Tua roupa em outros quartos — Capítulo 1

Os últimos cinco quilômetros são os mais demorados de toda a viagem. As placas contam de trás para frente. É como se eu pudesse ver a mãe torcendo a coluna no banco dianteiro do carro, me puxando o pé para que acordasse e visse o mar surgindo por trás da vegetação. Óculos maiores que o rosto se apoiavam em seu nariz de suíno, enquanto dizia Nando, acorda. Já passamos pelo túnel, ó lá o mar. Lembro também de ter cruzado os braços e fincado o queixo no peito, com as bochechas infladas e a testa franzida. Levou um tempo até que ela percebesse e me perguntasse o que houve. Respondi que queria ter visto o túnel, e ela deu risada, enquanto o pai balançava a cabeça com irritação, as duas mãos coladas no volante. A mãe disse que estava tudo bem, me acordaria para ver o túnel na volta, quando competiríamos para ver quem aguentava mais tempo sem respirar.

O carro desliza por toda a extensão do túnel. Seguro a respiração até chegar ao fim, liberando tudo de uma só vez. Naquela manhã fez sol. De cima do morro, era possível ver toda a extensão da praia e o mar de um azul vivo. Hoje faz noite e a única coisa que se vê são as tartaruguinhas amarelas na borda da rodovia, vindo na minha direção em alta velocidade. Abaixo o vidro, sinto o cheiro do mar. O carro do vô, uma caminhonete branca, é consideravelmente mais alto e mais largo que o Peugeot dos meus pais. Estimo que também custe muito mais, embora meu conhecimento automobilístico seja restrito a eventuais revistas de salas de espera em clínicas médicas. Suas dimensões inibem meus movimentos na direção, e tenho a sensação de estar conduzindo uma máquina da morte. Em compensação, as rodovias federais de Santa Catarina são consideravelmente mais amplas que as ruelas do Porto, onde rodei meus primeiros quilômetros. Meu assento está levemente desajustado, e meus olhos pesam. A bebida no sangue combate minha insegurança, a ansiedade anula o sono. Sinto que aprendi a dirigir roendo unhas.

A mãe me chacoalhava a perna e o pai dirigia, apesar das inconstantes, porém imprevisíveis, crises de pânico que lhe acometiam. O pai não deixava a mãe dirigir nunca, por isso eram raras as vezes em que socávamos nossas roupas em uma mala individual e viajávamos aonde quer que fosse. Neste verão, o de noventa e sete, estávamos indo para Itapema, onde passaríamos as férias de verão no apartamento do vô, a uma quadra e meia de distância da praia. O Gol verde dos meus tios nos seguiam no nosso encalço, com Bruno, meu primo mais novo, jogando minigame no banco traseiro. Eu e ele éramos razoavelmente compatíveis, levando em conta os dois anos de diferença. De última hora, faltou espaço no carro dos meus tios, fazendo com que o Super Nintendo do Bruno não pudesse vir à praia conosco, o que fez com que nossas férias fossem reduzidas a tevê aberta, jogos de tabuleiro e banhos de mar. Os jogos de tabuleiro não eram tão interessantes de se jogar com o Bruno porque, aos cinco anos, ele tinha alguma dificuldade em assimilar e respeitar as regras do jogo. Ainda que com uma percepção mínima dos mecanismos, Bruno se saía surpreendentemente bem, o que me deixava ainda mais frustrado. Na praia, por sua vez, Bruno logo sentia frio, saía da água e se enrolava em uma toalha de banho para se aquecer. Por isso, eu costumava brincar sozinho a maior parte do tempo, na ponta dos pés para poder ir um pouco mais para o fundo sem infringir a lei mais importante da praia e que meu pai insistia em repetir: água no umbigo, sinal de perigo. No entanto, meu pai ou meu tio também entravam na água algumas vezes, fazendo com que os parâmetros umbilicais, em consequência, se elevassem.

Tomo a marginal e subo até um viaduto de paredes decoradas com grafites encomendados pela própria prefeitura. Bela merda, eu penso, antes de virar à esquerda. Bem-vindo ao município de Itapema, dizem as letras brancas de uma placa azul cravada no chão. Chego à Avenida Nereu Ramos e começo a buscar pelo endereço. Há mais trânsito na cidade que na BR, apesar da madrugada. Itapema é como qualquer cidade média de Santa Catarina, nem parece praia. Prédios altos cercam o mar, enquanto as ruas estão apinhadas de carros guiados por gente bêbada. É alta temporada, e nas calçadas barzinhos e restaurantes disputam o dinheiro dos turistas com camisetas que dizem amar Santa Catarina e cerveja.
Meu senso de localização demora a responder aos estímulos da cidade, e não sei ao certo onde estou, e também não sei aonde vou. 254 é a rua. Por mais que a informação seja bastante exata, dobro a esquina errada e entro na contramão. Por sorte, não vem ninguém no sentido contrário. Preciso contornar a quadra, para daí então acertar a rua do apartamento. É o terceiro edifício da rua, a partir da Nereu Ramos, avenida paralela ao mar. Busco no porta-luvas o controle que aciona o portão elétrico da garagem, fazendo com que o mesmo suba e se deite suspenso. Estaciono o carro, bato a porta e caminho até a recepção do prédio.

A primeira decepção que tive naquelas férias foi o nome do prédio, inscrito em uma pedra no jardim em frente à entrada principal. Se o apartamento era do vô, por que se chamava Edifício Helena? Por que não Edifício Orlando? A segunda decepção veio quando minha mãe perguntou o que eu estava fazendo na hora em que apertei no botão doze do elevador, pressionando o sete logo em seguida. Disse a ela que queria ficar no andar mais alto de todos. Bruno e eu passamos a semana imaginando como seria olhar as pessoas lá de cima, os carros, as bicicletas. Como seria divertido quando a chuva começasse a cair no fim da tarde e os pedestres buscassem abrigo em toldos, guarda-chuvas, sacolas plásticas, cadeiras de praia ou nas próprias mãos. A mãe disse que a gente não podia ficar no doze porque o apartamento do vô era no sete. O apartamento era dele, mas o prédio não. O prédio era de várias pessoas. Algumas delas moravam no um, outras no dois, outras no doze e o vô no sete. A pedra continua no mesmo lugar.

Dou boa noite ao guarda da recepção, desconfiado de mim por chegar a uma hora dessas. Sou neto do Orlando, digo a ele, que resmunga e volta a se acomodar na cadeira de couro sintético. Aperto o botão desgastado do elevador, até a luz vermelha acender. Aguardo, a porta se abre e eu entro. Um, dois, três, quatro, cinco, seis e sete. O elevador para, espera um segundo e abre para uma parede cor de leite da metade para cima e verde escuro da metade para baixo. Ouço a porta se fechar às minhas costas e procuro pelo molho de chaves em meus bolsos. Antes de inserir a primeira na fenda da porta, penso se realmente quero fazer isso. Giro a chave de cima e logo depois a de baixo, cujo cilindro se assemelha a um projétil, e que faz mais barulho que a anterior. Respiro fundo e abro a porta do apartamento.


Tua roupa em outros quartos é meu primeiro livro e será publicado em novembro pela Editora Patuá. Você pode comprá-lo na pré-venda aqui: https://goo.gl/pbZuM5
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