QUEM NOS JOGOU UNS CONTRA OS OUTROS?

Em 2013, logo após a tortura e assassinato do pedreiro Amarildo, ocorridos na Rocinha, participei de um ato público na comunidade a pedido da família da vítima. Subimos o morro até à base da UPP, na qual nos deparamos com dezenas de policiais militares.
No alto da favela, toda a história do Brasil estampada diante do olhar do observador sensível às contradições, injustiças, desigualdades do nosso país. Barracos contrastavam com os imponentes prédios de um dos bairros mais nobres do Rio de Janeiro. Ao fundo, o mar azul, em confronto com as ruas encardidas da favela, como que a dizer, “não era para ser assim”.
Sem que esperasse, foi pedido que eu discursasse. A cena era comovente. À minha direita, trabalhadores pobres, emergindo dos seus casebres, assustados com a violência policial, lutando pelos seus direitos. À minha esquerda, policiais negros, pobres, trabalhando em condições subumanas, perante uma sociedade que esperava deles o que eles não podiam dar: pacificação sem justiça social.
Perturbado com tudo o que via, buscando simetria na minha luta contra as injustiças e violações de direito, disse a seguinte coisa:
“Amigos, aqui nos encontramos: manifestantes, parentes do Amarildo, moradores da Rocinha, policiais, militantes de direitos humanos e imprensa. Pergunto a vocês: por que estamos neste lugar? De um lado vejo moradores de comunidade pobre protestando por motivos justos, do outro lado vejo policiais mal remunerados cuja origem social é a favela. O que está acima de nós e nos jogou uns contra os outros?”
Vejo hoje a cena que testemunhei na Rocinha reproduzida no nosso país. Estamos amargamente divididos sem que atentemos para as reais causas da divisão. Faço novamente a pergunta feita no alto do morro: quem está acima de nós e nos joga uns contra os outros?
Estamos divididos não apenas por diferenças ideológicas, mas também por causa de homens. Esse é o fato. A parte mais amarga desse debate é fruto da lealdade de ambos os lados aos seus políticos favoritos. Mas, será que já paramos para perguntar: eles merecem isso de nós?
Testemunho políticos profissionais brincando com os nossos sentimentos. Se deixarmos, ambos os lados da disputa nada republicana por poder incendiarão o país. Eles mentem, distorcem fatos, usam da sua milícia virtual paga para a produção de notícias falsas. São soberbos, não dão o braço a torcer, revelando incapacidade patológica de reconhecer erro.
Em suma, o petismo e o bolsonarismo não nos merecem. Conheço gente de ambos os lados, contudo, que não negociou sua consciência, e que deseja as mesmas coisas, por caminhos, numa extensão maior ou menor, diferentes. Há muita causa em comum entre nós.
Sugiro que paremos para pensar mais no que nos une do que naquilo que nos divide, a fim de lutarmos pelos direitos dos que moram no morro e no asfalto, mediante ação suprapartidária, republicana, capaz de nos levar a ficar do lado da verdade mesmo quando a verdade está contra nossas simpatias partidárias.
Lembro-me de uma outra pessoa que um dia subiu no alto de um morro a fim de contemplar o mundo dos homens. O Cristo que do Monte das Oliveiras chorou por Jerusalém hoje lamenta pelo Brasi que ignora o caminho da paz.
