Livro: Nenhuma poesia/ Autor: Diego Pansani

Capa: “Nenhum título”, Vitor Pansani

O autor pode complexificar a questão da autoria e embaralhar a relação entre vida e obra de algumas formas. Uma das principais talvez seja por meio do uso de pseudônimos, como fez George Eliot, importante romancista inglesa do século XIX, ou como faz Adília Lopes, por exemplo. A outra, se dá quando o livro leva o nome do autor, mas este não necessariamente escreveu aquilo que assinou. Esta última é fruto de debates muito interessantes a respeito da chamada poesia não-original ou experimental, para os quais nomes como Marjorie Perloff e Leornardo Villa-Forte deram contribuições preciosas, e é ela que nos interessa para pensarmos Nenhuma poesia (7Letras, 2019), novo livro de Diego Pansani, e todas as questões que ele suscita a respeito das relações entre autoria, originalidade e apropriação.

Antes, voltemos à George Eliot por um momento. Nascida Mary Ann Evans, em 1819, a autora criou um pseudônimo masculino para desviar do estereótipo vigente naquela época, de que mulheres publicavam apenas novelas românticas. Foi assim que publicou romances como Adam Bede (1856) e um ensaio sobre o realismo alemão no qual, em determinada altura, se diz:

“A arte é a coisa mais próxima da vida; é um modo de aumentar a experiência e ampliar nosso contato com os semelhantes para além de nosso destino pessoal.”

Muitos já devem saber, mas foi justamente desse trecho que James Wood, grande crítico literário britânico, tirou o título de seu livro A coisa mais próxima da vida (2017). Nele, Wood explora e mescla memórias, música e teologia para construir seus ensaios de acordo com o que defende para a crítica literária: mais liberdade, imaginação e o uso de tudo que possa ser usado. Ou seja: aumenta a experiência e amplia o contato com os semelhantes para além de um destino pessoal. Esse movimento paradoxal de ver a arte como algo que, de tão próximo, se confunde com a vida e justamente por isso acaba por desdobrá-la é, de certa maneira, a forma que Pansani pensa a poesia e faz poesia.

Em Nenhuma poesia, notamos já no título, que parodia o livro de estreia de Drummond, o movimento simulâneo de aproximação (reverência e referência a um dos grandes mestres da nossa língua) e afastamento (de alguma poesia para nenhuma). Essa é a primeira pista que reorganiza nossas expectativas e nos coloca para pensar antes mesmo de entrarmos na leitura: o que pretende um livro de poesia que se nega como tal? A epígrafe parece trazer alguma resposta:

Era como se aqui houvesse duas pessoas: aquela que compõe, que lançou seu molinete com toda a força, e a outra que seleciona e detém de vez em quando a máquina lançada (Varlam Chalámov)

Pansani deixa já claro seu projeto aí: tem em si quem compõe e quem seleciona. Mistura-se consigo mesmo e borra os limites entre autoria e curadoria. De certa forma, propõe-se a fazer o que faz Wood: usar tudo. Sob seu olhar, notícias de jornal, conversas e correntes de whatsapp, termos de responsabilidade, comentários de internet, páginas de manuais, alertas de computador e até rótulos de bebida adquirem o estatuto de poesia. Num movimento ambicioso e de imenso valor, o autor se propõe a revisitar, entre outras coisas, momentos de nossa história política recente, como os diálogos obscenos entre Romero Jucá e Sergio Machado para “estancar a sangria”, que resultariam no golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff, bem como as mensagens reveladas por Glenn Greenwald, que expuseram a corrupção sistêmica da Operação Lava Jato.

Seguindo o mesmo procedimento de Kenneth Goldsmith, em Traffic, e Roy David Frankel, em Sessão, Pansani é curador quando seleciona as mensagens mais significativas para trazer ao leitor e autor quando as transcreve, reorganiza em versos e acrescenta títulos que sumarizam o conteúdo com engenhosidade, como por exemplo em FORA DOS AUTOS E DENTRO DO TELEGRAM, título da segunda seção do livro, que trata da Operação Vaza Jato.

Se num primeiro momento, o assunto dos poemas se situa no campo de interesse público, por assim dizer, trazendo as mensagens privadas que lançaram luz aos bastidores do poder, conforme vamos avançando na leitura, é como se nos fosse concedida uma espécie de chave para acessar conteúdos aparentemente privados. Vão se tornando frequentes poemas com dedicatórias a amigos, conversas de whatsapp, de telefone e poemas que sugerem um registro mais íntimo, ainda que seu conteúdo também seja de livre acesso, como no poema Radioamador, que traz a definição de Radioamadorismo transcrita fielmente do site da Anatel:

O Radioamadorismo é o serviço

de telecomunicações de interesse restrito,

destinado ao treinamento próprio

intercomunicação

e investigações técnicas,

levadas a efeito

por amadores

O que Pansani parece propor é uma profunda reflexão a respeito da Internet e dos smartphones como mediadores das relações humanas, bem como da diversidade de linguagens das quais podemos nos valer para nos comunicarmos. É nisso que reside um dos grandes paradoxos da nossa época, pois mais do que nunca nossa experiência de intimidade e comunicação vem empobrecendo, já que os meios virtuais pelos quais nos informamos e entramos em contato com o mundo são os mesmos que nos afastam do mundo e de nós. O autor mostra se atentar a isso no poema O link é a mensagem, em que repensa a famosa tese de McLuhan, trazendo um longo link de uma matéria do jornal Folha de S. Paulo. O que se deve compreender é que, se antes o meio eram muitos, hoje é necessariamente o virtual e nosso acesso ao conhecimento, às informações e aos outros se dá prioritariamente através de links, notificações, anexos e isso é determinante na transformação da nossa forma de comunicação, cada vez mais comprimida, fragmentada e, por que não?, incompleta. Temos vivido à espera do próximo alerta, prontos para o próximo clique.

Esse exercício de identificação que vamos fazendo ao longo da leitura é justamente o que nos mantêm seduzidos. A experiência de estarmos folheando um livro que se assemelha tanto à nossa forma já corriqueira e habitual de navegar pela internet amplia, inclusive, nossa maneira de ler. Afinal, à medida que se vai entendendo o procedimento de escrita de Nenhuma poesia, cresce nossa curiosidade de saber o que é cópia e o que é intervenção e nossa vontade de confirmar as suspeitas a respeito de versos já vistos em algum outro lugar. Nesse movimento, Pansani acaba nos levando a revisitar livros, prints, conversas, memórias, enfim, nosso inventário pessoal, tudo que, mesmo por apenas um momento, nos aproxima ainda mais da nossa própria vida. Feito esse balanço, é inevitável sairmos sem nos perguntarmos: enquanto autores e curadores, estamos satisfeitos com a poesia dos nossos dias?

Escrevo sobre o que eu leio.