Mãe democracia

A piece of my soul
Nov 7 · 3 min read

A única coisa que conseguia fazer nesse momento era correr, sem nem pensar nas pedras que poderiam estar imersas naquela pista sem asfalto e na possibilidade delas se chocarem em suas mágoas. Sua mãe? Estava cansada de ter que encarar aquilo tudo sozinha, não sabia que ser mãe seria tão difícil, não sabia que estar viva em um mundo de não existência seria tão complicado de se permitir continuar existindo. As vozes? Pareciam se repetir, os espíritos falavam com ela, sussurravam, também gritavam, mas só ela escutava, era como se além de ter que aguentar a realidade tivesse que viver em constante equilíbrio com seu próprio corpo para não ter que explodir, novamente e novamente, as bombas atômicas pareciam ecoar silenciosamente em seus ouvidos de maneira infinita, não parava, como países desenvolvidos que sugam de outras existências a liberdade para se sustentar, o livre era o fato dela escutar aquilo tudo sozinha, ela sabia que poderia tentar encontrar uma solução para seu filho não se sentir sozinho de novo. Mas e a criança? Continuava correndo naquela pista do interior, mas ele não escutava essas vozes, o dom hereditário era apenas um mito, na verdade ele nem sabia que sua mãe tinha essa capacidade, ninguém sabia, ela vivia em constante silêncio, apesar de dentro dela os múltiplos ecos não parassem de sucumbir em seus neurônios, o peso se dobrava em camadas extremas, e se tornava cada vez mais pesado, e que pesar, dela não ter escolhido ficar surda para não ter que aturar isso tudo todos os dias. Ele não entendia, era apenas um garoto correndo em busca de algo para comer, não tinha culpa disso tudo, sua irmãzinha também não tinha culpa de ter nascido nesse mundo, sua mãe muito menos tinha culpa de ter sido mãe naquele espaço de imposições sangrentas que te tiram além da carne corpórea, sua carne mental, seu signo, sua existência em alma. Até o ser mãe estava posto como uma calamidade, como uma determinação não pela capacidade de se manter intacta, mas pela destinação de ser aquilo que causou a criação, mas jamais sendo endeusada, e esse era o problema. Para seu filho? Ela era sua divindade, mas ela não se importava com tamanha falácia herege, seguia essa padronização dos corpos em alma, e selecionadas, em máquinas fordistas onde até os rituais seriam manuseados de maneira repetitiva e principalmente fiscalizadas, somente no juízo final. Mas não se preocupe, você pode sair disso, disse a norma. A criança continuou correndo ignorando tudo isso, para ele a única coisa que existia naquele momento era a fome, seus pés estavam cheio de calos, o sol parecia estar com raiva, sua pele se descascava, sua alma não queria mais habitar naquele corpo. E a mãe? Mesmo em outra espacialidade sentia, as vozes a diziam que seu filho estava correndo risco de vida, suas dores eram também as dela, ela sentia tudo, onipresente, a mãe sabia que seu filho só queria encontrar algo para se alimentar, e também a sua família. A mãe então chorava, sangue, água, líquido, almas. As vozes saiam de cena, iam em direção a pista sem asfalto do interior quente, o garoto quase no chão, totalmente ressecado, se entregando para a não vida, escuta o menor dos sons, a menor das vozes, mas para ele, a mais esperançosa de todas, sim, era a voz de sua deusa preferida, sua mãe democracia.

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    eu sou a própria solidão