União da Vila. (2008 — ∞)

Ariel Freitas
Jul 20, 2017 · 2 min read
Jamaica. (Reprodução/Google)

Acordei com uma imensa saudade da infância. Acho que ficar velho é olhar para o passado com o sentimento de nostalgia e perceber que esses anos não vão mais retornar. Sinto falta do tempo que as minhas lamentações eram sobre a escola, futebol, brinquedos quebrados, viagens que era obrigado a ir com a família, e etc. Hoje minhas lamentações são a respeito do trabalho, a falta de dinheiro para pagar os boletos, amores não correspondidos, a maldita vida acadêmica que suga minha energia e o meu tempo.

Eu ainda possuo lembranças dos domingos ensolarados que jogava futebol na praça Jamaica–naquela época, nem suspeitava que o nome era uma referência a quantidade de pessoas que fumavam maconha no local. Tínhamos um time que era chamado de União da Vila e o nosso antigo treinador era um ex-taxista que possuía alguns problemas com bebidas e outras drogas, mas o contato frequente com o esporte o fez abdicar delas.

É incrível a habilidade que o tempo tem de passar rápido e fazer as nossas prioridades mudarem na mesma velocidade. Infelizmente perdi o contato com a maioria dos jogadores do nosso pequeno e saudoso clube, mas o tempo trouxe algumas notícias a respeito deles (alguma coisa boa ele tinha que fazer).

Uma pequena parte dos meus amigos seguiu o roteiro feliz da vida. Conheceram uma garota legal, construíram uma família e hoje se tornaram pais presentes–um privilégio que a maioria de nós não tivemos na infância (será que homens negros periféricos são tão ausentes assim?). O sentimento de felicidade me invade quando penso que as histórias dos filhos deles vão ser diferente da nossa.

Em contrapartida, uma quantidade triste de amigos se perdeu na vida do crime e acabaram mortos–os mais sortudos foram presos. Eu realmente não sei em qual esquina, ou talvez saiba, em que nossas vidas se tornaram como água e óleo: não se misturam. As amizades que não tiveram o seu futuro entrelaçado em celas, estão acorrentadas a dura rotina do cotidiano capitalista. Atrás de dinheiro para se manter vivo. Ah! O meu ex-treinador se entregou para o seu antigo vício.

Daquele time sou o único que iniciou os estudos em uma faculdade, e não escrevo isso com um tom de felicidade ou superioridade. Gostaria que todas as antigas amizades trilhassem um caminho parecido, mas não conseguimos marcar esse gol. Observo o futuro sem uma perspectiva do que me espera, mas pelo menos ainda tenho chances de fazer isso.

Eu posso prometer a eles que a minha caneta vai seguir viva.

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    Ariel Freitas

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    Jornalista | Escritor | Ativista | Músico

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