidas diagonais em simetria. Planejada para ser capital e inaugurada no início do século XIX, a cidade seguiu o projeto de Charles L’Enfant, engenheiro militar francês naturalizado americano. O propósito era que aquela estrutura urbana expressasse valores da democracia, como a transparência e a abertura de horizontes. Fundado na soberania da população, o país que se estava construindo precisaria de uma capital modelada como lugar de instituições democráticas, pairando com neutralidade acima de intrigas políticas. Como se sabe, não foi bem esse o rumo das coisas; das intenções grandiosas, o que restou foram os espaços grandiosos.
O principal destaque urbano é o National Mall, ampla área ajardinada e bonita, entre o Capitólio, sede do Congresso, e o Memorial de Lincoln. Durante aquela semana, andaríamos por lá várias vezes.
Começamos pelo Memorial, onde a enorme estátua de Abraham Lincoln tem ao lado, gravadas na parede, as palavras do seu conciso e profundo discurso em Gettysburg, durante a Guerra Civil. A escadaria fronteira testemunhou uma outra peça oratória que se tornaria famosa. Foi ali que em 1963, diante de mais de 200.000 pessoas, Martin Luther King exclamou “I have a dream”, expressando a confiança de que um dia a fraternidade entre os homens iria florescer no país.
Quisemos uma foto no cenário dos Constitutional Gardens, área verde do National Mall, com o obelisco homenageando George Washington − nenhum prédio da cidade pode ser construído com altura superior aos seus 169 m. Ao invés de posar para selfies, recorremos à gentileza de uma turista chinesa que passava. Caprichosa, só se deu por satisfeita quando conseguiu um enquadramento de qualidade.

Os Constitutional Gardens são ladeados por diversos museus, cada um melhor do que o outro − e com ingresso gratuito! Quem os administra é a Smithsonian Institution, criada na década de 1840 por legado de James Smithson, cientista inglês que jamais foi aos Estados Unidos. Filho ilegítimo de um nobre, Smithson, que sofreu preconceitos em sua vida, morreu rico e sem herdeiros. Inconformado com as barreiras sociais inglesas, admirava a democracia americana e sua abertura de oportunidades. E previu: “Meu nome sobreviverá na memória das pessoas muito depois que já tiverem sido esquecidos os sobrenomes dos que me desprezaram”. Não deu outra.
Nas viagens, sempre visitamos museus. Ao nos porem em contato com civilizações de outros tempos e lugares, eles enriquecem nossa percepção e relembram, na diversidade, o universal do ser humano e de sua obra de cultura. Em Washington, o museu que mais nos atraía era o da Cultura Afro-americana, inaugurado menos de um ano antes. Foi impraticável: reservas pela internet estavam esgotadas por meses, tamanho foi seu sucesso. Mas não faltavam alternativas, e o difícil era escolher.
Deixando os museus mais famosos − e mais lotados −, como o de História Natural e a National Gallery of Art, optamos pelos não tão grandes, centrados em temas específicos. E já que Mr. Trump insiste em “America first”, começamos pelo Museu Nacional do Índio Americano. First Americans first! É bem montado, com rica variedade de audiovisuais. Almoçamos lá mesmo; o restaurante oferece pratos das tradições indígenas, e encarei um caldo de milho com almôndega de búfalo…
Ali perto, é muito interessante o Museu de Arte Africana. Belos trabalhos do artesanato antigo e atual dos países da África. Na lojinha, pechinchas tentadoras.

Com foco nas culturas asiáticas, o Freer/Sackler Gallery of Art é um sereno recanto de contemplação. Entre outras obras de arte, admiramos artesanatos de madeira e de tapeçaria feitos no Afeganistão de hoje, sob condições de vida extremamente adversas.

Fomos também ao Hirshhorn Museum, dedicado à arte moderna e a artistas contemporâneos. Entre eles, Ron Mueck, com seu Big Man e Michelangelo Pistoletto, com a Vênus dos Trapos.


