Vossas excelências e o espetáculo político

Eric Landowski afirma que para tornamos o mundo inteligível, nós o “teatralizamos” a todo o momento, numa posição semelhante à do público ante uma cena de comédia. A política é percebida, a partir dessa premissa, como sistema de relações e como encenação. As relações configuram zonas intersubjetivas — abrigando representados e representantes e a encenação articula em narrativa a intriga dos atores sociais num intricado jogo de simulacros, visibilidades e atenções.

A política-espetáculo presentificada por governantes e governados pressupõe — como lembra Landowski — a figuração estética de um jogo teatral cotidiano. Na política, cada governante dar a ver teatralmente ao público a encenação dramática de uma representação jurídica.

É sob esse prisma que o presente ensaio busca discutir o acontecimento “as cusparadas”, envolvendo os parlamentares Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Jair Bolsonaro (PSC-RJ), ocorrido durante a votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, na Câmara dos Deputados. Tomando por base o episódio, apresentaremos o espetáculo como sucedâneo do debate político. Nesse sentido, a análise evidenciou como a singularização e a simplificação da informação centrada no escândalo envolvendo os dois deputados desloca a arena de discussão política para uma zona figurativa de “atuação” e espetáculo. Os meandros dessas questões serão discutidos sob a égide do pensamento de autores como Pierre Bourdieu, Eric Landowski e Mar de Fontcuberta. Os pontos problematizados no texto serão tensionados a partir de matérias divulgadas nos portais Folha, O Globo, Época Negócios, UOL e Zero Hora.

O par antitético Jean Wyllys e Jair Bolsonaro é sintomático de uma postura que permeia a discussão política nos veículos de comunicação. A complexidade do contexto histórico-social é simplificada pelo campo jornalístico — reduzindo-o aos jogos de imagem e de cena. No caso específico das notícias envolvendo os dois deputados, o que se observa é o apagamento da discussão política em detrimento da performance de parte a parte.

No momento em que o jornalismo opta pelo tom simplificador ao reportar a um conjunto múltiplo de informações, isso termina por engendrar um processo de despolitização. A necessidade constante por imagens ou escândalos (espetáculos) destitui da notícia o seu aspecto reflexivo e contestador. A atualidade fica reduzida a uma “rapsódia de acontecimentos divertidos”. Essa presentificação contínua de imagens e espetáculos acaba por suprimir o tempo do discurso político e o tempo de recepção.

Disso resulta que o jornalismo assentado sob a premissa dos paradigmas de neutralidade, imparcialidade e objetividade não consegue apreender a dinâmica que perpassa o contexto social e age por simplificação. Mar de Fontcuberta (2006) destaca que o jornal vive no momento atual sob o império dos princípios da disjunção, redução e abstração — que em conjunto constituem o que se denomina como “paradigma da simplificação”. A autora explica que a forma “atomizada” de reportar aos contextos sociais implica em uma barreira para se compreender a realidade.

Fontcuberta entende que a informação deve ser o mais crível possível e suficientemente completa para permitir a compreensão real da atualidade. Deve-se levar em consideração que a compreensão das notícias exige a inserção de um contexto, a explicação de suas causas e uma pergunta que explicite as suas consequências. Nesse sentido, a autora aponta que há a necessidade da passagem de um pensamento simplificador para uma perspectiva complexa de desvelamento da realidade social. Sob essa perspectiva, o exercício crítico da prática jornalística desempenha um papel importante na problematização do fato e da articulação da notícia com os aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais. Insere, pois, efetivamente, a notícia como elemento de inteligibilidade do contexto social e de compreensão dos sujeitos que compõem a arena discursiva e histórica.

Ao discutir os conceitos de sociedade complexa, Fontcuberta recorre a Edgar Morin (1997). O sociólogo francês explica que a complexidade se constitui como uma “palavra-problema” e não como uma “palavra-solução”. Para Morin, a separação do conhecimento se viu agravada pela redução do complexo ao simples e por uma hiperespecialização que fragmenta o tecido social. Fontcuberta acrescenta que o pensamento simplificador não é capaz de conceber o singular e a realidade múltipla. Chega-se, nesse sentido ao que se denomina de inteligência cega, “que destruye los conjuntos y las totalidades, y aísla a todos sus objetos de sus ambientes. Morin considera que ello produce una patología contemporánea de pensamiento” (FONTCUBERTA, 2006, p. 10).

Verifica-se no episódio “as cusparadas” envolvendo Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Jair Bolsonaro (PSC-RJ) dois movimentos: o primeiro de disjunção e o segundo de redução. Os termos dialogam com o conceito de cultura mosaico proposto por Abraham Moles — quando o autor se refere aos meios de comunicação como fragmentários, atomizados e expostos sem nenhuma hierarquização.

Segundo Fontcuberta, Moles define esses conceitos como “átomos de cultura” e os apresenta como impedimento para compreender a dinâmica da realidade social e suas complexidades. Precisamente, no caso, protagonizado por Wyllys e Bolsonaro, constata-se que o universo de sentidos engendrados pelo acontecimento circunscreve os dois “personagens” meramente como par antitético e como teatralização de opostos, subsumindo-os como meros espetáculos de imagens.

