Diário de um Colapso

Como a FEI e a Comitê de Organização transformaram o Mundial de Enduro num inferno

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Pré-Escrito

Contarei aqui todo o desencontro de informação e desorganização que desencadeou no maior absurdo que já se viu em mundiais de enduro na história, mas antes há que se fazer uma ressalva. Os voluntários do evento e as pessoas da região foram extremamente solícitas, gentis e amáveis. Todos tentaram ajudar — até mais do que poderiam — se solidarizaram conosco e se responsabilizavam por problemas que nem eram deles. Foi uma verdadeira aula de civilidade e senso de comunidade.

04/09/2018 — A Chegada dos Cavalos

Por volta das 09:00 chega o caminhão que trazia os cavalos da quarentena de Miami. Se contorcendo pelos apertados caminhos do parque de Tryon e dividindo espaço com tratores e guindastes alcança as últimas cocheiras, nas quais ficaríamos. Após descerem, os cavalos não podem passar por cima da grama nem caminhar um pouquinho, tudo graças à USDA e sua nóia com a Piroplasmose. Direto para as cocheiras, os cavalos que pegaram dois vôos, 14h de caminhão e estavam presos na quarentena há 7 dias continuariam parados por pelo menos mais um.

Vendo a USDA esterilizar o caminhão como se ali tivessem amostras de Ebóla tive a idéia de pegar um fardo de feno antes que eles o inutilizassem. Idéia que se mostrou muito útil, já que na sequência descobriríamos que no parque ainda não havia feno ou ração (nós eramos proibidos de levar os nossos) e ninguém sabia quando chegariam. Foi o primeiro de muitos “I dont know” que ouviríamos, quase um mantra de nossa estadia.

O segundo viria logo em seguida: as acomodações para os grooms não estavam prontas e ninguém sabia quando ficariam. A organização providenciou um hotel para eles a 20 minutos do parque e lá fomos nós instalá-los. De lá rumei para o hotel que haviam designado para mim, a 25 minutos do parque, mas na direção contrária, ou seja, a 45 minutos do hotel dos grooms.

05/09 — Misinformation

Os grooms acordam com um papel sob suas portas: deveriam deixar os quartos, uma vez que havia acomodações para eles no parque. Se “I dont know” seria nosso mantra, a desinformação era uma constante da viagem e aí estava o primeiro exemplo. Chegando no parque não havia acomodação nenhuma, mas garantiam que até o final do dia os lodges estariam prontos.

Os cavalos já podiam caminhar no picadeiro e a tarde poderiam sair pra trilha, mas nunca pastar ou ter contato com a grama, como se isso fosse infectar os EUA com Piro.

A área de Vet-Check há 5 dias da prova

Logo após o almoço soubemos que a promessa de trilha não seria honrada e que apenas o picadeiro continuava liberado. A segunda promessa — os chalés para os grooms — tão pouco seria cumprida, mas essa notícia só chegaria à meia noite e meia, uma hora depois de, cansados de esperar, reservarmos um quarto para que eles passassem a noite (o que até agora não foi reembolsado pela organização)

06/09 — No lodge and no parking

Chegando no parque pela manhã somos surpreendidos por uma nova regra: os carros não podem mais chegar até as cocheiras. Não dizem porque nem até quando este seria o caso (“I dont know”). Mesmo tendo coolers, gelo e outras coisas pra descarregar não podemos passar. Estacionamos a mais ou menos 2kms de distância das cocheiras e vamos andando, carregando as coisas, até que algum voluntário com carrinho de golfe passe e ofereça uma carona.

Imaginamos que a nova regra seja para dar mais agilidade às obras que se espalham por todos os cantos de Tryon e que dão a impressão que nada ficará realmente pronto até a data de abertura, no máximo ficará mais ou menos ajeitado.

Sobre a acomodação para os grooms nenhuma novidade séria: apenas desculpas e a promessa de que farão um novo pavilhão e blablabla

07/09 — Even less parking. And a crane!

Agora nem no estacionamento antigo podemos parar os carros. O novo local fica ainda mais longe — uns 3 kilometros das cocheiras. O que era uma merda ontem é o sonho de hoje e o pior de tudo é a falta de aviso prévio: chegamos carregados de água mineral porque os cavalos estranhavam a água da torneira do parque e não queríamos que eles se desidratassem. Passando pelo meio das obras chegamos suados até os cavalos

Chegando lá, uma surpresa: há um guindaste na entrada

08/09 — Lodging!

Finalmente recebemos a chave dos chalés dos grooms. Uma casinha com um beliche, ar condicionado, privada e chuveiro. Simples, mas funcional.

