queriam que eu fosse contador

Meus pais queriam que eu fosse contador. Contador, como eles. Tinham um pequeno escritório, num bairro bacana da cidade, em uma rua onde duas árvores davam as mãos, uma de cada lado da calçada. A casa da minha tia ficava nos fundos do escritório, enquanto a do meu primo ficava ao lado. Era comum que eu passasse as manhãs ora no meu primo, ora na minha tia; assistindo tevê, comendo bolacha com leite, mingau; jogando videogame, ou fazendo qualquer coisa que uma criança da minha idade pudesse fazer para passar a manhã. De tarde ia para aula.

Meus pais queriam que eu fosse contador. Como eles. Mas eu queria mesmo era ser jogador de futebol. No caminho da escola, ia chutando as pedrinhas como se fossem bolas. Metia a blusa pra dentro do calção e passava os recreios sozinho, chutando bolas imaginárias, recriando os gols do fim de semana e criando os gols do que ainda viria. Eu era o Barcelona, o Corinthians, Flamengo, Borussia e Real Madrid. Era quem que eu quisesse, era Ronaldinho, Giuly e Eto’o, metamorfoseados numa criança de oito anos.

Quando contei a minha mãe que seria jogador de futebol, não houve oposição alguma. Pelo contrário, me repreendeu: não pense em ser o terceiro melhor do mundo, tu vai ser o melhor.Contudo, eu tinha os pés no chão, era impossível que não houvesse, no mundo todo, dois ou três moleques de oito anos melhores que eu. Ser o terceiro melhor do mundo, essa era minha meta. Por sua vez, meu pai fazia pouco caso. Hum, legal.

A culpa era toda dele, afinal. Foi ele quem me levou ao estádio, me ensinou o que o bandeirinha fazia, quem era o juiz e me mostrou os canais de tevê que passavam futebol. Porém, era compreensível seu descaso, isso não estava em seus planos para mim. Meus pais, repito, queriam que eu fosse contador. Mas não, eu queria mesmo era ser um astronauta.

Viajar pelo espaço, destruir naves inimigas, pisar na Lua. Na Lua o caralho, eu ia pisar em Marte, Júpiter, Plutão. Ia fazer o escambau no espaço, dar piruetas no vácuo, atirar armas de raio laser em rochedos, operar satélites defeituosos, enfim, faria tudo que a mínima gravidade pode permitir. Eu era um astronauta e o espaço era, pra mim, o quintal do escritório-dos-meus-pais/casa-da-minha-tia. O cachorro era um marciano e meu triciclo era a nave.

Até que meu pai me advertiu: Com menos de um e oitenta tu não entra nem na aeronáutica. Eu devia ter menos de um metro e vinte centímetros na época. Não, com certeza eu tinha bem menos que isso. O que eu tinha também eram duas certezas: era baixo e meus pais eram baixos. Contudo, o tempo era ao meu favor, tempo atrás do qual correr.

Comia como um touro, cada colherada era um investimento na minha altura, podia me sentir crescer na cadeira durante o jantar, a cada garfada eu ficava mais perto dos um metro e oitenta. Andava sempre com a postura ideal, espichava os músculos das costas e também das coxas, além de tentar alongar o pescoço os braços.

Todo o esforço foi em vão, mal passei de um e setenta.

Tem profissões que servem até para cachorros, mas não para homens baixos.

Eu ainda poderia ser contador, e meus pais queriam que eu o fosse. Mas não, não eu, eu queria ser o Zorro. Mascarado, eu corria pela pelo quintal do escritório/cafofo-da-tia empunhando uma espada de bico arredondado, e a capa negra ondulava às minhas costas. O cachorro era o dragão e, embora não houvesse dragões nas histórias do Zorro, eu o chicoteava sem dó. Entretanto, a vaga do Zorro já estava preenchida por um outro Antonio, um espanhol, o Banderas.

No geral é assim mesmo que ocorre, os sonhos se amontoam pelo caminho. Ora se é muito baixo, ora muito alto, ora não se é esperto o bastante, ora não se tem sorte. Ou, por vezes seguimos o roteiro que planejamos, executamos com certa debilidade, mas o executamos e, num desvio, a vida deixa a desejar.

Meus pais, por exemplo, queriam que eu fosse contador.

Já eu não, eu queria mais era ser jogador de futebol, astronauta, o Zorro, o Batman, dono de um zoológico, ator de novela. No fim das contas, virei contador, mesmo: um contador de histórias.