Planeta

Passei os últimos anos a olhar para o planeta onde vivo e a tentar perceber como posso contribuir de uma forma positiva para melhorá-lo, ou no limite, não o deixar pior para os meus filhos. É um desafio grande que me leva muitas horas já.

© António Pedro de Sá Leal

A questão fundamental é: como posso atuar para melhorar o ambiente?
A resposta óbvia é: consome de uma forma mais sustentável.

Certo. Não como carne, não ando de carro, reduzo a utilização de plástico, poupo água, reciclo em casa e por aí fora.

Deparamo-nos, no entanto, constrangidos pela realidade que nos rodeia. Fugir ao paradigma do dia a dia moderno não é tão fácil, nem tão simples como pensamos ou nos querem fazer querer. Olhamos para o mundo à nossa volta e temos plástico em praticamente tudo, desde os ténis que utilizamos às embalagens de comida, aos eletrodomésticos que utilizamos. As soluções alimentares que nos são apresentadas como “práticas” estão repletas de carne, e poucas são as que têm uma solução razoável que nos permita abdicar da facilidade de comer um hambúrguer, um bife, ou mesmo peixe, que acaba por ser uma solução, mas igualmente penalizadora para o ambiente.

As soluções de transportes são outro dos desafios interessantes dos nossos dias. Para muitas pessoas que utilizam o carro numa base diária, esta é a solução mais equilibrada e sobretudo mais barata. Soluções como carros elétricos, transportes públicos, bicicletas e andar a pé não se coadunam com deixar os filhos na escola, ter de apanhar 4 transportes públicos diferentes - correndo o risco permanente de greves e atrasos - pagar o custo de instalar um carregador ou o tempo disponível no dia-a-dia para nos deslocarmos a pé.

Para além disto, e apesar de acreditar que a pegada ecológica de ter um veiculo elétrico é bastante menor do que a de ter um carro a combustão, a realidade é que não vi ainda hoje explicado em lado nenhum qual o impacto que as baterias em fim de vida dos carros elétricos têm no ambiente e sobretudo, qual o custo ambiental de produzir eletricidade para os carros elétricos.

A utilização da água como recurso limitado apresenta outros problemas, sendo que os primeiros passam pelo reaproveitamento da água. Estou a falar aqui que tomo um duche de cinco minutos, mas a água leva outros cinco para aquecer e essa perde-se. As novas construções também não contemplam soluções que permitam reutilizar águas limpas ou sujas. Refiro-me também a beber água da torneira, em vez de água engarrafada em recipientes de utilização única de plástico, sabendo que muitos canos de chumbo da cidade onde vivo continuam a alimentar as torneiras, com uma completa desresponsabilização de quem vive do negócio de fornecer água às populações.

© António Pedro de Sá Leal

Em suma, hoje é mais difícil fazer do que dizer. O facto de imputarmos aos produtos que consumimos apenas o custo da sua produção, acaba por comprometer de uma forma assustadora o futuro do planeta. Um exemplo tirado dos livros. O custo da produção de energia nuclear é relativamente baixo quando comparado com energia proveniente de combustíveis fósseis, no entanto, quando verificamos o custo de armazenar o material radioativo após a sua utilização, ele não tem paralelo. Demora cerca de 10.000 anos a desaparecer e pelo caminho, mesmo que fechado em bunkers de cimento, acaba por verter para a natureza, poluindo de uma forma irreversível cursos de água e por consequência plantações agrícolas, animais e no fim pessoas. Mas produzi-lo apenas é mais barato. Foi sob esta lógica de que o que interessa é o custo de produção que construímos nos últimos 200 anos a nossa civilização. Descartamos os custos do desperdício. 
Este facto deu-se, em meu entender, a uma razão fundamental que passa pelo fato do ciclo do ambiente ser longo versus o ciclo normal de vida de um ser humano: isto significa que para mim os danos que provoca a minha geração no ambiente não são relevantes porque muito provavelmente já terei desaparecido quando eles se manifestarem em toda a sua potência. É como gastarmos todo o nosso dinheiro e algum crédito quando sabemos que não vamos ter que o pagar. O que nos impede de o fazer? Em boa verdade, nada. Este fato simples leva-nos a ignorar o impacto das nossas ações e consequentemente, quando produzimos e consumimos, funcionarmos sobre esta lógica. Esquecendo-nos com frequência que deixamos para trás filhos e netos que vão ter de viver no planeta.

