Em Salvador, o caminho mais interessante da orla para o Centro passa pelo Corredor da Vitória, antigo reduto aristocrático. Os palacetes que restaram convivem hoje com luxuosos edifícios; alguns com a Baía de Todos os Santos no fundo, e há elevadores descendo até ancoradouros.

No Corredor, encontra-se o bem cuidado Museu Costa Pinto, com foco no mobiliário antigo; por exemplo, a conversadeira, assento duplo com as pessoas viradas para direções opostas, facilitando cochichos − visto de cima, seu desenho forma um S. Também há lustres, objetos de decoração e uma incrível coleção de balangandãs usados por escravas − não conheço similar. Está próximo o Museu de Arte da Bahia, com telas clássicas, esculturas e porcelanas. E para quem gosta de pedras incomuns, o Museu Geológico − a Bahia é rica em minérios.

Salvador tem museus de bom acervo, mas quase sempre de apresentação pobre: as legendas deixam a desejar, não se acham livros-guias nem folhetos explicativos. Audioguias para estrangeiros, nem pensar! Talvez faltem recursos, mas pouco se faz para captá-los: os ingressos são baratíssimos, as raras lojinhas quase nada oferecem, e com exceção do Costa Pinto, praticamente nenhum museu dispõe de um bar convidativo.

O Corredor da Vitória termina no Campo Grande, praça que tem o monumento à Independência. Na Bahia, ela só se consumou em 2 de julho de 1823, na batalha de Pirajá, quando o corneteiro Lopes, incumbido de soar a retirada, tocou “Avançar e degolar!”. Conhecedores daquele toque, os soldados portugueses acharam que os gajos estavam a alucinar e fugiram correndo (ou, como diziam, “se deram às de vila-diogo”). O corneteiro virou herói, mas ninguém sabe se foi patriotismo ou trapalhada pelo estresse com o tiroteio. “Se a lenda é melhor que a história, imprima-se a lenda”.

Na chegada do Centro, está a Praça Castro Alves, fervilhante no carnaval, que Caetano Veloso celebrou em frevo.

Ela já abrigou o primeiro teatro do Brasil, aberto no início do século XIX. Desprovida das antigas árvores, não é hoje especialmente bonita, apesar da estátua do poeta em gesto amplo. Mas tem o panorama da Baía de Todos os Santos e do seu maravilhoso pôr do sol. No lado oposto, no Espaço Itaú de Cinema, o Cine Glauber Rocha e a livraria anexa contribuem para revitalizar a praça. Bem pertinho, um pouco abaixo, ficava a popularíssima Igreja da Barroquinha; anos atrás, foi arrasada por um incêndio, e o que restou foi adaptado como centro cultural.

Na área entre o Campo Grande e a Castro Alves, acham-se marcos atraentes, como o Museu Henriqueta Catharino, dedicado ao antigo vestuário feminino. Religiosa e solteira, Henriqueta criou uma obra de profissionalização e promoção social para moças. Em certa sala do museu, poderosa lente de aumento mostra um casal de pulgas vestidas de noivas. Pelo menos, é o que informa a legenda, e lá estão elas, com ar de quem ensaia o pulo nupcial.

Na Basílica de São Bento, outro destaque da área, há concorridas missas dominicais com canto gregoriano; quando estivemos lá, o conceituado museu estava fechado. No mosteiro, viveu por quatro anos o poeta ultrarromântico Junqueira Freire, autor das angustiadas Inspirações do Claustro.

Em rua paralela, o octogenário e despretensioso restaurante Porto do Moreira, de ótima comida, foi imortalizado em páginas de Dona Flor e Seus Dois Maridos. Entre as delícias, os doces de goiaba e de jenipapo, e também a ambrosia. Em tempos idos, o cardápio de sobremesas era mais sóbrio, e o falecido garçom Popó anunciava: “Hoje, temos goiaba em calda e banana pessoalmente”.

