Dois Palmos

O vento esticou as bandeiras do Brasil e de Minas Gerais até que parecessem rígidas e imóveis nos respectivos mastros. Depois se debatiam e por fim se enrolaram desordenadamente. Suzana segurou sua medalha, que pendia do pescoço, e tentou achar uma posição que permitisse ver em reflexo o contraste entre o verde, o amarelo, o azul, o branco, o vermelho e os caracteres. Mas o material por baixo da fina camada de tinta prateada não era suficientemente liso para refletir muita coisa.

Havia duas pessoas ao alcance dos olhos: uma mulher que parecia um homem, muitos metros à frente, e um rapaz que praticava corrida, surgindo de tantos em tantos minutos cada vez mais esbaforido. Bia, Laura, Francisco, Paulo, João Paulo, Tereza e os outros deveriam passar por ali, mas não havia sinal deles. Suzana observou a superfície do banco onde estavam sentados, ela e Renato, e acariciou as pichações. Percebeu que os nós de seus dedos ficaram sujos de giz amarelo e tentou limpar no gramado, sem muito sucesso. Só para variar, a brincadeira que Renato inventou começava a ficar ofensiva.

“Se eu fosse o Caetano Veloso, diria que você é mais oca que a touca de um bebê sem cabeça.”

Suzana virou os olhos. Que jogo idiota. Caetano Veloso! Pensou por um instante e rebateu:

“Se eu fosse o Los Hermanos o vento diria que você é um otário.”

Renato sempre respondia mais rápido.

“Se eu fosse o Charlie Chaplin eu não diria nada.”

“Se eu fosse de direita diria que você é de esquerda.”

Ele tentou anular a jogada, afirmando que era realmente de esquerda. Ela não aceitou a apelação.

“Você não é de esquerda, é canhoto.”

“Se eu fosse mulher diria que você é lésbica.”

Foi mais uma cantada do que um insulto. Foi um desastre de cantada, na verdade. Ela se fez de desentendida. Correu os dedos nos cabelos úmidos.

“Se eu fosse otimista diria que você tá fodido.”

“Se eu fosse sua ginecologista diria ‘amiga! Precisamos ter uma conversa’.”

A brincadeira envolvia manter uma expressão séria, mas aquela foi boa. Ela soltou uma risada. Pensou numa resposta à altura:

“Se eu fosse o seu dentista, diria ‘hahahahahahaha!’”

“Se eu fosse seu psicólogo pagaria pra você calar a boca.”

“Se eu fosse muda, mostraria o dedo pra você. Assim, ó.”, mostrando o dedo médio.

“Se eu fosse homem-bomba, diria que você se exploda.”

Suzana fingiu indignação. Respondeu, circunspecta:

“Se eu fosse ambidestra torceria seus dois mamilos ao mesmo tempo.”

Ele se contraiu. Até onde sabia, Suzana era ambidestra e agressiva o bastante para colocar em prática a ameaça. Hoje mesmo nadou feito um tubarão. Ganhou medalha de prata. Quando ela fosse para o ensino médio não teria para ninguém. Ele só conseguia nadar como um sapo, no máximo.

Renato abraçou a mochila quase vazia. Sem pensar muito, continuou:

“Se eu fosse você eu me matava. Quer dizer, suicidava.”

“Se eu fosse você… porra, apelou.”

Ele tentou emendar, com uma risadinha:

“Se eu fosse você eu não me matava!”

“Mas você não é!”

Ela se levantou. Já sentia a bunda adormecendo por causa do banco de concreto. Olhando de baixo para cima, ele pediu:

“Não me mata, Su. É só um jogo!”

“Se eu estivesse brincando, diria que você perdeu.”

“Boa, boa! Se eu pudesse voltar no tempo…”

“Eu estaria rica.”

“…acho que tiraria mais fotos, sabia?”

Ela sentou de novo, contrariada.

“Sim, você só tem umas duas.”

“Eu tenho que comprar uma câmera.”

“Vambora? Todo mundo já foi, não quero esperar mais. Tá ventando muito aqui.”

“Coitada. Quer que eu chame uma ambulância?”

Você vai precisar de uma ambulância já, já, se não calar a boca.”

“Se eu fosse uma ambulância, diria ‘uuuiiiiuuuuuiiiiuuuiiii’…”

“Mas que saco, Renato!”

Ela levantou mais uma vez, fechando o casaco de nylon sobre a medalha e ajeitando em um só ombro a mochila pesada.

“Quando esse jogo termina, Jesus?”

“Se eu fosse Jesus não te perdoaria.”

“Morre!!!”

Silêncio. O vento zuniu nos ouvidos de Renato. Ele falou:

“Acho que ganhei.”

Ganhou um soco na nuca, bem em cima do rabinho ridículo que nascia ali. Não doeu muito.

“Parabéns. Você é o melhor. Agora vamos.”

Andaram no meio das duas pistas, sobre a grama, por uns duzentos metros. Ela ia na frente, ele atrás. Não conversavam, apenas olhavam para o chão, tentando se manter em linha reta; o canteiro era estreito.

