
Desculpe, mas ainda não consegui te esquecer…
Sei que sentimentos vêm e vão como pessoas a bordo de carros em uma grande cidade. Eventualmente um pega carona com o outro e, sabe Deus por quantos quilômetros, escrevem uma nova história. Só que às vezes, sem entendermos bem o porquê, esses passageiros não percorrem a mesma distância. Foi desavisado assim, numa dessas idas e vindas, que olhei para o lado e percebi que no outro assento tu já não te encontravas mais. Do nada me vejo aqui sozinho, tentando amenizar o aperto, à medida que o coloco em palavras. Ainda dói. Mas tudo bem, só dói quando respiro.
O que aconteceu? O que mudou? Por que essa carona foi tão breve se tinha tudo para se tornar uma viagem incrível? Está difícil deixar para trás… Permaneço imóvel com caneta e folhas de papel em branco nas mãos. Nem a caneta, nem as folhas têm mais utilidade. Mas simplesmente não consigo guardá-las.
Olho em vão para as linhas vazias na expectativa de que sejam preenchidas. Para onde foi a promessa de uma longa história, recheada de capítulos sobre os encontros, os passeios juntos, os vários cafés, as risadas, as dores, belezas e amores? Mal tivemos a introdução redigida e saltamos direto para o epílogo. Fomos um instante. E em um instante já não fomos mais.
Como puderam nossos laços terem se desfeito assim? Que liquidez foi essa que tinha cara de concretude? Não bastasse o desencontro, essas perguntas pesam outra tonelada sobre minhas costas. Principalmente, por saber que muitas delas, senão todas, permanecerão sem resposta.
O teu riso bobo, tua beleza singular, teu humor espontâneo e tantas outras características ainda ocupam meus pensamentos, ameaçadas pela ideia de que nunca mais eu te veja de novo. Te lembras de como elogiavas meus olhos verdes até na frente dos outros? Eu morria de vergonha, mas meu sorriso bunda mole deixava claro o quanto te achava incrível por isso.
Dia após dia, cenas de nós dois juntos ressurgem diante dos meus olhos, numa tentativa de prolongar aqueles momentos, que mesmo já sendo passado, insistem em também ser presente. E quando penso que estou conseguindo engavetá-los, alguma coisa acontece para que voltem a me inquietar.
Esses dias, em um lugar qualquer, alguém passou por mim usando o mesmo perfume que tu. Aquele que, na primeira cheirada de cangote, arrisquei o nome e acertei em cheio. Aquele que, misturado ao cheiro da tua cabeleira loira, ficou nos meus travesseiros. E ao mesmo tempo que o aroma amadeirado me transbordou de saudade, bateu também a dor de saber que nunca mais o sentirei em ti.
Semana passada, nas minhas andanças pela cidade, entrei em uma rua e reconheci teu carro. Estava lá o besouro azul (que eu mesmo cheguei a dirigir) estacionado, contrastando com as paredes laranjas do restaurante em frente. E incoerente como essa combinação de cores, meus batimentos dispararam em uma fração de segundo. Uma sensação de estar no lugar errado e ser avistado. Pisei no acelerador, fugindo para o mais longe possível. Precisava sair dali e me fechar em casa. Como se a distância e o isolamento, de alguma forma, minimizassem a angústia insistente. Por mais que eu saiba que ela irá comigo para onde eu for, meu jeito ermitão me impele para dentro da concha.
Tenho de me deixar ir. Eu paro, respiro fundo, mas ainda me culpo demais. Me cobro demais. Me condeno por te permitir em meus pensamentos. Na verdade, eu sei o motivo: nunca gostei de alguém de maneira tão genuína. Eu era eu o tempo todo. Não havia joguinho. Não havia paixão sem controle. Não havia medo de deslize, de dizer o que não devia, de parecer tonto, pois contigo eu me sentia à vontade (mesmo para ser tonto).
Sinto falta de ti e de mim naqueles dias. Tu parecias a pessoa certa para sonhar junto o que ainda era apenas sonho. Talvez, por mais um tempo, eu insista em pontuar nossa história com interrogações, mesmo que tu já tenhas decidido colocar ponto final. Mas não te preocupes. Se eu insistir, será em silêncio. Pois sei que, talvez em ti, eu já tenha deixado de ser dor. Aliás, talvez em ti, eu nunca tenha sido dor. Para que uma relação seja dor não precisa doer nos dois. Bem diferente do que precisa para que seja amor.
Desculpe, mas ainda não consegui te esquecer.