Com os cavalos tudo vai bem, apesar de reclamações de que o ar condicionado das baias está muito frio (provavelmente para matar os carrapatos que a USDA tanto teme — e que na verdade nem estão lá) e dos desvios que temos que fazer para treinar sem dar de frente com um caminhão de cimento ou um trator.

A prova ainda está longe, mas o cansaço já bate: os 3kms que temos que percorrer entre carro e cocheira — normalmente carregando alguma coisa — vão se somando. Vez ou outra arrumamos alguma carona, mas normalmente saímos de Tryon num horário no qual não há mais voluntários com carrinhos de golfe e temos que andar mesmo.

09/10 — No parking at all

Ao acordar recebo a informação de que agora é necessário apresentar um car pass para estacionar no parking a que começava a me acostumar (a merda de ontem é o sonho de hoje, de novo). Para recebê-lo basta apresentar o passaporte e a credencial de atleta no Accreditation. Chegando lá a informação é confirmada pela solícita voluntária que tenta me ajudar, mas é seguida de uma má notícia: como já haviam distribuído car passes demais para o pessoal do enduro, alguém levou a caixa com eles embora! Onde eu posso estacionar? Como chegar até as cocheiras? “I dont know”.

Depois de falar com 5 pessoas diferentes, esperar por ligações que nunca vinham e me juntar com dois outros enduristas na mesma situação recebo uma credencial diferente, que me daria acesso ao estacionamento. Chegando lá o guardinha do local me informa o contrário: aquela nova credencial é idêntica à que eu tinha antes e não me dá direito de estacionar o carro ali. Vendo que eu me encontrava a beira do descontrole ele me aconselha: há um caminho de terra atrás do Accreditation que leva a um local próximo às cocheiras. Pego essa estradinha e chego no estacionamento dos caminhões das obras do vet-check. Mesmo com o guardinha desse novo local me proibindo de deixar o carro ali, estaciono, descarrego os 60 litros d’água que trazia comigo e chamo alguém para me ajudar a levá-los para os cavalos. Entre broncas de stewards e questionamentos de guardas do parque, chego até as cocheiras.

Nosso “caminho da roça” para chegar do estacionamento até as cocheiras

10/09 — Moving Day

Informações metereológicas (não muito mais confiáveis que aquelas da organização do WEG, mas pelo menos com o baixo grau de confiança conhecido) davam conta de que o furacão Florence possivelmente atingira Tryon nos próximos dias. Dado que a chuva durante a última noite já inundara parte das baias que estávamos decidiu-se que mudaríamos os cavalos para outras cocheiras, essas de concreto e preparadas para resistir a ventos muito mais fortes que as temporárias.

Mesmo estando a apenas 2 dias da prova, a mudança foi tranquila. Empacotamos as coisas, a organização providenciou empilhadeiras e tratores para o transporte e o novo pavilhão era muito melhor que o anterior. Bem que poderíamos ter ficado lá desde a chegada!

Engraçado que de tudo que deu errado a organização só soube lidar com o único evento que era imprevisível e não estava sob seu controle.

11/09 — Pre-vet and last minute calls

O pre-vet foi tranquilo, contando com a bagunça normal de um mundial. É muita gente, muito cavalo e tudo isso num evento que acontece uma única vez (diferente de uma prova anual, na qual todos já sabem como as coisas funcionam, por exemplo). É verdade que caminhões e tratores ainda passavam ao lado dos cavalos, mostrando o despreparo e desrespeito da organização com o evento, mas na prática não houve maiores percalços durante a inspeção inicial.

Já até estávamos acostumados com a indefinição e decisões de última hora: os adesivos para os carros de apoio só seriam entregues no final do dia e a informação de como funcionaria a distribuição de gelo apenas na manhã da prova.

Ouvi muita gente dizendo que a situação era caótica. Eu discordo. O caos tem a capacidade de se auto-organizar, normalmente chegando num equilíbrio funcional. Não era o caso aqui: o problema é que os americanos criavam regras e controles que eles mesmos não conseguiam cumprir, mas exigiam que os demais o fizessem. O resultado era que era impossível se adaptar à situação, escolher o melhor modo de agir e fazer as coisas funcionarem porque a organização simplesmente não deixava que isso acontecesse — e quando acontecia mudava as regras e procedimentos da noite pro dia, tornando tudo disfuncional novamente.

A certeza era de que a prova seria muito complicada, mas ninguém nunca imaginaria o que aconteceria no dia seguinte.

12/09, 05:30 (todos os horários são aproximados) — Estranho

Chego no parque e vou direto para o vet-check. Se passasse antes nas cocheiras perderia meia hora. A informação que nos chega é que os cavalos só poderão sair de lá às 06:00, sendo que a largada é 06:30 e o percurso entre os dois locais demora no mínimo 15 minutos! Estranho!