Pararam no fim da faixa gramada, onde havia um cruzamento. Esperaram menos de dois minutos até saírem correndo para atravessar. Uma caminhonete teve que frear para não acertar Renato; ele tentou disfarçar o susto. Olhou para Suzana, que continuava andando na frente. Puxou um assunto:

“Você já viu o Alien?”

“Não existe isso.”

“Não, o filme. Passou ontem de madrugada.”

“Ah, tá. Eu tava dormindo.”

“Tem uma cena que ele…”

Distraiu-se com um cachorro de rua que também quase foi atropelado; deixou a frase incompleta. Ela disse:

“Bem interessante, hein?”

“Ele tem uma baba nojenta que parece um catarrão, fica escorrendo…”

Suzana achou que ele falava do vira-lata. Ele falava do filme.

“Você tava babando assim hoje na aula da Graça. Já pensou em dormir à noite?”

“Eu durmo de tarde, é mais produtivo.”

“Você dorme o tempo todo.”

“Me respeita, garota! Sou dois meses mais velho que você.”

“Eu sou dois palmos mais alta, você devia tomar cuidado.”

Dois palmos era exagero, pensou ele.

“Nossa, você tá agressiva! É TPM?”

“TPM é o seu cu, Renatinho. Continua dormindo na aula, vai. Ano que vem… todos os seus colegas… vão te respeitar. Você vai ser o mais velho da classe.”

“Não vou tomar pau. Sem chance!”

“E se tomar, vai fazer o quê? Ir pra uma escola particular? Tô falando sério.”

Tomar pau? Ainda era agosto. Faltavam muitos meses para ele se preocupar com isso. No ano anterior tirou a maior nota na recuperação final em Matemática. Melhor do que estudar o ano inteiro.

Suzana não gostava de Matemática, mas gostava da professora Graça. Além disso, queria passar no vestibular, ser uma engenheira, projetar construções, usar capacete.

Renato ignorava o maldito vestibular. Tinha muitas coisas com que se ocupar. Colecionava besouros mortos, latas de refrigerante, moedas antigas e, mais recentemente, espinhas no rosto. Tinha herdado alguns discos velhos, também; vinha pensando em investir nesse hobby.

Mas trocaria qualquer uma das coleções por aqueles “dois palmos” de diferença entre ele e Suzana. Gostava dos seus desenhos a nanquim, das suas orelhas pontudas, e mais ainda do cheiro de flores exalado por seus cabelos claros, mesmo depois que ela saía da piscina.

“O que é um plano cartesiano, afinal?”, ele falou.

“Não é difícil. Quer que eu te ensine?”

“Quero.”

“Chega amanhã meia hora mais cedo.”

“Vou tentar.”

“Vai tentar, não. Vai chegar, senão eu te quebro.”

Ele decidiu se esforçar de verdade para acordar meia hora antes no dia seguinte.

O inverno não tinha passado. Fazia frio ainda, principalmente às seis da manhã, por isso Renato não tomava banho antes da aula. Suzana tomava, todos os dias. Sua mãe dizia que seu cabelo ficava oleoso se ela não lavasse, daí o perfume de shampoo que Renato sempre notava.

“Um pombo morto!”, ele disse.

“Credo! Parece um desenho no chão.”

“É um pombo mesmo.”

Ele pegou um graveto e foi cutucar o cadáver. Comentou:

“Nunca vi isso acontecer. Quer dizer, já vi outros pombos atropelados. Nunca vi na hora, um carro passar e creque.”

“Eu também não. Já vi um cachorro, mas ele sobreviveu.”

“Eu já vi três carros baterem, uma vez. Não sei se morreu alguém.”

“Também já vi uma batida. A mulher desmaiou.”

“Onde foi?”

“Ali na Brasil. Na hora do almoço. Tive que dar a volta, passar pela ponte, cheguei atrasada em casa.”

Passou uma senhorinha encolhida sob camadas de agasalhos, olhando com desaprovação para os dois e o pombo. Seguiu mancando pela calçada e Suzana olhou para Renato, fazendo cara de deboche. Imitou a expressão da velha, arrancando uma gargalhada.

A mulher virou para trás. Lançou um olhar de raiva e ameaçou voltar até eles, que correram no sentido contrário, largando o graveto no ar.

Começaram a apostar corrida. Mesmo com a mochila entupida de coisas, Suzana ganhou de lavada. Renato gritou que desistia, mas ela continuou até se transformar em uma bonequinha, lá longe, em seu casaco lilás.

“Você é muito ruim”, Suzana gritou.

Renato ergueu as duas mãos e mostrou os dedos do meio. Ela acenou calmamente em resposta.

“Até amanhã!”, disse. “Não fura!”

Saiu andando, sem olhar para ele. Renato apanhou um abacate do chão e arremessou na direção dela. Errou feio.

“Vou tentar!”

Ela fingiu que não ouviu.

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