Vidraças que valem mais do que vidas

Sequência de fotos mostra que cassetete de PM quebrou durante agressão a estudante, em Goiás (Foto: Arquivo pessoal/Luiz da Luz)

Já virou rotina — após as jornadas de 2013, na impossibilidade de criminalizar a manifestação como um todo, as mídias tradicionais começam a culpabilizar um grupo intitulado por eles de “mascarados”. Esses perversos “mascarados” montam barricadas, quebram vidraças de bancos e usam fogos de artifício para atacar policiais em sua nobre função de proteger os manifestantes pacíficos, se fosse na França ou outro país europeu ou até mesmo na nossa vizinha Venezuela, seriam apenas manifestantes indignados.

O roteiro é sempre o mesmo: manifestações de esquerda que englobam as mais diversas linhas de pensamento político: trotiskistas, leninistas, stalinistas, os movimentos reformistas e mais ao centro e os anarquistas, os grandes vilões, por, em muitos momentos, se fazerem valer das chamadas “ações diretas”; se unem para uma manifestação de uma pauta em comum, o policiamento já é o dobro do normal, milhões de aparatos, P2 infiltrados, o clima é tenso, pesado. A gente sente na pele a sensação de ser caça na boca do caçador, esperando apenas a primeira dentada. A gente sente que a repressão vai acontecer. A primeira bomba estoura e se cria uma linha do tempo: manifestação pacífica > arruaceiros encendiam objetos na via > polícia reprime o ato.

Esse discurso passou a ser também utilizado por setores da esquerda na tentativa de serem retratados de uma maneira não tão agressiva pelos veículos da imprensa tradicional. Os vândalos que quebram vidraças passam a ser traçados como jovens espinhentos revoltados com sua vida mediana que, em ato de puberdade e na tentativa de chamar atenção dos pais, quebraram as vidraças do patrimônio imaculado privado e que, por isso, merecem apanhar até a morte, ou pelo menos, até um traumatismo craniano, para aprenderem a lição. É uma reguada na mão coletiva, na busca de disciplinar corpos que formam uma sociedade inteira. O progresso só é possível por meio da ordem que é imposta na paulada e no gás lacrimogênio. Esse “ideal” do jovem black bloc - que virou bode expiatório para justificar a violência policial - até mesmo pela esquerda, ficou personificado na figura do jovem Renan Baldi que, durante a Copa, foi retirado de uma manifestação pelas orelhas por seu pai. O jovem, de acne no rosto e bom padrão de vida, recebeu Suplicy em sua casa, levando um exemplar da Constituição.

Foto: Divulgação / Reprodução

Os motivos que levam a imprensa tradicional a retratar os “mascarados” dessa maneira variam. Não, nem sempre é por pura questão ideológica. Há um processo de precarização do jornalismo em curso que afeta sua produção. As redações estão cada vez mais enxutas, os jornalistas mal conseguem sair a campo para que possam traçar um panorama mais complexo sobre um fato social. Há também as pressões exercidas pela hierarquização do ambiente de trabalho representadas em primeira instância pelo editor, editor chefe e as grandes figuras do jornal que têm sim uma ideologia a qual servem por diversas causas, uma delas, a econômica.

Contudo, essas narrativas têm se tornado perigosas e têm ganhado endosso à esquerda, à direita, à centro, ao lado, em todos os lugares. Nas manifestações do dia 28 de abril, dia da Greve Geral, houve intensa repressão policial em diversos atos que se espalharam Brasil a fora. No estado de Goiás, um jovem foi agredido duplamente, na cabeça com um cacetete, e no abdômen com um pedaço de pau e está internado em estado grave. O G1 designou o rapaz da seguinte maneira:

Na sexta-feira, amigos do rapaz, que preferiram não se identificar, disseram à TV Anhanguera que ele estava sem máscaras e não participou de nenhum ato de vandalismo durante o protesto. Porém, antes da agressão, é possível ver que o estudante estava sem camisa perto dos policiais. Momentos depois, ele aparece com um capuz e parte do rosto encoberto, junto a um grupo de manifestantes mascarados.

