Definitivamente, não.


— E ele tem poder sim! Abraça todos nós em suas palavras de ternura e não nos deixa no vazio! Amém, irmãos!

— AMÉM!!!

— A glória cura todo mal, vem cá senhora, conta teu problema.

— Boa noite pastor, eu… eu não conseguia levantar…

— E orou?

— Todo dia pastor.

— E o quê aconteceu?

Ela dá pulinhos e sorri no palco do templo, lotado, aplausos ensurdecem.

— Só Deus opera assim, vejam vocês, eu também tenho Deus em mim, sabia? — Sorrisos e concordâncias da plateia — Tenho em mim por que já fui ruim, sim senhora, já fui muito ruim, eu batia. É gente, eu batia no meu irmão. Mas não batia pouco, era com força, pra arrancar sangue mesmo.

Mãos vão a boca, burburinhos começam a tornar-se audíveis.

— Mas vou usar a oportunidade aqui que Deus me proporcionou pra mostrar pra vocês o poder da redenção dele. — Sorrisos voltam por um instante — Eu batia no meu irmão, não porque eramos pobres, não, tínhamos de tudo! Meu pai era piloto de helicóptero. Minha mãe advogada. Batia no meu irmão porque ele era burro, mas não burro normal, ele era irritantemente burro, tão burro que o simples atraso dele para pedir a quantidade de pães certa na padaria já me dava vontade de soca-lo a boca. — Risos inocentes — Bati nele por 14 anos, mas hoje nos falamos normalmente, apesar da mulher dele ser uma pecadora.

— Sim meu povo, meu irmão é vítima de adultério, e não tem mais ninguém que posso culpar se não eu mesmo, Mara vinha aqui aos domingos, assim como essa senhora que acabou de passar aqui. Tinha dor nas costas também, mas entre um sermão e outro eu me deixei levar. Eu transei com a mulher do meu irmão, meu povo, e me arrependo. — Olhares esbugalhados de algumas senhoras, somados a confusão de cabeças se olhando e expressões de espanto nasciam no salão. — É, eu disse, fui mau, mas não me arrependo de ter feito o ato, me arrependo da solução que encontrei pro problema que ela gerou. Veja aqui nós ganhamos bastante doação, na verdade, eu não sei se já passou a bolsa, pede pro marquinhos passar com a bolsa por favor, pode começar aqui pela direita.

— Então, meu povo, ela queria tudo rapaz — Sorriu sem graça o pastor , a plateia em silêncio— Queria meu carro, queria dormir na minha casa com a minha filha, queria conhecer minha mãezinha, queria comer feijoada no encontro dos pastores, queria ser tudo que minha mulher era. — algumas senhoras se levantam e começam a se retirar puxando os acompanhantes pelos braços— É, eu me arrependo de ter acabado com tudo ali, logo depois do culto, eu dava uma olhada no caixa, e sempre levava o Marcão comigo, ele ficava na porta enquanto os meninos faziam a contagem do dinheiro e eu ficava olhando. Ai ela chegou toda dondoca, puxando o dinheiro da mão dos meninos, dando risada, eu que nunca levei desaforo puxei o braço, ela não gostou, dei-lhe um tapinha, ela chorou, falou que ia mandar aquelas nossas fotos em Búzios no barco, eu falei “cê num é loca”, ela já puxou o celular, começou a discar, não deu outra. — Os olhos da plateia petrificados, a esta altura restava apenas um terço da plateia inicial. — Puxei a arma do Marcão que tentou me segurar, atirei umas cinco vezes, se o Marcão tivesse aqui eu ia dar uma porrada naquele infeliz, ele puxou meu braço bem na hora, acabou que pegou um bem no rosto do Wellington, irmão do Marquinho, esse menino que ta passando ai com o nosso pedido de doação. Deus abençoe a alma do seu irmão, Marquinho. O resto eu acertei, me arrependo de ter acertado o coitado do Wellington que tava ali trabalhando, com fé no senhor.

A platéia chocada grita e gesticula contra o pastor, atira sapatos e todos os tipos de alcunhas ganham conexão com o nome dele. Aos poucos nem mesmo os assistentes ficam ao seu lado, o microfone é cortado pela equipe de som, a transmissão da televisão entra em comercial, as pessoas curadas, voltam mancando ao ponto de ônibus, todos saem do recinto.

Com os ombros cansados, o pastor ajoelha e olha com tristeza para as costas da mão marcadas com arranhões da ultima briga, respira fundo e solta a gravata, o suor já ocupava metade da camisa cinza. Quando sente uma mão de leve o acariciar as costas, e um respirar calmo circunda seus ouvidos, ele então sorri, fechas os olhos e diz:

— Eu sabia, sabia que a confissão iria me libertar, levei mais de dez anos para criar a coragem para isso, enfim me encontro com a paz, é você que eu sempre esperei. — O silencio calmo faz com que, sorrindo, o pastor clame — Amém! que felicidade, nem acredito, é você mesmo senhor?

— Definitivamente, não.

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