Segundo Bourdieu, o campo jornalístico institui a política da simplificação demagógica com o intuito de projetar uma imagem do público e da audiência. Nesse sentido, algumas características apontadas pelo autor francês podem ser notadas nas matérias aqui discutidas. Por exemplo, nas notícias da Folha, O Globo, Época Negócios, UOL e Zero Hora, os jornalistas optam por dar destaque à disputa envolvendo os parlamentares em lugar do debate de ideias, privilegiam a polêmica em lugar da dialética e preferem destacar o enfrentamento entre os sujeitos em detrimento do embate de seus argumentos. Esvazia-se a arena de discussão e a cena política; pondo em seu lugar o jogo de imagens e de sensações.

As matérias aqui em diálogo apresentam um tom evanescente, privilegiando mais as imagens espetaculares — as cusparadas, as discussões entre os deputados — do que o sentido ou o contexto em que os sujeitos estão inseridos. Elide-se o debate político e instaura-se a discussão entre indivíduos, seus feitos e malfeitos, figurando um cenário de denúncia e acusação.

Constata-se, nesse sentido, que o campo jornalístico opta cada vez mais pela figura do animador-comediante em detrimento do editorialista e do repórter-investigador. As informações, as análises, a entrevista em profundidade e a reportagem emergem como constructo para a diversão. Sob essa perspectiva, o campo jornalístico funciona como elemento vicário (espetáculo) do dito debate “sério” e aprofundado das problemáticas que atravessam e matizam a realidade social.

O debate político, segundo as observações elencadas, aparece como espaço dramatúrgico, no qual os “atores” procuram tornar visível, reconhecível e “amável” perante seu público a apresentação de si. Jean Wyllys e Jair Bolsonaro encenam três atos. O primeiro é fazer-se ver em cena. Os parlamentares cumprem o papel funcional inscrito no interior de uma trama narrativa e de uma atividade institucionalmente condicionada e de antemão definida. O segundo ato representa a intervenção no espaço da sala. Aqui, os “intérpretes” surgem como cúmplices de uma interação que se mostra propensa para ser vivida em união estreita com a presença do outro contrastante. A última cena pressupõe um mostrar-se para a cidade. Nesse momento, Bolsonaro e Wyllys emergem como individualidade inclinada a revelar diante da mais ampla audiência a “autenticidade” de sua pessoa por trás da “máscara” política.

A partir de Bourdieu, constata-se que o bailado de representações articulado pelo jornalismo tende a enxergar a política mais pela intimidade dos contatos e das confidências do que pela investigação. Disso resulta que o jornalismo interessa-se mais pelo “jogo e pelos jogadores do que por aquilo que está em jogo” (BOURDIEU, 1998, p. 96).

Apreende-se que a prática jornalística centrada na configuração econômica e política deve buscar a enunciação de um discurso e de uma narração que problematize e complexifique as distintas realidades que compõem o contexto social. Dessa forma, o jornalismo pode ir além dos meras tessituras dualistas, permitindo-se lançar um olhar heurístico sobre os fatos que compõem a realidade histórica e social.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. Contrafogos: táticas para enfrentar a invasão neoliberal. Tradução Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

________________. Sobre a televisão. Tradução Maria Lúcia Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

ÉPOCA NEGÓCIOS. Após voto, Jean Wyllys cospe em direção do deputado Jair Bolsonaro. Disponível em: <http://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2016/04/apos-voto-jean-wyllys-cospe-em-direcao-do-deputado-jair-bolsonaro.html>. Disponível em: 16 jul. 2016.

FOLHA. Jean Wyllys e Bolsonaro trocam insultos e cusparadas em sessão. Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/04/1762146-jean-wyllys-e-bolsonaro-trocam-insultos-e-cusparadas-em-sessao.shtml>. Acesso em: 16 jul. 2016.

FONTCUBERTA, Mar de. El periódico en una sociedad compleja. In: BORRAT, Héctor; FONTCUBERTA, Mar de (Orgs). Periódicos: sistemas complejos, narradores em interación. Buenos Aires: La Crujía, 2006.

LANDOWSKI, Eric. Presenças do outro. Tradução de Mary Amazonas Leite de Barros. São Paulo: Perspectiva, 2002.

MORIN, Edgar. Introducción al pensamiento complejo. Barcelona: Gedisa, 1997.

O GLOBO. Jean Wyllys admite que cuspiu ‘na cara’ de Bolsonaro. Disponível em: http://oglobo.globo.com/brasil/jean-wyllys-admite-que-cuspiu-na-cara-de-bolsonaro-19110700>. Acesso em: 17 jul. 2016.

UOL. Jean Wyllys cospe em Bolsonaro e diz que faria de novo. Disponível em: < http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/04/17/jean-wyllys-cospe-em-bolsonaro-e-diz-que-faria-de-novo.htm>. Acesso em: 17 jul. 2016.

ZERO HORA (ZH). Jean Wyllys cospe em direção a Bolsonaro durante votação. Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2016/04/video-jean-wyllys-cospe-em-direcao-a-bolsonaro-durante-votacao-5780400.html>. Acesso em: 16 jul. 2016.