Outra escultora que nos chamou a atenção foi Janine Antoni, com a dupla cabeça de autorretrato. Depois da primeira moldagem, cobriu de chocolate uma das cabeças, e a outra com sabão. Em seguida, partiu para o acabamento: ia lambendo a cabeça de chocolate e tomava banho com a outra. Espero que nenhuma vez tenha trocado as cabeças…
O comediante Bob Hope dizia gostar de ir a Washington. “Pelo menos”, alegava, “para estar perto do meu dinheiro”. Não sei se àquela altura o dinheiro lá na capital ainda seria dele.
Por falar nisso, não muito longe do National Mall está a Casa Branca. Em viagem anterior a Washington, Odete encontrara diante da entrada vários grupos de manifestantes, cada um com seus pontos de vista e demandas. Eles não estão mais lá, até mesmo porque a barreira de proteção foi deslocada para uma distância maior, e agora a Casa Branca só se vê de longe. É o padrão Trump de relações humanas…
Além da área central, Washington também tem sua vida nos bairros, alguns com muito movimento e animação. É o caso de Georgetown, núcleo urbano mais antigo que a própria capital. Depois de termos circulado por suas ruas tortuosas, com lojas elegantes e intenso comércio, voltamos lá certa noite para conhecer o Blues Alley. Trata-se de um nicho da música popular americana que nos seus pouco mais de 50 anos recebeu Ella Fitzgerald, Eartha Kitt e outros ícones do jazz. Assistimos a um show vibrante do cantor de gospel James “D-Train” Williams, acompanhado por um ótimo trio .
Ainda naqueles lados, passeamos no parque situado à margem do Rio Potomac; na manhã de sol, muita gente flanando, e um violoncelista nos regalava sua arte. Nem sempre foi assim. Durante boa parte do século XIX, o Potomac era foco de insalubridade, e suas águas, causadoras de doenças. O próprio Lincoln, quando Presidente, perdeu um filho acometido de febre tifóide.
Também marcante é o bairro que está em volta do Corredor da U Street. Demos uma volta ali, às vezes parando para ler painéis explicativos, afixados em plena rua, contando a história local e a ilustrando com fotos que enriquecem as informações.

A partir do final do século XIX, foi aquele o principal reduto da população afro-americana em Washington. Logo tornou-se próspero, e recursos da própria comunidade possibilitaram a construção de prédios de estilo. Entre eles, o Lincoln Theater, onde tocaram Duke Ellington (nascido lá mesmo), Louis Armstrong e outros. A U Street era apelidada Broadway Negra.
Em 1968, porém, a notícia do assassinato de Luther King deflagrou uma onda de revolta e quebra-quebras, com incêndio de sete quarteirões. Nos anos seguintes, veio a decadência e degradação urbana. A retomada, que demorou a acontecer, está em curso desde algum tempo. O bairro tem atraído novos moradores, e agora não apenas os afro-americanos; por outro lado, a valorização dos preços de imóveis vai deslocando a camada mais pobre.
Outro bairro simpático é Dupont Hill, que tem um dos pontos de encontro na excelente livraria Kramer Books e no bar anexo. Em suas imediações, Odete fotografou um fotógrafo fotografando sua fotogênica musa.

O nosso próprio bairro, Capitol Hill, tinha atrativos. Por exemplo, a Farmers’ Market, feirinha livre em que agricultores da região vendiam diretamente seus produtos. Em uma barraca de verduras, fomos atendidos por uma família do grupo religioso amish − com roupas típicas, tais quais aparecem no filme A Testemunha (Peter Weir, 1985).

Nas imediações, fica o Sewall-Belmont House & Museum, que aborda a história do movimento sufragista, de aguerridas lutas pelo acesso feminino ao voto (obtido em 1920, doze anos antes do Brasil) e pela afirmação da igualdade de direitos entre mulheres e homens. Esse pequeno museu funciona no palacete onde morou Alice Paul, fundadora do Partido Nacional das Mulheres, que existe até hoje, com sede ali mesmo. Doutora em Sociologia, Alice teve sete prisões durante sua atuação no movimento.
O dia de nossa partida caiu no Memorial Day, feriado que recorda os americanos mortos em guerras. Quando criada, no século XIX, a celebração relembrava os que tombaram na Guerra Civil. Com o tempo, o foco foi estendido às duas guerras mundiais, à Guerra da Coreia, à do Vietnã e às intervençōes americanas no Afeganistão e Iraque − e não permitam os orixás que venha mais coisa por aí!…
Na data, tornou-se tradicional o Rolling Thunder − veteranos de guerra e assemelhados desfilando de moto pelas avenidas de Washington. Reúnem-se junto do prédio do comando militar, o Pentágono, e dali seguem até o Memorial da Guerra do Vietnã. Neste, estão gravados os nomes de 53 mil americanos caídos na Indochina. Se fizessem o mesmo com os mortos vietnamitas − em grande parte, população civil −, seria necessário um monumento 50 vezes maior.
Para o Rolling Thunder, afluem motoqueiros de todo o país; falava-se em 400 mil. Sua moto preferida é a Harley-Davidson, por ser de fabricação americana − motivo de orgulho −, além de barulhenta, o que parece lhes dar extremo prazer. Na véspera do feriado, as hordas recém-chegadas já promoviam uma retumbante prévia. Odete fotografou uma pequena amostra do que horas depois veríamos (e ouviríamos!) bastante amplificado. Estava, mesmo, na hora de dizermos “bye-bye”…

