Paremos de discutir o aborto sob a ótica da fé e cuidemos dos que já nasceram

Enquanto em pleno século XXI a humanidade ainda discute sobre o aborto, dados recentes da ONU apontam que cerca de cento e cinquenta milhões de crianças no mundo todo estão completamente abandonadas pelos seus governantes. “Abandonadas, descartadas, rejeitadas e jogadas fora: mais de 150 milhões de crianças em situação de rua em todo o mundo sofrem grandes privações e violações de direitos, com pouca ou nenhuma consideração dada ao seu maior interesse”, dizem pesquisadores ligados a Organização das Nações Unidas.
No Brasil são quase 40 mil crianças em orfanatos e abrigos, esperando um lar. Se analisarmos quantitativamente 40 mil nem parece muito frente a uma população de quase 205 milhões de pessoas. Mas basta sensibilidade para percebermos que são 40 mil histórias individuais, 40 mil destinos e 40 mil infâncias arruinadas.
E mesmo com a grande quantidade de famílias em filas de adoção, espanta-me o fato de tantos defenderem o direito à vida mas se quer ligarem para os que já estão entre nós. E não pense que neste artigo aborda-se só a infância. A reflexão vale tanto quando falamos de crianças, quanto jovens e adultos, afinal, o peso da vida não é o mesmo de acordo com os que são contra o aborto?

Certo dia, caminhava, quando fui abordado por um morador de rua, que falou a seguinte frase: “Me ajude moço, eu não sou bandido”. Aquilo me fez refletir sobre quantos “não bandidos” estão nas ruas de grandes e médias cidades, pedindo ajuda, pedindo socorro, todos os dias, e que simplesmente ignoramos. Inconscientemente através de nossos fones de ouvido ou conscientemente, fingindo que não existem.
Então, antes de discutirmos sobre o aborto sob óticas religiosas e dogmáticas, sob mandamentos cristãos, islâmicos ou judaicos, devemos olhar para nossas crianças, nossos jovens e nossos adultos. Jovens que estão em orfanatos e nas ruas, abandonados, esquecidos pela sociedade. Adultos que de tão esquecidos, precisam de lembrar que não são bandidos, precisam de implorar por ajuda de uma sociedade míope, individualista e consumista.