Para a imprensa tradicional ser um “mascarado” é motivo suficiente para ser espancado de maneira tão grave, que o cacetete do policial chegue a entortar ao acertar sua cabeça. Não apenas isso, mostra os desconhecimento (prefiro acreditar) ou a ocultação de que o lenço no rosto não significa nada. Exatamente isso, nada. Quem já foi a um protesto sabe que há grande possibilidades de se ter repressão policial, por isso, é de costume usar um lenço no pescoço com vinagre borrifado para quando a repressão começar, ser possível respirar e se locomover para ir embora.

Isso porque uma manifestação não é um ato pacífico. Uma manifestação pressupõe ruptura. O ato de se colocar na rua em massa é um ato não pacífico de se posicionar fisicamente e subjetivamente contra algo ou alguém. Todo o resto é comício e ponto. Porém, chamar, como eles dizem, “baderneiros”, de mascarados virou um ato comum. Um jargão popular que começou a se repetir em pontos de ônibus e padarias. Mas, eu gostaria de saber, o que é um “mascarado”? Eu não sei… Eles estão querendo se referir a quem tapa o rosto como símbolo de uma tática de protesto chamada Black Bloc que nasceu lá na Alemanha?

Se for isso a que estão se referindo, por que então, não se dá nome aos bois e se explica do que se trata? Por que a própria esquerda tem vilanizado os Black Blocs?

Aos que não sabem, a lógica Black Bloc é agir quando já se começou a repressão para “distrair” os policiais. Dependendo da temperatura do ato, eles podem sim começar a montar barricadas contra uma possível repressão. É coisa que a gente sente na pele estando na rua. Como você descobre tudo isso? Gastando sola de sapato na manifestação, com o olhar atento, com todos os poros abertos para se sentir e não apenas se ver o que acontece ao seu redor, atento para a pluralidade de movimentos que compõe uma manifestação.

Com o olhar atento, se consegue perceber a possibilidade de existir um P2 plantando coisas para estourar e começar a repressão na manifestação, se consegue perceber que o número de pessoas que fazem uso da tática Black Bloc é muito restrito frente ao aparato policial deslocado para a repressão de um ato. Muitas vezes, cerca de 300 policiais, que envelopam a manifestação, com equipamentos especiais que não estão a serviço da proteção, mas sim da repressão e violência.

Em grande parte das vezes, se não todas, a repressão começa do nada e ao além. A violência é gratuita, por se tratarem de manifestações que desagradam os interesses de quem está à frente do comando da Polícia — o Governador e seu secretário de segurança pública. Isso fica comprovado no vídeo divulgado pelo Mídia Ninja da repressão da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro aos atos de 28 de abril. A polícia lança bombas em direção a um aglomerado de pessoas presentes na manifestação da capital fluminense, que simplesmente cantavam ao hino nacional. As pessoas fogem desesperadas. O deputado estadual, Flavio Serafini, do PSOL, pede ao microfone que os policiais parem de lançar bombas, pois o ato se esvaziou por conta da violência. A resposta é o lançamento de uma bomba na direção do deputado que está num palco improvisado para a manifestação. Veja só, nenhum “mascarado” entre as pessoas. O atacado é um servidor público que exercia seu direito de se manifestar.

Vídeo divulgado pela Mídia Ninja

E se estivessem de máscaras em seus rostos? E se estivessem a colocar fogo em uma lixeira ou a quebrar um vidro de loja? Mereceriam uma paulada na cabeça, uma bala que lhe arrancasse um olho por um bem privado? Mesmo com legislação vigente que pune esses atos é de sangue em mãos que precisamos, é de mentiras para se construir falsos heróis ou vilões?

Afinal de contas, quem é o baderneiro: aquele que encendia um pneu ou você que relativiza o sangue daqueles que quebram uma vidraça privada?

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