foto de Daniel Marenco

O desencontro

"Para tudo e vem cá…..
Vem ver esse pôr do sol."

toda uma categoria especial de sentimentos envolvidos naquela situação onde você quer uma coisa e não pode ter. Pior, sabe que é treta querer, que não adianta nada cultivar todo esse desejo enlatado. Mas o querer não recebe ordens.

Quando você é criança, isso geralmente acontece quando você se depara com uma vitrine de loja de brinquedo. Tanto colorido, tanta promessa de diversão. Mas você não pode ter nenhum, não adianta pedir trocentas vezes ao pai-mãe-tia-avó-responsável.

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Não vai rolar, meu amigo.

No mundo adulto, o jogo muda e o perigo é você virar brinquedo na mão dos outros. Mas insistimos no querer. E sofremos na falta do poder ter e, especialmente, na falta do querer-de-volta.

Nesse jogo de vulnerabilidades, onde nos sentimos inexplicavelmente atraídos por alguns, mal percebemos outros e não vamos com a cara de quem sobra (proporções variam de pessoa para pessoa), é inevitável que sua vez chegue — o dia em que alguém que você jurava entreter os mesmos quereres que os seus na verdade não quer nada demais. E seu querer bate na trave e volta….mas ainda é seu. Quebrou, levou. E você não tem escolha a não ser levar toda aquela querência para casa.

Mas de onde vem esse cruzar de expectativas desencontrados? Vem de algum mágico momento anterior, onde códigos diferentes de conduta te levam a interpretações erradas, o flerte de um não é o flerte de outro e nesse imbroglio de falta de comunicação, o que é um gesto sem segundas intenções ganha terceiras e quartas e aluga o quarto dos fundos dos seus pensamentos mas gosta mesmo é de sentar no sofá da sala, para não te deixar esquecer de oferecer um pouco do jantar. E você fica sem ar toda vez.

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Tem dias que ignoramos aqueles olhares pidões. Tem dias que conseguimos ser fortes e resistir à tentação de entreter aquele querer sem futuro. Mas tem dias que o pôr do sol é bonito demais pra ser ignorado, em que a lua realmente parece o sorriso do gato da Alice e onde o convite para sair — que no fundo ele não acha nada demais, não passa de uma pretensa cortesia amigável — massageia profundamente o ego. E você salta do carro no final sem entender o que aconteceu para nada acontecer.

Ou talvez não. Talvez o outra entenda o querer. Talvez ele até queira também, mas por algum motivo se priva de correr atrás de seus caprichos. Na atitude monástica, também te coloca em posição abstêmia. Mas a virada do jogo é justamente essa: você não quer por ele. Você quer porque você quer. É inexplicável, lembra? É por você, não por outro. É tudo bem querer. É bonito e é corajoso. É sofrido, mas Aquiles com certeza sofreu mais — e no fundo todos nós não buscamos nossa própria epopéia?

Tem dias em que você não precisa fingir que já superou, aquele querer-de-um-lado-só basta. Olhar para vitrine da loja de brinquedos pode ser o suficiente para alimentar nossa imaginação por um tempo, pelo menos até chegar a festa de aniversário e aquele monte de presentes.

Não dá para lutar contra todo flerte vazio, não dá para fingir que aquilo não mexe com você. Não dá, tem dias que não dá. Amanhã serei mais forte, ou pelo menos até você me chamar atenção para um próximo fenômeno astronômico de irresistível e inexplicável beleza. Tem coisas que realmente não estão aí para serem entendidas.

Então eu quero.