Então o que fazer? Este meu dilema que acompanha os meus pensamentos não tem uma resposta única, mas algumas reflexões.

A primeira prende-se com a utilização do plástico. Em meu entender temos de valorizar o plástico hoje mais do que qualquer outra coisa. Porquê? Porque se uma garrafa de água de 20cl em vez de custar 0,10 cents de euro (e às vezes menos) custar pelo menos 5 euros, seguramente que vamos optar por comprar recipientes maiores ou reutilizáveis. É uma lógica simples do comércio — comprar ao menor custo, vender ao máximo — porque não utilizá-la a favor do ambiente em vez de a favor daqueles que todos os dias lutam apenas por si?
Esta solução pode ter escalões, o que significaria que à medida que vamos utilizando recipientes maiores o custo da água vai diminuindo. Se o recipiente for entregue para reciclar ou reutilização o valor do “depósito” do mesmo deve ser devolvido. Esta solução funciona noutros países e cidades, funcionava com as garrafas de vidro até finais dos anos oitenta do século passado em Portugal. Pode voltar a funcionar.

Os sacos de plástico de utilização única são outro dos desafios que enfrentamos. Em teoria, demos recentemente o primeiro passo para a resolução do problema com a imposição do pagamento dos sacos, mas será que é mesmo assim? Se olharmos, a maior parte das grandes superfícies comerciais passou a vender sacos, no entanto, tal como noutros aspetos, os sacos são de plástico e muito baratos: isto significa que as pessoas não mudaram o seu hábito de ter sempre consigo um saco, mas passaram a comprar sacos que depois acabam no lixo, pesa apenas o facto de por vezes serem utilizados mais vezes que os anteriores. Não aproveitamos esta oportunidade para mudar o paradigma, apenas para fingir que o fizemos.

Aliás, se pesarmos bem, a quantidade de plástico que trazemos connosco cada vez que fazemos as compras do mês, percebemos com facilidade que ele está cá para ficar.

Outra reflexão decorrente da questão do plástico e especificamente dos sacos de plástico prende-se com a questão de como mudamos o paradigma. Vejo isto de duas formas: a primeira é top/down — o poder legislativo impõe regras à economia que por sua vez responde apresentado soluções diferentes aos consumidores. Do outro lado, vejo também isto no sentido inverso: os consumidores, mudam o seu comportamento ou exigem uma mudança de comportamento de consumo o que vai imperativamente fazer a economia ajustar o seu produto em função das “exigências” dos seus consumidores, o que a prazo forçará o poder legislativo a legislar a favor dos consumidores.

© Antonio Pedro de Sá Leal

Ambos os modelos funcionam hoje na nossa sociedade, sendo que aqui o elemento mais permeável é justamente aquele que condiciona a mudança, ou seja, a economia. As empresas, as grandes empresas, com o seu poder financeiro podem e condicionam muitas vezes a oferta aos consumidores, argumentando que estão a responder apenas aos desejos dos mesmos. É aquilo que chamamos uma pescadinha de rabo na boca.

Como saímos daqui? O que é preciso fazer para que a mudança aconteça?

Diria que o desafio está com as empresas que têm de encontrar soluções que lhes sejam favoráveis, mas que defendam o planeta. Há alguns exemplos brilhantes na história recente, não percebo porque não são replicados apesar de acreditar que replicar as boas práticas poderia gerar uma revolução à escala global que poderia não correr como gostaríamos.

E comer? O que comemos?

Percebendo o impacto da criação de gado no ambiente, não consigo medir o impacto das monoculturas de agricultura intensiva que fazemos para conseguirmos alimentar os 7 biliões que somos neste planeta. Mas sobretudo, penso que o problema nem está em alimentar todos, mas sim em distribuir de uma forma equitativa o que há. 
O desperdício faz parte deste paradigma de que falei atrás e que passa por não equacionarmos o custo do desperdício o que significa prato cheio para uns e prato vazio para outros.

Mas aqui a questão passa também pelo custo para a saúde de cada um de nós pelo que comemos e confiamos ser de qualidade. Será assim? Não sei. Temo que muito daquilo que comemos não corresponda de todo ao que nos prometem.

Para já é isto. Tem sentido?