Em bem reformado prédio do século XVII, o Centro Cultural da Caixa Econômica costuma ter exposições de artistas plásticos. Nos anos 40, a proprietária do casarão o deixara em testamento para hospedar viúvas dispostas a viver recatadamente; mas por falta de interessadas, o projeto não vingou, e o prédio, antes da restauração, andou sendo conhecido como o Palácio do Jogo do Bicho

Não está longe o Museu de Arte Sacra, com peças valiosas, como um Cristo de rara beleza e a imagem de Nossa Senhora das Maravilhas, ligada à lenda do “estalo” − teria aberto a inteligência do estudante Antônio Vieira que rezava diante dela; cogitei tentar uma fezinha para um upgrading nos miolos. Já na beira da baía, localiza-se o Solar do Unhão, entreposto do século XVII restaurado e readaptado por projeto da arquiteta Lina Bo Bardi; no andar superior, o Museu de Arte Moderna exibe telas de Portinari, Tarsila, Di Cavalcanti…

Com o surgimento de novos polos e dos shoppings, a Rua Chile, que liga a Castro Alves à Praça Municipal, perdeu seu comércio elegante e hoje é mera via de trânsito intenso. Meio em paralelo, a Rua da Ajuda foi o local da primeira capela da Cidade Alta, a “sé de palha”. Ergueu-se depois a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, onde em 1640, na iminência de novo ataque holandês, Vieira proferiu o Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal. Interpelava o próprio Deus, inconformado que os portugueses − “povo escolhido”, como os hebreus − fossem castigados com uma invasão de “hereges”. Sermão ousado, de beleza literária. Demolida para dar passagem aos bondes, a igreja foi substituída pela atual, que é menor.

Referência básica da cidade, a Praça Municipal é belo conjunto arquitetônico, com a paisagem da baía. Desde a Colônia, tem sede na praça a Câmara Municipal, a mais antiga do país. Ao lado, o antigo Palácio do Governador-Geral do Brasil, destruído e reconstruído. E em seguida, o Elevador Lacerda, que conduz à Cidade Baixa. Logo adiante, a Prefeitura ocupa um prédio de arquitetura moderna.

Da Praça Municipal, sai a Rua da Misericórdia, endereço da Galeria Pierre Verger, com lindas fotos de pessoas negras. Em frente, estão a Igreja da Misericórdia e a Santa Casa. Nesta, que foi hospital durante séculos, havia uma roda onde se deixavam recém-nascidos sem amparo. Depois de cuidadosa restauração, instalou-se ali um museu com peças de arte colonial.

Finalmente, chega-se à Praça da Sé. Não mais a antiga igreja, com fachada de frente para a Baía de Todos os Santos: foi demolida nos anos 30. Em vez de reparar as avarias e reformar o prédio, o Arcebispo se acertou com a companhia dos bondes, que alegava precisar do espaço para a melhor circulação. Os bondes também se foram, e as fundações da antiga Sé estão ali expostas, em competente trabalho de reordenação do espaço; uma cruz caída, escultura de Mário Cravo, expressa a inconformidade com o desmonte.

Com a deterioração do prédio, a catedral já vinha funcionando na antiga igreja dos jesuítas, passada à Arquidiocese desde que Pombal os expulsara. É uma bela igreja, e está de frente para o Terreiro de Jesus, grande praça retangular com chafariz no meio − traçado característico das praças onde havia igrejas da Companhia de Jesus, como em Trancoso. Antigo colégio dos jesuítas, o prédio vizinho abrigou a primeira Faculdade de Medicina do Brasil. Hoje, contém dois museus: o de etnologia e o afrobrasileiro − este, com preciosos entalhes de madeira em que Carybé representou os orixás.

Circular pelas ruas do Centro Histórico, pavimentadas com pedra “cabeça-de-negro”, exige panturrilhas resistentes. E também paciência com os que oferecem fitinhas, bugigangas, e serviços, intrometendo-se na conversa, pegando pela mão, pelo braço…

No lado oposto à Catedral, o Terreiro de Jesus emenda com o comprido Largo do Cruzeiro de São Francisco, de altos casarões, como aquele onde em 1636 nasceu o irreverente poeta Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”. No final, a Igreja de São Francisco, de exuberantes dourados, é uma festa barroca. Mas o elogiado espetáculo Luz e Som não nos empolgou: muita retórica de oba-oba e pouco esclarecimento sobre a construção da igreja, o estilo barroco, o contexto histórico… No claustro, a decoração de azulejos portugueses acompanha pensamentos edificantes − curiosamente, com figuras da mitologia pagã. A própria portaria é uma obra de arte, com trabalhos em jacarandá (pobres florestas nativas!) e azulejos nas paredes.

