relapso

A gente morou lá por um tempinho só. Uns meses. Acho que até chegou a dar um ano.

A gente tinha um pouco de medo, na época, mas não era nada sobrenatural e nem nada específico. A gente só tinha um pouco de medo mesmo, da vida. Normal, como praticamente todo mundo aqui tem. Talvez o medo era da cidade. O medo, talvez, era do ponto médio entre dois postes, na calçada, ali onde a penumbra é mais forte. A gente tem até medo das árvores, aquelas com a copa mais cheia e o tronco mais largo. A gente tem medo de cercado de construção, de ruínas, é claro. A gente chega a ter medo até de buraco de esgoto e de quina de parede. A gente morre de medo de barulhos no corredor do prédio. A gente fica atento pra saber qual vizinho chegou, em que porta entrou, e se não é um vizinho, e se essa porta é a nossa.
A gente era meio relapso. A gente esquecia do pão no mercado, sendo que a gente sempre comia pão de manhã antes de sair pra trabalhar, e calculávamos o jeito do pão acabar antes de sair de viagem. No mercado só comprávamos cerveja mesmo. E umas castanhas, às vezes uns pistaches. A gente também comprava água, verdade. A água a gente preferia engarrafada, mesmo que saísse um pouco mais cara. A gente não comprava o pão no mercado e ia lembrar só quando já estava do lado de casa. É claro que não queríamos voltar. A gente ficava meio apressado porque tínhamos filme pra ver. A gente chegava e esquecia do filme. Relapsos. Era quase dez, mais ou menos, e a gente lembrava do filme. A gente tomava banho logo que chegava em casa porque a gente sua muito. A gente entrava correndo no chuveiro. Na verdade antes a gente guardava a cerveja no freezer, que a gente tinha filme pra ver e era bom ver com cerveja. A gente tinha umas coisas pra comer também, durante o filme. Umas castanhas. Tomávamos banho antes de mais nada, depois comíamos alguma coisa — a gente não era de jantar — e assistíamos filme com cerveja e umas castanhas, uns pistaches. Mas a gente era relapso. A gente esquecia do filme porque a gente acabava conversando demais, ou porque simplesmente fazíamos outras coisas. A gente gostava de tirar fotos da cidade, olhando da varanda de casa. A gente tinha um projeto de tirar fotos iguais, da mesma vista da varanda, do mesmo ângulo da cidade, pra comparar depois, achar padrões, achar discrepâncias, consolidar uma visão, propor um pensamento, publicar na internet, publicar numa revista, publicar na galeria. A gente é bem parecido mesmo. A gente ficava distraído com as fotos, às vezes. Engraçado que às vezes não. De vez em quando a foto era rápida, e de vez em quando, por algum motivo que nem existe, a gente demorava horas até tirar a foto. Aí às vezes já tinha passado da hora de ver filme. A gente não era de dormir tarde, nem exatamente cedo, mas a gente não luta por nada, a gente não acha que tem uma hora certa de dormir. Não defendemos com unhas e dentes nossa rotina, tem gente que defende.
A gente analisou depois que era uma forma idiota de ver a cidade. A gente não luta pela forma certa de ver a cidade, só achamos que a nossa, na época, era idiota. A gente olhava a cidade de cima, e de longe. A gente olhava a cidade de fora. A gente analisou, no fim das contas, que a forma mais adequada da gente ver a cidade, realmente ver, era da rua. Era da rua que a gente veria os padrões e as discrepâncias, da rua que a gente consolidaria uma visão, proporia um pensamento. Mas a gente tinha medo da rua. A gente tinha medo das sombras dos postes e das casas de muro baixo. No fim das contas a gente viu que a gente só tinha fotos da cidade. Mas da cidade a gente não tinha foto nenhuma. A gente tinha medo da cidade. Talvez por isso.
Um dia a gente chegou de viagem, passou no mercado, compramos cerveja, água e pão. A gente chegou na esquina de casa e lembrou que havíamos esquecido de comprar umas castanhas. A gente era meio relapso. A gente tinha um filme pra ver, aquele dia. Era verão e o verão era forte. A gente estava suando muito, de calor. A gente chegou em casa e correu para o chuveiro. Depois a gente comeu alguma coisinha porque a gente não era muito de jantar. Chegamos a escolher o filme que a gente ia ver, e vimos na internet que no filme tinha umas aranhas, aí a gente acabou falando de umas coisas, a gente lembrou de umas fobias de uns amigos, umas fobias nossas. A gente decidiu tirar a foto da cidade no meio dessa conversa com uma esperança quase bruxa de que a foto, do mesmo ângulo da mesma cidade tirada da mesma varanda, transmitisse a fobia. Alguma fobia, qualquer fobia. A fobia da foto, a fobia da cidade. A gente chegou a acreditar naquela ideia. A gente era ingênuo. A foto foi feita, a cidade não demonstrou fobia e, no futuro até hoje mesmo, não conseguimos mais lembrar qual foto é a da fobia. Todas as fotos são meio iguais. A gente achou que a foto tinha ficado excelente. Acho que a gente se convenceu de que a foto da fobia funcionou. A gente abriu uma cerveja e lamentou a falta de umas castanhas. Decidimos que na próxima ida ao mercado compraríamos não só umas castanhas como uns pistaches também. A gente sentou no sofá, cervejas em mão e ligamos a TV. A gente começou a ver o filme. Na verdade, a TV deu um problema antes do filme começar, mas a gente é bom com essas coisas, a gente arrumou logo. O filme começou e a gente estava vendo. Não tinha nem 20 minutos do filme e a gente assustou.
A porta do elevador tinha se fechado há uns 5 segundos. A gente ouvia a porta do elevador de dentro de casa. A gente nem deu atenção, na verdade a gente continuou vendo o filme sem falar nada e nem se entreolhar porque isso não era motivo de pause. A gente ouviu uns barulhos no corredor, que eram do vizinho, provavelmente. Tinha um vizinho que morava na porta mais distante da nossa, e demorava bastante para ir do corredor até ela, outro que morava na porta oposta à nossa, do outro lado do elevador, e ainda outro que morava uma porta depois da gente, porque a nossa porta era a primeira depois do elevador. A gente ouvia os passos, enquanto ele passava pela nossa porta até chegar à dele. A gente ouviu os passos, e a gente ouviu a porta. A porta era a nossa porta. Não era um vizinho. Era a nossa porta.
A gente congelou. Uma chave entrou na porta. Alguém tinha a nossa chave. A gente se assustou. A chave começou a girar. A gente ficou parado. A chave deu a segunda volta e a maçaneta abaixou. A gente conseguia ver a maçaneta porque a distância do sofá para a porta era pequena o suficiente e a gente não gostava de ver filme de luz apagada. E mesmo que a gente não visse a maçaneta, ela fazia muito barulho. A chave deu a segunda volta e a maçaneta abaixou fazendo muito barulho. A gente estava mudo. A porta abriu e a gente assustou.
O André entrou e a gente se olhou. A gente ficou parado e perplexo. O André estranhava e nos olhava assustados. A gente se acalmou. A gente tinha esquecido, de novo. A gente tinha esquecido do André. O André morava com a gente.

A gente era meio relapso. A gente esquecia de comprar a cerveja no mercado. A gente gostava de ver filme comendo umas castanhas mas nem sempre a gente conseguia. A gente tirava umas fotos da cidade. A gente tinha um pouco de medo.

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