experimentação.
manutenção de algum tipo de prestígio, o tipo que não conheço mais. deixo coisas fluírem dos meus dedos, sem pensar muito, sem meu auto julgamento que costumava ser constante.
experimento a inércia, a recepção ininterrupta. tudo do mundo passa por mim e deixa alguma partícula de poeira que um dia talvez faça diferença. hoje não faz. amanhã também não vai fazer. sou um fantasma do que eu fui um dia, esses dias. uma casca superficial de tudo que construí, ou desejei construir. minha sombra é quase transparente e não deixo mais marcas por aí. minha presença é uma nostalgia falsa, mas eu não sinto nenhuma falta de mim. não sinto falta dos outros, nem de nada, nem de como costumava ser. e não tenho medo, mas estou sozinha, e não sei se posso deixar de temer a solidão completamente.
se temo algo, é o temer em si. temo a coragem que cresce em mim de voltar a ser gente, de criar, de não mais só receber. de sair do conforto da inexistência e estar consciente. e, na minha consciência, perceber de novo a solidão que sempre esmagou meus ossos, e que me deixou descansar depois que desisti.
experimentação. absorção do que está ao meu redor e do que procuro com sede. sou amaldioçada por algo dentro de mim que nunca consegui conhecer. e nos meus sonhos há uma memória do futuro, em que experimento. em que vejo fantasmas e desejos. coisas que não tenho mais, mas que o subconsciente me força a reconstruir enquanto fico pendurada na inércia, e o sangue volta a correr nas minhas veias, e meu rosto volta a ser reconhecível aos meus olhos, e a ansiedade e a vontade voltam a comer a minha carne. e são olhos e veias diferentes, e uma carne que cresce desigual. é uma pessoa que não conheço que se esconde atrás de mim e me mata aos poucos; que faz com que eu volte a sonhar, e a viver, enquanto eu morro.
