A noite

A noite é sempre o pior momento. O escuro, a incerteza, a ausência do som dos meios aéreos. O medo de que algo se pegue à minha casa, à casa do vizinho que está só a 100 metros daqui. A falta de informação e a descoordenação de quem não conhece a geografia local e se move em bando. E nos salva in-extremis, quando por vezes nos podia salvar com calma.

Este ano os incêndios invadiram o meu paraíso isolado. Entraram vindos da floresta não tratada, não cuidada, sem corta-fogos e vieram sem aviso e sem licença pelas quintas adentro. Viveram-se momentos de pânico de raiva e de heroísmo. Há pelo menos cinco heróis para cada bombeiro, há pessoas de chinelos, ténis e balde na mão que enfrentam chamas com mais de cinco metros, que ficam com os lábios gretados da proximidade do calor. Pessoas que só querem que acabe, que vêm e ajudam o vizinho, que imploram aos bombeiros que venham para ali. Que desenrolam mangueiras e ajudam como podem. De calções e chinelos. Pessoas que nunca ganharam dinheiro com as árvores, mas querem salvaguardar as suas casas e os seus animais e as suas árvores de fruta e as suas hortas. Pessoas que comem do que cultivam.

Sei que de incêndios devemos falar no Inverno e de cheias no Verão. Devemos, ou devíamos preparar-nos para o futuro, não reagir no presente, mas infelizmente vivemos num momento de reação, que nos é ensinado pelo status quo — parece que não temos tempo a não ser para reagir.

Parece que o problema dos incêndios é uma má solução de comunicações e não a falta de planeamento das florestas, a inexistência de corta-fogos, a falta de regras ou a falta de fiscalização das mesmas. Aqui, no meu paraíso não podemos falar de abandono. O que ardeu de floresta foi plantado há poucos anos e há quem viva destas árvores. Há quem não limpe, apesar de lucrar.

A noite é mesmo assustadora…