copo de água

crazy… I’m crazy for feeling so lonely

é meio estranho, é meio absurdo você acordar de madrugada com essa música tocando no outro comôdo, bem baixo pra você, mas estridente e quase arrebentando os tímpanos de quem ouve em fones que, de acordo com a embalagem, não vazam qualquer mínimo volume música para o ambiente.

e não é porque o verso fala de solidão. acho que essa parte a gente já passou, né. por favor. não, é estranho porque o que vaza dos fones — que nem são tão ruins assim — é somente a voz da alison mosshart. é uma voz, não sei se cê conhece, meio… não é mórbida. é meio melancólica. é meio morta. não sei, ouve lá depois. e só o que atravessa é a voz da alison mosshart. eu sei que essa versão é mais lo-fi mesmo, deve ser por isso, sim. mas o fato é que a voz da alison mosshart às 4 da manhã não é moleza. ela vaza, só ela, por fones que teoricamente não deveriam vazar nada pro ambiente. isso aí do vazamento deve ser de dia, só, quando a cidade é mais barulhenta. levantei e fui até lá.

I’m crazy… I’m crazy for feeling so blue

é engraçado, quase, mas é meio estranho você encontrar a pessoa deitada no sofá, de olhos abertos para o teto, com uns fones nos quais até dez segundos atrás você confiava mas ao mesmo tempo não sabia que precisariam de sua confiança. e olhando através dos óculos, através do teto, através do apartamento de cima e através da atmosfera inteira. e olhando fixamente. a pessoa nem te vê. é mais estranho que engraçado quando continua assim por alguns segundos.

eu também confesso que apareci bem discretamente e ainda só com metade da cara pra ver pela primeira vez, e é sorte que naquela hora eu não tenha sido visto mesmo, senão era ataque cardíaco garantido. sabe? quando alguém aparece sem querer te assustar mas te assusta, etcetera, clichê de bosta. enfim, não aconteceu, pelo menos.

I knew you’d love me as long as you wanted

eu fingi que não tinha visto nada, não tinha acordado com a voz da alison mosshart vazando dos fones, que não tinha chegado com meia cara ali no batente pra espiar e que nem tinha percebido que alguém ali viajava de olho aberto no sofá, olhando através da parede do teto, e saí de vez do quarto, sem nem olhar na direção do sofá, e fui pra cozinha. eu fui tomar água.

peguei água sem a menor sede, mas sem fazer barulho. como se eu não soubesse da voz da alison mosshart nos fones do sofá. voltei e me preparei pra um sustinho meio surpresa meio como assim? que seria inevitável porque o sofá ficava diretamente no olhar de quem faz a rota da cozinha pro quarto.

and then someday you’d leave me for somebody new

a cara com a qual eu olhei pra lá, a surpresa de bosta que eu quase cheguei a ensaiar pegando água, não é nada, mas é nada perto da cara com a qual eu fui olhado. eu cheguei a parar com o copo na mão, clichê de bosta. pelo menos não derrubei o copo no chão, enfim. mas que cara era aquela, cara.

o negócio ali era sério. só eu, ali, precisava fingir alguma cara, fingir qualquer surpresa, fingir que não tinha acordado com a alison mosshart, qualquer coisa. porque o olhar que eu recebia era tão impressionante que eu me senti um puta bosta só de ter feito todo esse papelão. enquanto eu me sentia um puta bosta, silêncio.

worry, why do I let myself worry

depois que eu parei de me sentir um bosta e me toquei que um olhar daquele deveria ser retribuído somente com atenção e não com autoanálise imbecil, silêncio.

silêncio por uns bons segundos. eu olhando com uma expressão que derretia pela minha cara, sem saber como lidar, e no sofá a voz da alison mosshart vazando pelos fones que não vazavam nada, e aquele olhar petrificante — desolador, de volta pra mim. algo precisava ser dito. não sei. acho que não.

