Persuasão e a Crise Chilena

Antonio Florencio
Nov 3 · 6 min read

As recentes manifestações no Chile deram origem às mais diversas teorias para explicar o que está acontecendo. Não é um cenário muito diferente das jornadas de Junho de 2013 no Brasil, onde todos se perguntavam o que tinha motivado os maiores protestos da história do país.

Pretendo então analisar as explicações dadas pelos dois lados e introduzir na discussão um conceito ignorado por ambos: a persuasão. Não é uma tentativa de encontrar a explicação verdadeira e final para os protestos, mas sim apresentar um ângulo de análise que se encontra ausente do diálogo público brasileiro.

Defensores do modelo chileno ficam surpresos ao ver a escala das revoltas que tomaram conta do país. Argumentam que os indicadores sociais e econômicos chilenos são bons comparado com o resto da América Latina e que provam o sucesso do modelo, implementado durante a ditadura de Pinochet (1973–1990).

Com o tempo, a explicação que utiliza o paradoxo de Tocqueville se popularizou nas discussões liberais. Esse diz, resumindo, que as convulsões sociais tendem a ocorrer em momentos de melhorias no nível social geral. A ideia de perder as vantagens adquiridas se torna apavorante. Pequenas desigualdades se tornam odiosas, expectativas aumentam e, naturalmente, são quebradas.

Essa explicação até se aproxima do uso da persuasão para ajudar a explicar o que ocorre no momento, mas liberais tendem à se ater demais aos números e indicadores sociais chilenos para defender seu modelo, citando esse paradoxo de passagem. Num mundo onde fatos não importam, essa estratégia é perdedora, ainda que os números demonstrem um modelo que funciona.

Críticos do sistema chileno reagiram a essa explicação com deboche. Apontam que os números não capturam a realidade pois se essa fosse tão próspera e eficiente, não existiriam protestos. Nesse ponto, os oponentes do modelo chileno estão perto de usar a persuasão como ângulo de análise mas também é aqui que se perdem: ao ignorar a explicação que se utiliza do paradoxo de Tocqueville, a esquerda rejeita a existência de uma hipótese não-material do assunto.

É uma contradição, visto que os números apresentados pelos liberais estão corretos, e ainda assim os protestos estão acontecendo numa escala jamais vista no Chile. Obviamente há uma questão psicológica, abstrata, que motiva o sentimento de revolta.

O pretexto apontado pela esquerda, a desigualdade, também não sobrevive à frieza dos número: está em queda. Hoje o índice Gini, que calcula a disparidade de renda dos países, se encontra abaixo da média do continente. Também não resiste às pesquisas de opinião que, em Maio desse ano, demonstraram que a desigualdade não é uma das principais preocupações do povo chileno, perdendo até mesmo para temas como uso de drogas.

A desigualdade não deixa de ser uma questão material, apesar de ter em seu âmago um sentimento de inadequação. Como dito anteriormente, na medida que a qualidade de vida melhora, pequenas desigualdades parecem piores do que antes. No entanto, quando vemos a pesquisa de opinião acima, fica claro que não era um ponto de tensão relevante na sociedade chilena.

Sendo assim, vemos que a esquerda rejeita completamente o uso da persuasão como ângulo de análise, enquanto os liberais até reconhecem que existe, mas não a usam de forma adequada, preferindo uma avalanche de dados que, embora importantes, não influenciam o público da maneira que gostariam.

Persuadir é, segundo Scott Adams, autor do livro “Ganhar de Lavada”: “usar ferramentas e técnicas para mudar a mente das pessoas, com ou sem razão ou fatos”. Por que sem fatos? Qualquer pessoa que já tentou mudar a opinião política de outro sabe o quanto isso é difícil. Todos nós nos consideramos racionais, mas a verdade é que nossas crenças e pensamentos adaptam o que vem de fora para se adequar ao que já pensamos. Isso é dissonância cognitiva, a racionalização de ações e fatos que são inconsistentes com nossos princípios. Todos nós aplicamos essa racionalização diariamente e não seria diferente com política.

