Quem de dentro de si não sai

Beginners, filme.

Eu moro em São Paulo — e só isso já diz algumas coisas importantes sobre mim.

Por exemplo, sabendo apenas disso você já pode imaginar que fico parado no trânsito algumas horas por semana, não importa pra onde eu tenha que ir. Pode imaginar que conheço muitas pessoas, mas (e aí vai da sua criatividade ou grau de percepção) que sou próximo de poucas e que muitas vezes me pego em momentos de solidão, mesmo com tanta gente aqui.

Se você conhece um pouco de São Paulo, sabe que as opções para uma noite de sexta-feira são quase infinitas. E que, seja lá o que você escolher — pode ser uma balada cara, um barzinho com mpb ou só andar pela Paulista: você pode conhecer alguém. Esse alguém, muito provavelmente, não vai fazer muita diferença. Mas, às vezes, se você estiver com um pouco de sorte, esse alguém pode mudar a sua vida.

Já tive a sorte de conhecer algumas que mudaram a minha e muitas que só passaram por ela. Algumas que eu quis que ficassem, que eu abri espaço pra ocupar o lugar que quisessem mas que preferiram dar o fora e outras — e é sobre essas que eu quero falar — que embora quisessem entrar e fazer parte de tudo, eu não deixei. Não porque me achava bom demais pra elas — é só que eu não lembrei daqueles versinhos tão bonitos do Vinicius que dizem assim: “quem de dentro de si não sai / vai morrer sem amar ninguém”. E é por isso que queria contar uma história.

Numa dessas noites de sexta que falei acima, eu fui pra uma balada com uns amigos e um garoto com quem ficava na época. Era fim de junho, o tempo começava a esfriar e as aulas acabavam aos poucos. Alguém me disse há pouco tempo que enquanto eu tivesse vinte e poucos e estivesse na faculdade, saberia qual é o gosto da liberdade nas noites de sexta com tão poucas preocupações. Eu, que na época não sabia disso, passei boa parte da festa sentado no fumódromo odiando tudo, só por ter tido qualquer confusão com meu ficante.

Foi lá que ele me achou. O cara que eu conheci essa noite tem o maior sorriso que já vi na vida — e ele foi um desses que tentou, de diversas formas, ficar na minha vida. Depois de conversarmos um pouco na festa, ele tentou me alegrar — é uma festa, por que você está triste aqui? — e depois trocamos contato. E ele veio, diversas vezes, conversar comigo. Já faz tempo e não lembro de muita coisa: mas ele era engraçado e fofo na medida certa, não precisava se esforçar para isso. Assim como eu, gostava de cozinhar bobagens, comer mais doces do que devia e assistir filmes de super-herói. Infelizmente, impedi que qualquer encontro de fato acontecesse, desmarcando todos os encontros que marcávamos nos últimos minutos. Eu nem posso me culpar diretamente por ter feito isso, dado o momento que vivia, que com tantas confusões emocionais que já envolviam muitas pessoas, turvavam minha visão e me deixavam incapaz de ver. E de sentir. E foi assim que deixei alguém especial ir.

O negócio é que, frequentemente, me perguntam o que eu espero de um relacionamento e eu não sabia o que responder. Terminei meu último namoro há quase um ano e, desde então, não me envolvi de verdade com ninguém. Passada a ressaca emocional, encontrei algumas pessoas que me disseram pouca coisa ou quase nada. E me pergunto o porquê disso.

É que, às vezes, a gente não aceita o amor que bate na nossa porta. Fomos criados pra entender que o amor e a paixão dependem de timing, quando, na maior parte das vezes, o timing só depende da gente mesmo. É exatamente como a flor que insiste em nascer no meio da rua ou a calmaria que você sente quando está em casa durante uma tempestade: nos momentos mais turbulentos, nos lugares mais inóspitos, é neles que se deve achar paz.

Não vale a pena pensar no que teria acontecido se eu tivesse aceitado os convites daquele rapaz. Se tivesse tentado de novo depois. O negócio é que, eu estava tão dentro de mim que fui incapaz de enxergar que, opa, eu tive a sorte ali. Sei que ali poderia ter nascido um amor. Sem conhecer a frase linda de Frida Kahlo, “onde não puderes amar, não te demores”, insisti em amores falidos sem dar a chance pro novo me impressionar.

Esse texto não tem a intenção de fazer você dar chance pra primeira pessoa que parecer estar interessada por ti, não. É que todo mundo tem alguém no histórico que deixou de conhecer dando a desculpa que “o problema sou eu”. É assim? Então se cura. Cura qualquer coisa que te impeça de deixar alguém que pode ser bom entrar. Vale aqueles cinco minutos de autorreflexão — dá pra entender muita coisa na vida quando a gente se dedica de verdade a ela.

Eu não sei bem por qual caminhos a minha vida está indo, mas tenho cada vez mais certeza que é pra um bom. Desconfio que tantas reclamações sobre como é difícil encontrar pessoas (minhas e dos meus amigos) tem mais a ver com a gente do que com as explicações encontradas em Amores líquidos, de Bauman. Pelo menos, já sei o que responder da próxima vez que perguntarem o que eu espero de um relacionamento: alguém que esteja disposto a mudar a minha vida. E se o sorriso for grande, ainda melhor.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.