Naufrágio no Mar Vermelho

Este texto de José Geraldo Vieira estará presente na próxima coletânea da Arcádia Editora.

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Nós, correspondentes de guerra de todos os jornais do mundo, não nos saturamos nunca do que vemos e mandamos contar para as edições que vinte e quatro horas narram ao mundo da retaguarda, episódios dos diversos fronts. Verdade é que nesta guerra, a ex-retaguarda nos pode, por sua vez, contar muitos episódios, principalmente quanto aos raids de aviação maciça que transformaram o mundo quase que num campo de batalha.

Ontem, aqui em Paris, depois de havermos corrido que nem corretores da Bolsa às agências para radiografarmos as eleições da Assembléia Francesa, marcamos encontro na porta do consulado americano para irmos todos juntos à estréia dum filme de Cocteau onde trabalha o Delannoy.

Vinte minutos depois da hora marcada, ainda não tinha chegado o Fowler. Para que havíamos de dar, enquanto o esperávamos? Cumpre advertir que tínhamos bebido um pouco, antes, na Chaussée D’Antin. Éramos sete, e desandamos a contar “naufrágios”, um dos aspectos mais ignorados desta carnificina mundial. E cada qual, enquanto o Fowler não chegava, contava um caso marítimo a que tinha assistido pessoalmente, este, no Mediterrâneo, aquele no mar Negro, o outro no mar do Norte, aqueloutro no Pacífico, estoutro no Índico. Cousas apavorantes, de arrepiar. No penúltimo caso, o Fowler chegou, ficou a ouvir e enquanto descíamos, calçada abaixo, ele prestava muita atenção até que, já no Boulevard des Capucines se saiu com esta:

— Que cenas horrorosas! Inda bem que isso acabou. Meu Deus, não há meio mais de se morrer na cama! Bem. Vou contar agora o naufrágio a que assisti. Horrível e belo, como todo naufrágio. Foi no mar Vermelho…

— Mentira! — gritamos todos, com autoridade peremptória, porque sabíamos muito bem que o Fowler, de mar só conhecia o estreitozinho entre Dover e Calais.

Mas, ali rente a uma árvore no meio fio, Fowler, com o seu cachimbo, com aquele jeito de encarar um por um para não desviar a sua nem a nossa atenção, pondo a mão no ombro dum, no botão do sobretudo doutro, nos bolsos, na cabeça, se saiu com isto, mais ou menos:

Assisti pessoalmente, sozinho, a um naufrágio no Mar Vermelho, não durante esta, ou durante a guerra passada, mas quando vim fazer meu curso em Paris, em 1920.

Primeiro fui para o Hotel Maurice. Perdi em Longchamps, passei para o Hotel Joana d’Arc. Perdi em Auteil, passei para o Hotel do Louvre. Perdi em Vincennes, passei para uma água-furtada na Rua Lemercier. Agora, vou abrir um parêntesis: vocês não aluguem nunca, seja casa, apartamento ou mesmo quarto, sem experimentar um dia de observação acústica pelas redondezas, pelas escadas, pelos vizinhos, para não lhes acontecer o que me aconteceu. Fecho o parêntesis. O quarto dava, na frente para um telhado donde não se viam nem gatos, nem outras águas-furtadas nem edifícios de ministérios e nem mesmo arco de triunfo. Atrás, não dava para cousa nenhuma, a não ser para dentro da consciência, como toda a água-furtada, seja de Raskolnikov, de Crime e Castigo, seja dos versos de Gérard de Nerval ou de Holderlin. Na primeira manhã, despertei com um ruído infernal. Pensei que era no pátio; não aturei, vesti-me, saí para o corredor, guiei-me pelos ouvidos (não foi à toa que Deus e Darwin me deram orelhas deste tamanho!) escancarei uma porta que era donde vinha a barulheira e dei com um garoto duns sete anos, sentado no assoalho, batendo numa bacia de lata com uma enorme colher de sopa.

Fiz-lhe festinha, dei-lhe cinquenta centavos, um empurrão, um tabefe e joguei a enorme bacia onde decerto a mãe o lavava, para um canto, e saí furibundo vindo para a rua tomar café com leite e com brioches.

À noitinha, subia eu as escadas daqueles cinco andares lôbregos, quando ultrapassei um velhote que resfolegava e ia de degrau em degrau parando. Mas, me voltei, dei boa-noite, indaguei se queria que lhe desse o braço. Agradeceu, rudemente. Subi. Passaram-se os dias. Sempre acordava eu com o Sacre du Printemps na tal bacia de folha.

Mas, isso de vizinhos, acabei amigo do velho e do… filho, embora mais parecesse neto. Em síntese, pai viúvo e, logicamente, filho órfão de mãe, na miséria cruel. O pai trabalhava numa casa de discos no Boulevard Malakoff. Vendia músicas no balcão, punha numa vitrola a rumba ou a sinfonia pedida, metia num envelope o pacotinho de agulhas, mostrava na prateleira as últimas novidades.

