um conto sobre política, infância e carecas

Votei no Lula porque o Serra parecia o mosquito da dengue e votei no Luiz Henrique porque o Amin era o mais careca. Era 2002, me sentia adulto. Apesar de ser domingo, era dia de escola. Porém quase não se viam crianças pelo pátio, mas sim seus pais, com uns papéis verdes plastificados em mãos. Entramos em uma sala de aula, as cadeiras e meses amontavam-se num canto. No outro, ficava uma urna solitária, escondida. Minha mãe me pegou no colo e fomos até lá. Aliás, não sei se isso era permitido, então é possível que esta seja uma daquelas falsas lembranças, mesmo que em minha mente seja cristalina, mesmo que eu consiga sentir nos dedos o relevo do braile, é possível que isso nunca tenha acontecido de verdade.

Aos seis anos, votei nos menos piores, digamos. O Lula era um político às avessas. Estava mais pra um líder de associação de bairro, ou um desses senhores pacatos que organizam caravanas solidárias pela igreja, usando um boné de campanha eleitoral (provavelmente, da sua). Poderia também ser um desses tiozões que estão sempre bêbados nas festas de família e fazem perguntas embaraçosas às crianças dos outros. Não é difícil imaginá-lo falando, é pavê ou pacumê?, se desmanchando em gargalhadas. Ao mesmo tempo em que baba na mesa. Veste nada além de uma bermuda e chinelos de dedos; a barriga apoia-se sobre as coxas e senta-se em uma cadeira de plástico com estampa de marca de cerveja. Era impossível, para mim, ver qualquer malícia naquele homem.

O Serra, eu via na televisão, distribuía comida e roupas aos pobres. Aparentava ser totalmente dedicado e caridoso. Era magro e alto, tinha o rosto chupado, lembrava vagamente o meu avô. Mesmo que não tivesse um jingle tão forte e pegajoso como Lula-lá, decidi, o Serra tinha o meu voto.

Contudo, meu padrinho interveio. Não vota no Serra, não, Betinho, ele parece o mosquito da dengue. Hoje, me lembra mais o Sr. Burns, mas de fato, José Serra era a cara do mosquito da dengue. Quem votaria num homem que mais parece um pernilongo para Presidente da República?

Pois eu não, votei no Lula.

Já o Luiz Henrique era um senhor cheinho, um velhinho parrudo. Tinha um bigodão debaixo do nariz, de fazer inveja a qualquer um, e olheiras que revelavam um homem cansado e absolutamente devoto ao ofício. Além do mais, era da minha cidade, pelo que minha mãe me contou. Ela me disse ainda que ele tinha feito muito por nós e que seria ótimo que ele se tornasse Governador.

Algumas recordações improváveis tornam essa narrativa um tiquinho inverossímil. Lembro-me de visitar seu adversário, Amin, em um leito de hospital. O Amin tinha uma careca brilhante. Era o homem mais careca que já existiu. Parecia um ovo. Ou um daqueles gatos pelados, de pelo puxado. Suas orelhas eram pontudas, parecia triste e mau. Na tevê, o Felipe, jogador do Flamengo na época, dava uma lambreta incrível num marcador do Fluminense. Era uma tevê de 14 polegadas, daquelas quadradinhas. Amin assistia ao lance deitado em sua cama, e eu também o fazia, de pé, ao lado da porta.

Por mais que eu não quisesse votar em um careca, Luiz Henrique também o era. Parece que ouvi alguém dizer, no dia da votação, que política era assim mesmo.

Escolher entre o calvo e o careca.