[…] As cortinas se abrem, para mim apenas um rascunho. Na encenação da minha vida, eu sou o figurante, sem falas. Voltados para mim, olhares, um tanto curiosos, esperando alguma coisa extraordinária acontecer, holofotes apontados na minha direção como armas de guerra. Permaneci ali calada com os braços dispostos para trás, embriagada no meu desequilíbrio mental. Os acertos que tinham não passavam do zero. Adiante de mim uma imagem milimétrica de um céu repleto de estrelas, que traçam a quilometragem infinita entre meus sonhos e a realidade concreta do desespero que ali acontecia. Por mais que meu papel fosse insignificante eu sei que de certa forma fazia diferença ali, afinal o autor principal na maioria das vezes não morre. E eu com várias falas silenciosas gravadas em mim me peguei sorrindo, me peguei com um qual de nome felicidade. Eu nunca consegui explicar nada, nem mesmo uma atuação a qual as lágrimas eram meus trajes, meus gestos as decepções, meu sorriso feito de máscara para ninguém ver que ali estava inundado, olhava os pensamentos que exigiam os mais belos desenhos. Desenhos estes que eu nunca escrevi na parede do quarto ou no pedaço de guardanapo no restaurante da praça. Estavam escritos no rascunho que se encontra dentro de mim, e vou levá-los pra longe daqui, não sei até quando habitáreis por essas bandas. E não levarei nada comigo, somente o que estiver por dentro. Mas em questão de segundos cuidadosamente contados, me atingiram com uma bala que atravessou meu peito, paralisada, senti o calor pulsar dentro de mim, esfriando totalmente meus sentidos. Suspendi minha mão na aflição que aquela perfuração me causava, dela senti a tinta escorrer pelos meus dedos e quando abaixei meu olhar ali havia todas as minhas palavras não esboçadas no papel. Sorri. No fundo, eu já conhecia esse desfeche. As minhas cortinas sempre se fecharam antes dos aplausos finais.

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