Na política, essa dissonância se manifesta na seleção de fatos que mais se adequam às ideias que já existem na mente. As pessoas acreditam terem os melhores fatos e, quando sabem que não tem (relativamente raro), escolhem pela tangente. Sendo assim, apresentar fatos novos por si só é uma forma fraca de persuasão. Nesse sentido, liberais fracassam no debate público. Inclusives pequenos erros passíveis de críticas ajudam a ancorar mais a mensagem que se quer passar. Quanto mais se discute uma ideia, mais forte ela é na mente das pessoas.

Mas isso significa que fatos são inúteis num debate? Não necessariamente. Para uma pessoa comum, mais importa a direção para onde as coisas estão indo do que seu estado atual. Tendo isso em mente, se há um pessimismo generalizado numa sociedade, pouco importa se até então um modelo econômico X ou Y fez sucesso.

O direcionamento de um fato é mais importante que o estado atual do mesmo. Não é fatal usar fatos incorretos para defender um ponto de vista, contanto que eles estejam direcionalmente corretos.

Nesse sentido, a esquerda sempre foi mais capaz de suscitar sentimentos, tanto pessimistas quanto otimistas, pois há um foco no que a sociedade poderia ser, e não no que ela é hoje. Liberais e, principalmente, conservadores tem dificuldade em apresentar de forma vívida um futuro brilhante. Liberais por estarem mais preocupados com a análise do presente e conservadores por focarem na preservação do passado.

Aliado a essa relativa desimportância que dados e estatísticas ocupam no imaginário popular está o apelo às aspirações como recurso persuasivo de extrema efetividade. Oferecer uma visão do futuro que ajude quem precisa vai sempre ser mais persuasivo que oferecer continuidade. Nesse sentido, os agentes que oferecem mudanças, na esquerda e na direita, sempre vão ter alguma vantagem, se souberem apelar para esse fator.

Ainda mais persuasivo que aspirações é o apelo ao medo. Aí, uma desaceleração econômica pode influenciar até mesmo os chilenos defensores do modelo atual. O paradoxo de Tocqueville, citado anteriormente, tem como base o medo de se perder uma qualidade de vida conquistada. Regredir para uma condição superada anteriormente é inaceitável para muitas pessoas.

Portanto, apesar dos dados socioeconômicos exemplares para a América Latina, existem condições abstratas no Chile que ajudam a entender uma revolta que, aparentemente, surgiu do nada. O erro dos liberais é ver os dados e achar que só eles importam. O erro da esquerda é ver os protestos e desconsiderar os dados por inteiro. Não é um problema simplesmente econômico mas também de marketing.

As jornadas de Junho de 2013 no Brasil e esse movimento chileno tem muitas similaridades: são influenciados por uma percepção direcional do estado das coisas, são motivados por medos e aspirações e estouraram espontaneamente com muita velocidade. Como um protesto difuso, sem lideranças, toma corpo?

Uma sociedade está entrelaçada através de laços sociais fortes — isto é, amizade — e laços sociais fracos — conhecidos mas não amigos. Apesar do nome, laços fracos podem ser tão influentes quantos laços fortes.

Ambos os protestos, em seu início, eram compostos por grupos de semelhantes com um objetivo específico: estudantes protestando contra um aumento no preço da passagem. Ambos foram reprimidos da mesma maneira: com violência policial exagerada e com transmissão na televisão.

Todos esses estudantes possuem amizades e famílias. O povo chileno, por sua história, abomina violência policial. Os laços fortes entraram em cena e causaram um aumento no número de participantes no protesto, motivados pela amizade com aqueles que sofreram agressões.

Com a explosão dos protestos, agora não mais sobre um aumento no preço de passagem, mas sim pela violência, entram em cena os laços fracos. Pessoas que não conhecem os estudantes são pressionadas pela comunidade a participar do movimento. O futuro do movimento depende de qual identidade será adotada pelos manifestantes. Aí, a persuasão será importante mais uma vez.

No caos, a persuasão é mais efetiva. É muito mais fácil a pressão social funcionar em ambiente caótico. Nesse cenário, as pessoas são atraídas pela voz mais barulhenta e clara. Ideias simples serão preferidas em detrimento de conceitos complexos e abstratos. Se os liberais quiserem ter alguma influência nesse futuro precisam investir em ideias simples, visuais e que apelem para as aspirações das pessoas. Política, cada vez mais, é uma questão de publicidade.

Antonio Florencio

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Twitter pessoal: @antoniofqn

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