Enquanto isso o filho se distraia com a zeladora do prédio, embaixo, ou pelos diversos andares. Todos gostavam do pai e detestavam a criança que era endemoniada, respondona e já com viciozinhos de escrever cousas em paredes…

Só aos domingos saía com o pai. Iam para as Tulherias onde o garoto armava brigas querendo tirar da criançada, patins, barcos à vela, velocípedes, etc.

Uma vez, vindo da Rive Gauché, encontrei o velho a cuja volta o filho, chorando irritantemente, não dava tréguas. Perguntei que era.

— Quer um iate. Veja só. Não um barquinho, lá isso, não. Exige um iate. Ora, já andei ontem a ver os preços… Inacessíveis. De mais a mais estou devendo dois meses de aluguel…

Por delicadeza não fiz nenhum oferecimento, nem mesmo protocolar ou teórico, estuguei o passo e me meti na direção da Avenida da Ópera.

Mas, naquela noite, apesar de ter eu entrado tarde, quem diz que o garoto me deixou dormir. Berrava, goelava, parava, prosseguia: “Eu que-ro um hi-a-te…” Isso da meia noite às três da madrugada.

Dias depois na claridade dum meio dia, indo eu pelo Chatelet, encontrei o velhote e foi então que reparei que tinha um colarinho de clown, imenso no diâmetro, e com o qual abarcava uma espécie de tumor globuloso que se lhe arredondava do queixo até à clavícula. E aquilo bolia, como se fosse um coração fora do lugar suspenso ali e revestido duma pele não de gente mas de galinha.

Saudei, estuguei o passo.

Outra vez, mais de uma semana depois, dei com ele, aí por volta das cinco horas da tarde, subindo para o nosso último andar. Emparelhamos escada acima, vagarosamente. E eu fiquei radiante, na expectativa de ao menos essa noite poder dormir bem, porque o velho levava debaixo do braço um iate em miniatura. Uma cousa perfeita em forma, corte, linhas, passadiço, velas, chaminé, escotilhas e ponte de comando, mas que lhe cabia na mão como um filhote de gaivota.

Elogiei o barco. Ele então me contou que o garoto fazia exatamente naquele dia oito anos. Que devia a estas horas estar no terceiro andar, brincando com a velha Jacqueline, uma florista decrépita que era a única inquilina que o aturava.

Estendeu-me o iate. Peguei, examinei, fiz um elogio sincero e ia devolver quando percebi que o velhote estava sentindo qualquer cousa. Sou poltrão, nisso de saúde alheia. Entreguei-lhe o iate, desandei a subir às pressas, mas logo me arrependi. Não sei se voltei porque me arrependi, ou se voltei para sair rua afora porque já estava ouvindo a barulheira da bacia de lata valentemente surrada pela colher de sopeira. Sim, o garoto não estava no terceiro andar, não, com a velha Jacqueline, e sim, na água-furtada rente à minha, tocando música de Honegger…

E nisto vi o velho, num acesso incrível de falta de ar, de angústia, como que sufocado. Pensei em angina de peito, em epilepsia, no diabo! O velho sentou num degrau e me pôs uns olhos de rês. Estava esquisito, lívido, translúcido, e a sua mão palpava aquele tumor como a querer desbrugá-lo.

Acocorei-me diante dele, perguntei umas cousas, ouvi as palavras ateroma, aneurisma e não sei mais o quê, e fiquei sem saber se descia ao rés do chão à chamar a porteira, ou se levava o velho para cima. Acabei tomando este último alvitre.

Agarrei-o por debaixo dos ombros e dos ilíacos, equilibrei-me como pude, e subí o último andar que ainda faltava. Ele resfolegava. Era como se eu levasse no colo um motor funcionando.

Em cima, abri a porta com o pé e ia depô-lo na cama quando vi o garoto fugir de mim (aliás com razão) pela porta afora.

Pensei em deitar o velho, abrir-lhe o tal colarinho e descer às carreiras para avisar a porteira que tomasse providências que o caso pedia, pois decididamente sou a negação para essas cousas.

Foi então que ele, sentado na cama, com o iate na mão, com os olhos quase para fora das órbitas, denunciando uma aflição indescritível, se debruçou para o chão e ali, sobre a bacia de lata, deu em vomitar sangue. Litros, litros de sangue, como se dentro dele demônios lhe torcessem as artérias, as aurículas, os ventrículos, as vísceras, a alma… O iate lhe caiu da mão e o sangue lhe corria da boca, das narinas e creio que até dos olhos.

Primeiro o iate bateu na borda da bacia, depois encalhou numa posta rubra e borbulhante de coágulo e em seguida soçobrou de proa para baixo naquele mar vermelho…

Ora, não são só vocês que sabem histórias de naufrágios…


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