Inácio

Linhas tortas
Jul 25, 2017 · 10 min read

Como já disse Leandro Karnal, “paixão é uma infecção temporária”. Nenhuma outra declaração resumiria tão bem o que senti por Inácio. Não é à toa que o considero um divisor de águas na minha vida. A ruptura? Perdoem-me a pieguice, mas foi meu coração partido e posteriormente recomposto. Mas, segundo Oscar Wilde, the heart was made to be broken. De fato, foi graças ao poder transformador deste episódio que hoje sou muito mais racional e pé no chão. Posso dizer, no entanto, que foi esta a primeira vez que meu coração ficou severamente balançado por alguém. Talvez isso explique tanta imprudência. Mesmo assim, ainda que o desfecho não seja feliz o suficiente para um roteiro de Hollywood, adianto: apaixonar-se é uma sensação única. E perigosa.

Eu, sempre muito dono do meu nariz (para não dizer convencido), jamais imaginei o campo minado de emoções que me aguardava. Dificilmente eu estaria preparado para desviar das explosões, já que nunca tinha vivido algo parecido. Foi como se meu Superego tivesse desertado, após eu ter virado as costas para ele (mais uma vez). Na minha cabeça não restou um pingo de bom senso para puxar o freio de mão, ou no mínimo reduzir a marcha. A conta dessa brincadeira não tardou em aparecer.

Hoje, cicatrizado todo e qualquer ferimento, o cálculo é relativamente simples. Não faltaram sinais. Mesmo assim eu escolhi ser cego. Não me envergonho. Como disse, se hoje leio atentamente até as entrelinhas e notas de rodapé, devo isso ao amadurecimento pós-Inácio. Do contrário ainda estaria escolhendo o livro pela capa. Portanto, senhores, essa não é uma história de paixão não correspondida. Essa é uma história de insensatez.

O momento do ano em que Inácio chegou a mim não poderia ser mais sugestivo: carnaval. Qual é dessa data em que os limites parecem se dissolver? As pessoas se tornam capazes de loucuras inimagináveis. Realmente devo estar ficando velho. Para mim, só o que havia de inimaginável era o calor que fazia em Porto Alegre. E enquanto eu via frotas de carros carregados de gente e bugigangas saindo da cidade em direção às praias, eu, sem um tostão furado, já tinha decidido ficar em casa mesmo.

Outra decisão que tomei poucos dias antes do feriadão foi colocar um ponto final em uma relação que já estava dando sinal de desgaste. Ainda que o cara em questão tenha dito inúmeras vezes que estava gostando mais de mim a cada dia, já estava bem claro que eu tinha sido colocado em banho maria até que o carnaval passasse. Uma vez terminado o período de festas e veraneio, muito o interessava alguém “fixo” para esquentar os pés. Desse modo, o moçoilo planejava desfrutar os festejos na “calmaria” da Praia Mole. Que de mole não tem é nada! Bem pelo contrário, se é que minha ironia se fez entender. Ele até tentou fingir uma breve indecisão sobre ir ou cancelar a viagem para eu não ficar só. Tão breve que, trinta minutos depois de ela ter surgido, já tinha desaparecido sem deixar vestígios de que chegou a existir. Na quinta-feira anterior ao carnaval lá estava o dito cujo estrada a fora em direção ao litoral catarinense. Pois bem, quando então comunicado de que eu não teria a companhia do meu ficante para os próximos dias, de pronto pensei: “vá. Mas não volte. Pelo menos não a bater na minha porta”. Entretanto, não cheguei a propriamente dizer isso a ele. Deixei que curtisse a muvuca com a ilusão de que teria alguém o esperando quando retornasse. Doce ilusão.

Na sexta-feira a cidade parecia um cenário de catástrofe iminente. Como se um meteoro estivesse em rota de colisão com Porto Alegre, tamanha era a debandada. Não duvido que algumas pessoas já tivessem ido trabalhar besuntadas de protetor solar, calçando chinelos e com um guarda-sol embaixo do braço. No sábado e domingo era possível correr pelado pela rua sem ser avistado. Ainda que me sentisse o único habitante remanescente, um amigo surgiu no meu WhatsApp. Ele sugeriu que fôssemos aproveitar algum parque para sentar na grama e jogar conversa fora. Mais duas pessoas estariam com ele. Nos encontramos e escolhemos um lugar para papear. Só que o calor era de uns 75 graus. Isso na sombra. Me sentia igual a um bife esturricado, esquecido na chapa. Foi então que um deles sugeriu a piscina da cobertura dos pais. Quase chorei de emoção. Ninguém pensou duas vezes em aceitar o convite.

Mesmo com o sol se pondo, o calor não dava trégua. Já estava escurecendo e continuávamos de molho na piscina. Foi então que meu celular emitiu um apito: convite de amizade via Facebook de um ilustre desconhecido. O nome não me dizia nada e deixei para ver depois. Bom, se o nome não me disse nada de início, quando li passou a dizer “sou o cara mais gato que já apareceu na tua frente”. Era difícil de acreditar que alguém pudesse ser tão bonito. Inácio parecia saído de um catálogo da Abercrombie & Fitch. A cada foto que passava mais impressionado eu ficava. Enquanto admirava as belas poses do sujeito, eu sequer imaginava que uma cegueira burra começava a tomar conta de mim. E pior: o avanço seria rápido e imperceptível.