Outro claustro original está na igreja vizinha, a da Ordem Terceira de São Francisco. Também ornado de azulejos portugueses, mostra paisagens e recantos de Lisboa no século XVIII, antes do terremoto de 1755. É raridade de grande valia para o trabalho de historiadores, mas dá para notar o desgaste do material, que pede manutenção. Essa igreja seria o único exemplar no Brasil do plateresco, rebuscada vertente do barroco espanhol, também visível em Cusco e no México.

Da igreja e do Terreiro de Jesus, vários caminhos descem para o Largo do Pelourinho, conjunto colonial harmonioso, que parece um museu a céu aberto, vivendo do turismo. Mas quem toma uma travessa, em poucos metros topa com prédios degradados, alguns em ruínas, às vezes abrigando cortiços, botecos ou pequenos serviços; dá medo que aquilo desmorone na gente. O que nem sempre funcionou no largo foi o temido pelourinho − aquele foi só o lugar dos últimos anos. Em tom azul-claro, destaca-se Igreja do Rosário dos Homens Pretos, que a comunidade negra construiu durante a escravatura; à entrada, o guia nos convida para um programa noturno − um culto de candomblé…

Do Pelourinho, pode-se descer até a Baixa do Sapateiro − Ary Barroso dizia ter encontrado lá “a morena mais frajola da Bahia”. Ou subir a ladeira que leva ao Largo do Carmo, onde um hotel estrelado ocupa o lugar do antigo convento. A Igreja da Ordem Terceira do Carmo mostra o Cristo Atado à Coluna, pungente escultura de Francisco Chagas, “o Cabra”, artista do século XVIII.

Cristo Atado à Coluna (Francisco Chagas, “O Cabra”).

No caminho, vê-se uma escadaria subindo para a Igreja do Santíssimo Sacramento do Passo, habitualmente fechada; a enegrecida pintura pede restauração. No cenário, Anselmo Duarte filmou passagens de O Pagador de Promessas (Palma de Ouro em Cannes, 1962).

Na escadaria da Igreja do Santíssimo, Zé do Burro (Leonardo Villar) carrega sua cruz, acompanhado por Rosa (Glória Menezes).

As redondezas de Salvador também proporcionam passeios interessantes. Pela Estrada do Coco, chega-se à Praia do Forte, onde o saudável banho de mar pode ser seguido por uma visita ao Projeto Tamar, de apreciável trabalho. Ali próxima, a restaurada Casa da Torre, que sediava uma imensa sesmaria, lembra um castelo medieval. No vilarejo, com boa estrutura de pousadas e restaurantes, são imperdíveis os bolinhos de peixe no Souza.

Em uma de nossas viagens, escolhemos uma pousada rústica, a do Basílio; dizia ele que diariamente, às seis da manhã, orientava na praia exercícios orientais de relaxamento, o que fez Odete se interessar. Madrugamos, fomos em jejum até a praia e não encontramos ninguém. Mas o sol nascia bonito, e demos uma boa caminhada à beira-mar − descalços, sentindo a areia; na volta, cadê as sandálias?… Ao retornar faminto para a pousada, consolei-me com a lembrança de que o Basílio propagandeara o “breakfast de dezenove itens”; logo descobrimos que a louça entrava na contagem.

Em outra direção, vale a pena visitar a arquitetura colonial de Cachoeira, no Recôncavo, às margens do Rio Paraguaçu. Para chegarmos lá, contratamos um táxi, e quem nos levou foi John Lennon − pelo menos, era o que dizia o cartão de visitas do motorista de rosto comprido e cabelo liso, com óculos de lentes redondas… Odete achou muita pretensão, mas… let it be!…

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