06:15 — Mais estranho

Os cavalos chegam e logo montamos, afinal só faltam 15 minutos para a largada. Nos juntamos ao bolo de cavaleiros e somos conduzidos para uma ponte a direita do vet, de onde deveria ser a largada. Trata-se de um local perigoso para uma largada, ainda mais porque a ponte não tinha parapeitos.

Esperamos pela largada até que o oficial que nos conduzia, claramente transtornado pela desinformação que recebia pelo walkie-talkie, nos conduz de volta ao vet e de lá para a trilha que usávamos para treinar os cavalos, onde havia um portal e uma largada montadas

06:45 — Ainda mais estranho

É dada a largada! A quantidade de cavalos presentes parece pequena, muito menor do que os 124 participantes que passaram na inspeção inicial. Damos uma volta no lago do CCE, subimos de novo em direção ao vet e então descemos, atravessando a ponte da pseudo-largada. No pit-stop nos informam que a ponta está 40 minutos na nossa frente e que faríamos parte de um grupo de 70 cavalos que haviam errado a trilha. No ponto de apoio seguinte uma informação mais apurada: houveram 2 largadas em horários e locais diferentes, a prova será cancelada e uma nova largada, para 120kms, acontecerá num horário a definir.

09:15 — Indefinições e definições

Chegamos, passamos pelo barro que a obra de última hora deixou, entramos no vet e minha égua manca. Uma manqueira leve, mas constante. É uma merda, mas é o esporte que escolhemos. Foda ter todo esse trabalho, todos esses dias carregando peso pra cima e pra baixo para fazer 1 anel e sair fora. Mas acontece, já estamos acostumados e com toda essa confusão a coisa fica até menos pior. Aqui mais um exemplo da desorganização da prova: minha égua não passou pelo hospital como acontece com todos eliminados em provas 4*. Até nas coisas pequenas, ou naquelas que já são automáticas em provas grandes, haviam desinformação e falta de coordenação.

Boatos a mil de que a prova será cancelada. O pessoal do UAE passa um abaixo-assinado para que o mundial seja remarcado para a Europa dentro de alguns meses com os custos pagos pelo Sheik, 20 países assinam, 4 não (entre eles o Brasil)

Define-se que haverá mesmo a largada para a prova de 120kms às 11:15. Quem fez o anel inteiro reclama que os demais terão uma vantagem por ter feito menos kms e ter descansado mais, quem fez o anel menor acha ruim por tê-lo feito rápido. Emirados e Espanha dizem que não vão largar, o Sheik Hamdan que teria que reapresentar seu cavalo não o faz.

11:15 — É dada a (re)largada

Com Espanha, com UAE, com todo mundo (que passou no vet) larga-se para 120kms, seguindo a ordem prevista dos anéis (ou seja, começando pelo que seria o 2o anel). Passados os 30kms da trilha amarela, uma surpresa no vet-check: grande parte dos cavalos é penalizada e precisa tomar o batimento novamente. Mesmo com a chuva intermitente o calor se faz presente e cobra seu preço.

O 2o anel da nova prova (que seria o 3o da de 160kms) é o grande desafio: 40kms no calor com uma topografia fatigante (nada fora do comum, mas longe de ser uma planície completa). Mesmo com 70kms nas costas o ritmo continua forte, com uruguaios e espanhois a frente. Na chegada, mais penalizações, muitas das quais resultam em eliminações por batimento cardíaco.

Na chegada do Sheik Rashid, primo do Hamdan, a juíza o chama para pesar. Ele se nega, sua equipe começa a jogar água no cavalo e na própria juíza! Somem com a sela e tudo fica por isso mesmo, apesar da gritaria ao redor. No vet, seu cavalo é eliminado.

Comento com o Olavo que essa é a prova mais desorganizada que eu verei em todo minha vida, já que sou incapaz de imaginar algo pior.

Juma, Alex Luque, Jean Philippe Frances, Maria, Omar e Pedro Marino largam para o penúltimo anel — todos os cavalos parecem bem e o clima é de euforia nas barracas brasileiras pelo desempenho de Komo e Moscou: a parte difícil da prova havia sido superada e ambos estavam em condições de, no mínimo, completá-la com louvor — ou até correr pra cima dos gringos que estavam a frente.

17:00 — O grande desrespeito

Surge a informação de que com os eliminados do anel de 40kms o hospital está lotado. Aventam a possibilidade de que se abrirá um novo em outro pavilhão.

De repente, informam que a prova será cancelada. Os chefes de equipe de França, Espanha, Brasil e outros países que continuavam na prova se dirigem ao vet para conversar com o júri.