Assim que aceitei o convite, a conversa teve início. Aproveitei para perguntar como ele tinha chegado em meu perfil. A resposta inicial foi que tinha sido sugestão de amizade do próprio Face. Digo inicial porque a verdade é que ele me catou em um álbum de fotos alheio. Mas não era qualquer foto. Era um típico clique feito em uma praia, ainda em janeiro daquele ano. Os três “modelos” sorriam para a lente vestindo, como não podia deixar de ser, sungas da estação. O do meio era eu; de um lado um conhecido (conhecido por pintar e bordar); do outro o meu mais recente affaire, que a essa altura já devia estar escolhendo mais um picolé na Praia Mole. Não por acaso, era no álbum dele que a tal foto foi originalmente postada. Portanto, de alguma forma, ela chegou ao conhecimento de Inácio. E não poderia ter sido da maneira mais irônica: no meio do caminho até SC, meu ex enrosco o adicionou no Facebook. E não havia motivo mais claro, senão os belos olhos azuis e mais todo o conjunto da obra esculpida de Inácio. Só que o tiro saiu pela culatra, pois foi por mim que ele acabou se interessando. O mundo dá voltas.

De qualquer forma, o diálogo continuou ininterruptamente. Ainda me era difícil de acreditar que aquela réplica de David de Michelângelo estava me dando mole. Já tínhamos nos adicionado no WhatsApp. Na terça-feira de carnaval ele estava a caminho de casa com o irmão e fez questão de entregar a direção para que pudéssemos conversar enquanto retornava. O único porém, até então, era que ele morava na serra, a uma pequena distância de 120 km. De qualquer forma, eu considerei isso o menor dos empecilhos. Aliás, não seria impeditivo nem que ele fosse adepto de satanismo, tamanho era o efeito entorpecente dos sentimentos que calaram qualquer voz de razão em mim. E olha que não faltaram indícios: eram quase 6 mil amigos no Facebook. Quem de fato conhece tanta gente? Consequentemente, cada foto lhe rendia de 250 a 300 likes em questão de horas. Se fossem fotos na academia ou expondo o corpitcho na praia essa contagem subia para 500. Não é preciso ter vasta experiência em redes sociais para saber que boa parte dessas curtidas trazem de brinde muitas xavecadas inbox. E Inácio sabia disso. Ele tinha plena consciência dessa causa e efeito. Sabia o quão bonito era e o poder que podia exercer sobre as pessoas. Mais ainda, ele vivia um deslumbramento por esse poder. Seu ego era alimentado pelos milhares que o paparicavam. Era tipo moscas rondando a merda fresca. E eu ignorei tudo isso. Existe homem gostoso que posta fotos vestindo regatas justas (ou nem isso) por mero gosto, sem qualquer intensão? Bom, se existe, não era o caso. Arrisco a dizer que isso era um vício de Inácio. E comigo funcionou sem qualquer dificuldade. Virei só mais uma varejeira.

Passado o fervo do feriadão, finalmente eu o conheceria no fim de semana seguinte. Neste ponto já me imaginava vivendo cenas românticas com ele: beijo sob a chuva, viagens para destinos gelados, jantares à luz de velas. Certamente ele percebeu isso. Não necessariamente por perspicácia, mas sim porque estava estampado na minha testa “vítima fácil. Muito fácil”. Em vez de fugir do meu comportamento ridículo e precipitado, Inácio alimentou essa fantasia com conversas típicas de um conquistador barato, pois o que ele queria mesmo era me pegar. E assim ele veio na sexta à noite, enquanto eu já o esperava com as panelas no fogo.

Inicialmente ambos estávamos tímidos. O que era no mínimo controverso, pois ambos consentimos com aquela pataquada: ele de mala e cuia para dormir na casa de um desconhecido e eu colocando em meu apartamento um desconhecido de mala e cuia. Vai que ele fosse um psicopata e eu acordaria na segunda em uma banheira cheia de gelo com um curativo na barriga? Bom, não era. Aliás, bem pelo contrário, Inácio era, além de lindo, bem sucedido, independente e carinhoso. Até me presenteou com uma caixa de bombons da serra. Lobo em pele de cordeiro. Assim, terminados os dias em sua companhia e iniciada a semana, fui para o trabalho feliz como se tivesse ganhado na loteria. Mal sabia eu que o bilhete estava errado.

A partir daí, pode-se dizer que foi o princípio do fim. Seguimos conversando por whats, mas os papos foram se escasseando. Semanalmente novas possibilidades que cozinhassem melhor que eu (sou péssimo piloto de fogão) apareciam para Inácio. Suas fotos sensuais na academia funcionavam como um ímã de trouxas. Além disso, ele já sabia que gosto eu tinha. Por que se ater a um único sabor se o mundo disponibiliza um vasto cardápio? Ademais, meu comportamento só contribuiu para me azedar. Me tornei um louco obcecado, pensava nele dia e noite, bombardeava-o de mensagens. Perdi qualquer resto de autocontrole. Meus amigos passaram a me detestar, pois eu não fazia outra coisa, senão chorar as pitangas por um cara que, estava claro, eu nunca mais veria. No trabalho pilhas e pilhas de papéis se acumulavam em minha mesa. Meu olhar sempre triste me denunciava. Comecei a emagrecer e tive de tomar hipercalórico para não perder mais peso. Acordava e deitava cansado. Eu estava me decompondo. Por dentro e por fora.