wondering what in the world did I do

o olhar que antes atravessava tudo — dos óculos aos limites do universo conhecido com a força que nenhum buraco negro jamais vai ter — agora me dava um contínuo tiro na cabeça, pelo vão dos meus olhos, no meio da minha testa. ser fuzilado por um olhar: que clichê de bosta. enfim, não teve diálogo cretino, pelo menos.

se já era um pouco estranho acordar com a alison mosshart vazando dos fones no sofá e mais estranho olhar uma pessoa imóvel, deitada, olhando pro teto, ficava quase impossível aquela situação de voltar do fingimento todo da água e congelar com aquele olhar — que ao contrário do meu não era cretino — atravessando a minha cabeça. o problema é que, até onde eu entendi, só eu estava ali, sentindo a estranheza.

crazy, for thinking that my love could hold you

só eu porque, bom, quem estava gelado igual uma criança que entra pra jogar no campeonatinho da escola contra o time dos professores e percebe como o mundo realmente funciona, era, realmente, só eu. só eu quase derrubei o copo de água que eu fingi ter sede pra pegar. só eu queria estar de volta no quarto dormindo, que tava bom demais. só eu não queria ter ouvido a voz da alison mosshart vazando de um fone que, caralho, não devia vazar, tenho que reclamar essa porra, do outro cômodo. do outro cômodo, cara.

só eu estava ali. e na verdade eu era insignificante. eu percebi que o olhar que atravessava a minha cabeça realmente só atravessava a minha cabeça. e a porta da cozinha. e a geladeira atrás da porta, a parede atrás da geladeira, a casa do vizinho inteira de uma vez e o resto do mundo inteiro de outra. eu não importava.

I’m crazy for trying

era só uma questão de ângulo. alguma função automática do corpo, dessas que não param nunca, respiração, o sistema que pisca o olho, essas coisas, deve ter percebido de relance que eu estava ali e simplesmente virou a cabeça, só um pouco, e o olhar, outro pouco, pro ângulo que me abrangia. mas só. foi um impulso tão automático quanto a perna chutando quando você bate do jeito certo ali no joelho.

a minha presença não importava, não, a minha presença não foi notada, de verdade. a minha presença só foi traduzida em uns músculos se contraindo, e nada mais. a parte ativa do cérebro que ouvia a alison mosshart, no último volume, dentro dos fones, no sofá, nunca soube que eu estava ali.

and crazy for crying

seja lá o que estivesse acontecendo ali dentro, seja lá o que estivesse congelando aquele olhar, seja lá o que não liberava nem um centésimo da atenção racional pra olhar uma pessoa com cara de bosta e um copinho de água na sua frente no meio da madrugada continuaria lá, cem por cento, e inabalável. enquanto aquela situação se mantivesse, minha cara derreteria mais e mais, até pingar alguma parte dela dentro do copo de água que, pelo menos, eu não derrubei no chão, e aquele olhar me atravessaria invariavelmente, até que outra coisa desse outro gatilho no sistema que respira e pisca os olhos, outros músculos se mexessem e a mesma coisa continuasse furando o universo inteiro em um ângulo novo.

a alison mosshart não cantava mais porque a faixa tinha acabado. eu dei mais uns segundos, porque eu não existia mesmo, e a alison mosshart começou a vazar de novo pelos fones. só a voz dela, meio morta, meio melancólica. a mesma música, com esse arranjo mais lo-fi. o negócio era sério. tava no repeat. eu queria não ter acordado com a voz da alison mosshart. queria não ter espiado com meia cabeça. queria ter espiado com meia cabeça e voltado a dormir. queria não ter pegado água fingindo expressões de sustinho. queria não ter sido atravessado e obliterado por um olhar infinitamente mais denso que o meu. mas acordei, e espiei, e peguei água ensaiando as caras, e fui obliterado. de qualquer forma, foi como se eu não tivesse feito nada disso. quando uma cara ensaiada derrete lentamente no meio da floresta sem que ninguém esteja lá para rir de sua desgraça, ela realmente existiu? inexistente, voltei pro quarto com o copo de água na mão.

and I’m crazy for loving you
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