Ana Carla e os 3 outros franceses largam, já sabendo da possibilidade de cancelamento.

Passados alguns minutos o sistema de som do parque anuncia que a prova está cancelada, por excesso de cavalos no hospital e condições climáticas. Cavaleiros, grooms, veterinários e demais integrantes de quase todos os países presentes se aglomeram na cerca que separa a área de resfriamento do vet. Vaias e gritos de protesto (“Shame! Shame! Shame!”) são constantes e a possibilidade de invasão parece real

Stewards e oficiais tentam acalmar os ânimos, o que só piora as coisas. A polícia é chamada. Com os policiais dentro do vet o risco de invasão diminui, mas materializa-se o fracasso da organização da prova. No enduro, onde todos se conhecem, são amigos e contribuem para o bom andamento das coisas, um policial dentro do vet simboliza que tudo — absolutamente tudo — foi mal feito e deu errado. A necessidade da contenção física dos participantes é a derrocada daqueles que tomaram as decisões e estiverem a frente da organização, uma espécie de falência moral

Os 3 franceses e a Ana Carla voltam da trilha, chegam à área de resfriamento galopando e entram no vet montados. O público vai a loucura, aplaudindo e gritando palavras de ordem contra a FEI. Os veterinários assistem ao galope dos 4 de seus lugares e os juízes tentam fazê-los sair dali.

“C’est la révolution!”

Na chegada de Juma e Alex Luque e de Pedro Marino cenas semelhantes se seguem. O clima é de união da comunidade endurista contra os desmandos da entidade que organiza o esporte. Por parte dos cavaleiros que tiveram seu sonho interrompido senti grande decepção e raiva dos dirigentes, mas orgulho de seu desempenho e a alegria de ter feito uma prova exemplar. Como cavaleiro entendo ambos: o sentimento de ver o esforço de anos não reconhecido e a sensação da conquista independente do reconhecimento oficial

Pós-Escrito

Num momento como esse é difícil separar boas intenções de oportunismos baratos. A proposta dos árabes de fazer o mundial na Europa era um gesto de boa vontade ou uma tentativa de minar a influência da FEI e trazer a organização do esporte para eles? Por outro lado, a decisão de não se cancelar a prova no 1o anel depois de erros tão absurdos me parece mais uma aposta política para não se assumir os erros do que uma decisão técnico-esportiva (aposta essa que deu errado e perdeu-se dobrado).

Pessoalmente não acredito em teorias da conspiração, de que os sheiks teriam comprado o cancelameto da prova ou a causado de alguma maneira. Me parece uma explicação simplista para uma situação complexa e cheia de atores — muitos dos quais adorariam ter essa informação para compartilhar. Evidente que se o Sheik Handam estivesse na trilha a decisão seria outra, mas isso é muito diferente de achar que ele que mandou parar a prova.

E agora, o que será do enduro e de seus mundiais? Fala-se em uma organização independente da FEI, o que certamente seria um belo recado para a falta de competência e arrogância dessa, mas ao mesmo tempo me parece que seria jogar o esporte nas mãos daqueles que já compraram quase tudo que podiam e não podiam. Talvez a própria FEI queira se afastar do esporte ou tirá-lo dos WEGs, já que a interação com os outros esportes é tão difícil. Soluções simples existem mil, as que funcionam ainda estão por vir e, se aparecerem, serão produto de muita discussão.

Update

Em seu comunicado sobre a morte do cavalo neozeolandês Barack Obama a FEI aproveitou o fato para reforçar seu entendimento de que a decisão tomada foi acertada. Trata-se de uma atitude oportunista, simplista, cínica e mentirosa. Tenta resumir a questão ao cancelamento da prova no 4o anel, quando na verdade deve-se discutir toda a atuação do Comitê de Organização antes da prova e após o 1o anel. Se o falecimento do cavalo nos diz alguma coisa é que a FEI errou ao planejar a prova e ao não interrompê-la após a 1a etapa (tanto é que a morte não foi evitada!). Ao cancelar a prova no 4o anel a FEI nem protegeu os cavalos que não tinham condições de fazer a prova (cuja quase totalidade já não tinha passado no vet da 3a etapa) nem respeitou aqueles que superaram tantos desafios e se encontravam aptos a conquistarem um resultado importante.

O comunicado também classifica o clima do dia como inesperado, o que é a mais pura mentira: meses antes da prova já se imaginava que o tempo seria quente e úmido, como é típico da época na região. Pior: quem definiu o número de etapas (5) e suas distâncias, decidindo fazer um atípico 3o anel de 40kms, foi a própria FEI. Desta vez não se pode dizer “I didn’t know”!

O atestado veterinário de liberação para viagem foi um bom exemplo da organização do evento