Céus de Krila

Chovia. Há cento e doze dias.

— que faremos, meu senhor? — indagou o oficial do reino com semblante preocupadíssimo.

—Nunca, no tempo de meus ancestrais, em todo o reinado desta família, tamanho desastre acometeu-se sobre essas terras. — recitou o rei sem levantar os olhos de seu colo, acariciando com pesar o cajado magistral, símbolo da dinastia Monn. — Eu gostaria que este inferno tivesse fim.

— Devo ordenar que a secagem das ruas recomece?

— Existimos em vão, Daniel. Que deuses eu irritei para que fossemos condenados a esta vida sem propósito? Ordene que sequem, e quando estiver seco, a chuva voltará.

— Talvez exista uma saída senhor, ou talvez os deuses tenham escolhido você por saber que tu terias a coragem necessária para sobrepor essa mazela.

— Como meus cães, Daniel… Meu povo nem isso consegue, os animais morrem no arado presos à lama, as planícies de nossas terras, que sustentamos em nossa bandeira, são pastos encharcados e tristes, onde a coragem entra ai?

— Não sei, senhor. Me desculpe.

— Avise-os para secar, e prepare os homens para carregar os navios com todo mantimento que nos resta. Busque sua esposa e sua filha.

— Mas senhor, e o povo? Temos apenas quatro embarcações, outras sete estão no estaleiro sem condições para navegar, e com essa umidade, a madeira não serve para os reparos.

— O povo sofrerá, Daniel, mas não mais que eu.

— Senhor, devo aconselhá-lo que não fujas. Dê uma chance a nós, se amanhã a chuva passar?

— A chuva nunca passará, só os tolos acreditam na fortuidade da esperança dessa maldita terra, nada faz sentido — Uma lágrima escorreu até o queixo proeminente do rei — Daniel, vá agora, antes que a água alcance novamente seus aposentos.

Daniel, então ergue-se, olha o rei nos olhos, e sai em direção as ruas, ao abrirem as portas o barulho da chuva irritantemente penetrava o salão do castelo, nenhuma voz se ouvia, apenas os pingos ecoavam, até o fechar das portas, quando então passavam a ecoar de maneira abafada.

— Que seja assim então. Eles merecem mais, me terás, enfim, se fores falso, eu juro por minhas filhas que procurar-te-ei por todo o infinito, e minha ira não terá limite.

Subiu com passos pesados até o aposento real, vestiu a túnica de coroamento, empunhou o cajado, continuou até o topo da torre, abriu a escotilha vertical, a água entrou e desceu as escadas que ficaram para trás degrau a degrau, enquanto o seu rosto sentia as gotas e o vento gelado que soprava como nunca soprou.

Pôs-se de pé sobre a torre. Encarou a cidade em prantos. Saltou.

O céu se abriu em Krila.

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