
O Jornal Hoje como terapia
Assistir o Jornal Hoje é uma terapia a que todo mundo deveria se submeter de vez em quando.
É uma colagem de histórias absolutamente banais de gente comum. Sem espetacularização, sem maquiagem. É a tia horrorizada com o aumento do feijão; o Evaristo explicando, em termos simples, como fazer o novo cálculo do imposto de renda; um picareta do mercado financeiro dizendo que o importante em tempos de crise é manter a fé, como se a entidade mística que gere nosso universo estivesse efetivamente preocupada com o seguro-desemprego do Róbson, que está demorando pra sair.
Esse exercício é doloroso, mas saudável. Sobretudo pra essa minha geração e classe social, que não tem tempo pra nada, exceto pra consumir toneladas de cultura pop. Que cresceu com a certeza de que seria importante e faria coisas grandes. No fundo, a gente ainda acha que vai cair um intercâmbio do céu, que nosso canal do Youtube vai bombar, e que, a qualquer momento, vamos virar o casal-Catraca-Livre, que abdicou de tudo, menos da renda de três imóveis em Ipanema, pra viajar o mundo em busca de uma experiência de compaixão, transcendência e fotos em redes sociais.
A triste verdade — que o Jornal Hoje tão bem nos escancara — é que a vida não é assim. Que, na maior parte do tempo, nossas preocupações são tão ordinárias que nem valem um snap. E que provavelmente não realizaremos todos os nossos sonhos, a menos que eles envolvam planilhas de Excel e impressoras que não funcionam.
Num primeiro instante, dói. Depois, a vida fica menos complexa, menos cheia de autoexigências e menos opressora. Recomendo. •
