D.R.

Aqueles textos aleatorios, sabe?


MIRIAM ESTÁ SENTADA NO SOFÁ, DE FRENTE PARA PAULO, E FALA AO TELEFONE

MIRIAM — Paulo, vem direto pra casa! Eu quero falar com você! COM VOCÊ, ouviu?

MIRIAM DESLIGA O TELEFONE COM RAIVA, SENTA NO SOFÁ E CRUZA OS BRAÇOS SÉRIA, ENQUANTO PAULO, SENTADO NO SOFÁ, OLHA PARA ELA COMO SE NADA ESTIVESSE ACONTECENDO. A CAMPAINHA TOCA. MIRIAM VAI ABRIR A PORTA, É PAULO. ELA ABRE A PORTA, OLHA PARA PAULO E FECHA A PORTA, IRRITADÍSSIMA. VAI ATÉ A MESA DE CENTRO, PEGA O TELEFONE E LIGA NOVAMENTE.

MIRIAM — Paulo, eu quero falar COM VOCÊ? Tá ouvindo? Você? Não era você, não dava tempo que você ter chegado, seu cínico! E vem logo! Tchau!

PAULO OLHA PARA ELA COMO QUEM NÃO PODE FAZER NADA.

PASSAGEM DE TEMPO.

BARULHO DE CHAVES DO LADO DE FORA. PAULO ENTRA E MIRIAM JÁ COMEÇA A FALAR. ENQUANTO ELA FALA, PAULO FAZ UM SINAL PARA O PAULO QUE ESTAVA NO SOFÁ, E ESTE SAI DA SALA E VAI PARA A COZINHA.

MIRIAM — Paulo, não agüento mais! Maldita hora em que eu fui reclamar que você andava meio ausente, que chegava tarde em casa. Maldita hora!

PAULO — Por que, mozico?

MIRIAM — Não vem com essa de Mozico! Não agüento mais esse monte de clone!

PAULO — É pra te ajudar e pra você se sentir menos sozinha, mozico. E não são clones, eles são eu. Eu faço cópias de mim mesmo, mas não são cópias mesmo, eles são eu. Todos eles!

MIRIAM — São você é o cacete! Você é você e eles são eles! E eu não consigo tratar eles como se fossem você! Eu to falando com você no telefone que to com saudade, e de repente me vem um de vocês pelado pra cima de mim! Não é você! Não dá!

PAULO — Mozico, sou eu sim.

MIRIAM — Não é, Paulo! Não é! Eu já acho estranho você fazer cópias pra lavar a louça, levar o cachorro pra passear ou buscar as crianças na escola, imagina uma cópia pelada aparecer de repente no meio da casa! Se põe no meu lugar!

PAULO — Eu ia adorar várias Miriams peladas por aí…

MIRIAM — Cala a boca, Paulo! Eu to falando sério! Você é você e eles são eles! Eu prefiro um marido ausente do que vários maridos ao mesmo tempo! Eu não consigo, Paulo, não dá!

PAULO — Tá, amor, vou fazer menos… Mas achei que fosse te agradar…

MIRIAM — Me agradar, Paulo? Eu quero VOCÊ, e não essas cópias. E não vem com essa de que eles são você, eu sei muito bem quando é você.

PAULO — É, eu não consigo mesmo te enganar. Vou parar, tá? Nada mais de cópias nessa casa!

NISSO A CÂMERA ABRE A UMA CÓPIA DO PAULO ESTÁ SENTADA NO SOFÁ, VENDO TV E COMENDO PIPOCA. PAULO OLHA PARA ELE COM AR DE REPROVAÇÃO E ELE SE LEVANTA RESIGNADO E SAI PELA PORTA.

MIRAM — Sério, amor. Eu te amo, mas só você. Eu sei quando é você. Não consigo nem conversar direito com eles.

PAULO — Promessa é dívida. Sem cópias em casa daqui pra frente.

MIRIAM — Promete?

PAULO — Prometo.

MIRIAM — Tá. Vamos dormir então, to morrendo de sono.

PAULO — Ah, amor, eu to com umas coisas pra fazer, uns relatórios. Pode ir, daqui a pouco eu vou.

MIRIAM- Tá, mas não demora. E nada de mandar cópias peladas pra cama comigo. Quero o senhor lá, nada de cópia

PAULO — Sim, senhora!

MIRIAM SAI E VAI PARA O QUARTO. PAULO FICA PARADO, COMO SE ESTIVESSE PENSANDO NO QUE ELA FALOU. NISSO, ALGUÉM BATE NA PORTA E MIRIAM FALA LÁ DE DENTRO.

MIRIAM (OS) — Quem é, amor?

PAULO (SEM ABRIR A PORTA, MAS INDO NA DIREÇÃO DELA) — É o entregador, amor. É que eu pedi pizza do caminho, pra chegar mais rápido.

PAULO ABRE A PORTA E VÊ PAULO DO LADO DE FORA. ELE SAI FURTIVAMENTE E FECHA A PORTA COM MUITO CUIDADO.

PAULO QUE ACABOU DE CHEGAR — E aí, como foi? Odeio DR, cara, putz. Me conta o que ela falou pra ela não desconfiar depois e tá liberado.