Passado um mês, mal trocávamos mensagens. Eu já não reconhecia meu reflexo no espelho. Nunca tinha ficado daquele jeito. Eu era um estranho para mim e para todos. Como pude chegar a este ponto? Sempre tão racional, me tornei um poço de emoções atordoadas. Até pesquisar a respeito eu fiz. Descobri que o cérebro produz uma substância chamada Dopamina, quando estimulado por algo bom, seja um aroma, seja um chocolate, ou mesmo uma paixão desenfreada. É o neurotransmissor da alegria. Isso que deixa o famoso “quero mais” na memória. A diferença está na dosagem. Enquanto o chocolate nos faz produzir uma pequena carga de Dopamina, se resumindo a deixar uma doce e sutil lembrança, a paixão excessiva produz uma quantidade semelhante ao consumo de drogas pesadas. O amargor de sua abstinência é doloroso: ansiedade, desejo, tensão, descontrole. Precisava tomar uma atitude. Me sentia como expectador da minha própria derrota. Este foi o momento em que meu Superego, extremamente punitivo (sempre fui meu pior algoz), começou, em tempo, a reocupar seu espaço.

Inácio já perdia o protagonismo daquela história. Ainda bem. E eu já tinha entendido que ele era caso perdido e provavelmente já estaria passando a mesma conversa fiada em outra(s) pessoa(s). Dane-se. O que eu precisava era juntar meus caquinhos. Foi quando me deparei com um texto incrível na internet sobre o sentimento mais genuíno, e talvez escasso, do homem: amor. Em suma, ele dizia que, pela sua essência, o amor é capaz de perdoar tudo, exceto a ausência de reciprocidade. Aquilo me soou como um apelo da realidade, implorando para que eu voltasse à vida. Sim, eu sei que o que Inácio despertou em mim foi uma paixonite crônica, e não propriamente amor. O amor que me refiro é aquele que devo ter acima de todos: o próprio. Aquele que foi empurrado penhasco abaixo e precisava ser resgatado. Pois bem, tratei de sintetizar aquele texto tão incrível em uma única frase que virou tatuagem: “o amor aceita tudo, menos que não seja recíproco”. E foi na costela, num dos lugares mais dolorosos. Era para doer mesmo.

Nesse meio tempo o meu casinho anterior me procurou, dizendo que estava com saudade e pronto para um relacionamento sério. Até com flores me apareceu de surpresa à porta. Mesmo carente e emocionalmente capenga, me mantive firme na minha decisão inicial. Mandei pro inferno. Quanto a Inácio, sequer devia ele lembrar de minha existência. Seu telefone ainda constava na minha agenda. Deletei. Suas atualizações de Facebook e Instagram continuavam pipocando na minha timeline. Excluí de ambos. A partir daí era esperar o tempo passar. Eventualmente eu me recuperaria por inteiro. Reconheci que fui meu maior inimigo, mas Inácio também carregava sua parcela de tirania. Afinal de contas, ele usava a beleza como tática. Pior ainda, fazia isso conscientemente. E como se tivesse adivinhado meus pensamentos, me mandou uma mensagem em uma segunda-feira pela manhã. Visualizei, mas não respondi. Não foi o suficiente. Mandou outra mensagem perguntando porque o deixei no vácuo. Tinha de encontrar uma forma de me despedir, deixando claro que já não havia mais espaço para ele em minha vida. Poderia mandar um textão ou áudio dizendo poucas e boas. Isso nunca combinou comigo. Pensei um instante e decidi dar um adeus sutil e providencial. Na primeira noite em meu apartamento, Inácio se ateve por uns minutos em uma prateleira preenchida de livros que tenho na sala. Verdade seja dita, ele era um cara culto. Um dos títulos que chamou sua atenção foi O Pequeno Príncipe, que ele nunca tinha lido. Pois bem, seria essa minha retribuição aos bombons de gosto duvidoso que ele me trouxe. Porque, sinceramente, se tem coisa que Gramado sabe produzir é chocolate ruim. Pronto, falei.

Fui a uma livraria, comprei um exemplar. Não fazia ideia de onde Inácio morava, mas sabia onde trabalhava. E foi para seu escritório que, devidamente embalado e selado, postei o pacote. O que ele fez com o livro é problema dele. Ao menos me sentia de dever cumprido comigo mesmo. Aquilo simbolizava o fim de um período de “desamor próprio”. Mais ainda, era um recomeço. O que às vezes me pergunto é se Inácio chegou a encontrar as palavras da raposa que destaquei com marca-texto antes de despachar o presente: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Um dia descubro. Ou não.

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