Sobre as garotas do Tinder

Ontem de noite eu deixei o meu lado “namorada ciumenta” escapar e fui bisbilhotar o celular do meu namorado enquanto ele jogava videogame. Acabei descobrindo pelo histórico de downloads que ele tinha baixado o Tinder e excluído depois. Controlei a angústia e a vontade de sair berrando pedindo explicações e resolvi ir mais fundo na minha investigação.

Baixei o Tinder de volta. Abri as mensagens. Soco no estômago. Lá estava o meu namorado, com quem eu divido um apartamento há mais de 8 meses, trocando cantadas baratas com meninas que ele nunca viu na vida. Para a minha surpresa, a grande maioria das conversas tinha sido iniciada por elas.

- Nossa! Que olhos lindos que você tem! Como você faz pra ter a barba assim tão grande e linda?

E ele respondeu, óbvio.

- Segredo de ancião. Não posso revelar. Mas olha quem está falando, os seus olhos é que são lindos, menina!

Ugh. Senti raiva, vontade de xingar, de ir embora. Mas, ao mesmo tempo, senti vergonha. Sério. Comecei a ler as conversas e ficava com vergonha da superficialidade das frases trocadas. Ninguém ali estava interessado em saber sobre faculdade, trabalho ou sobre como estava o tempo. Eram só trocas de elogios rasos, baseados em fotos escolhidas a dedo por cada um dos integrantes da conversa, para inflar o ego de ambas as partes.

Eram conversas tão vazias de significado que, seu eu não estivesse falando do meu namorado, provavelmente eu ficaria triste pelas meninas. Isso mesmo, por elas. Não me entendam mal, eu sei que hoje em dia tudo está mais moderno e rápido, inclusive os relacionamentos. Mas, apesar dos meus 20 e poucos anos, eu nunca me encaixei nessa cultura de “relacionamentos dinâmicos” da internet.

Claro que eu já flertei com alguns caras pelo falecido MSN e já dei like em fotos antigas só para me fazer notar. Mas não do jeito como acontece hoje em dia. Eu sempre gostei da troca de insinuações. Para mim, insinuar é lindo, é divino. Você começava a conversar com alguém sobre histórias de infância e, de repente, a pessoa soltava uma frase com um certo duplo sentido.

Winks tratavam o PC mas, pelo menos, era amor

Será que isso foi uma indireta? Será que ele está interessado mesmo? Ficava aquele gostinho bom de dúvida que fazia a gente ter mais vontade ainda de conhecer a pessoa, de saber sobre as suas histórias e suas ambições. Até que apareciam as coincidências.

- Eu adorava andar de caiaque quando era criança! Meu pai sempre me levava na Lagoa e passávamos o dia todo remando.
- Sério? Eu também passava o verão na Lagoa! Costumava catar conchinhas no rasinho enquanto meus irmãos nadavam no fundo. Como que a gente não se encontrou antes?
- Vai ver a gente se viu e não lembra!

E assim iniciava mais uma troca de indiretas sutis, sempre tentando esconder um pouco o sentimento criado. Fazer um charminho, como minha vó diria.

Eu nunca usei o Tinder, só sei como funciona porque algumas amigas usam. Mas, basicamente, você baixa o aplicativo, faz um cadastro rápido e sai escolhendo pessoas como se estivesse olhando o cardápio de um restaurante.

A verdade é que não importa quem está do outro lado da tela. O que conta mesmo é a quantidade de “match” que você obteve em um dia. Quanto mais melhor, óbvio. Assim você se sente bonita, atraente e alimenta o seu ego.

Depois disso começam os elogios levianos e as conversas sem graça. Como lidar com isso?

- Nossa, gata! Queria essa sua boca pertinho da minha rs!

Ugh. De novo. Como eu começo uma conversa com alguém que só está interessado em “me dar uns pegas”? Eu sei disso. Ele sabe disso. Até o meu porteiro, que também está no Tinder, sabe disso. E se eu não cair na conversa, beleza. Parte para a próxima. Afinal, a lista de garotas é interminável. Eu sou só mais uma na multidão de rostos sorridentes disponíveis.

E é exatamente com isso que eu não sei lidar. Não sei lidar com a falta de cortesia, de interesse genuíno e de respeito. Sempre gostei quando um cara demonstrava interesse em mim. Em mim. Não nas minhas fotos decotadas ou de shortinho. Gosto quando ele parece se importar comigo de verdade. Quando ele quer saber como foi o meu dia, quais as minhas músicas preferidas e se eu acredito em homenzinhos verdes no meu jardim. Gosto de saber (ou pelo menos pensar) que eu sou especial. Que ele resolveu dedicar alguns minutos do seu dia para falar comigo. E isso desperta um sentimento que só quem já teve a atenção chamada várias vezes no MSN Messenger entende.

O som da ansiedade amorosa antigamente.

Voltando a minha história de antes, eu falei que me senti triste pelas garotas no Tinder do meu namorado. O que eu quis dizer é que elas não mereciam estar naquela situação. Principalmente as que já saiam tomando as rédeas da conversa e se oferecendo sem nem saber se era uma pessoa de verdade do outro lado da tela ou se era um cachorro disfarçado de hipster barbudo.

Nunca se sabe quem está do outro lado da tela. Cuidado!

Essas garotas não deveriam ter que passar por isso para encontrar um cara legal. Garotas não são produtos para estarem na vitrine esperando desesperadamente que alguém as leve para casa. Garotas são feitas para cuidar, para dar carinho e amor.

Se você é uma garota no Tinder, sinto muito em te avisar mas aquele carinha não está interessado em você. Você é só um número, mais uma na lista de “match”. Se não fosse você, seria qualquer outra. Você não é especial. Sinto muito em avisar também que apesar desse seu jeito de mulher moderna e bem resolvida, por dentro você é tão frágil quanto qualquer uma de nós.

Você também quer alguém que assista seriado segurando a sua mão num domingo chuvoso, você quer alguém que faça brigadeiro nos dias em que você estiver de tpm e chorona. E, principalmente, você quer alguém que tenha orgulho de dizer que você é a garota dele, que fale sobre você como se estivesse falando da pessoa mais incrível do planeta e que ache o máximo até quando você espirra daquele jeitinho atrapalhado. E você merece isso. Não se deixe levar por pouca coisa. Você não é pouca coisa.

Talvez eu esteja errada (provavelmente estou) e isso sejam só devaneios de uma alma antiga que nunca vai conseguir se acostumar com essa época que estamos vivendo agora. Mas, para mim, se não faz pulsar o coração não é de verdade. E não vale a pena.