O ESPÍRITO BURGUÊS

O espírito burguês é um conjunto de princípios eternos, princípios relativos ao mundo — e que se manifestam sempre sob novas formas. Esse espírito não conhece declínio, apenas ascensão, e no auge da civilização européia e universal, atinge a plenitude de seu poder. O rico, escravizado espiritualmente pela prosperidade e dominado pela ambição de escravizar os outros, é um prisioneiro do “mundo”; e é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que uma pessoa assim entrar no reino de Deus. Mas o pobre, por sua vez, ao invejar o homem rico e espiritualmente escravizado por querer usurpar-lhe o lugar e a riqueza, faz-se igualmente burguês e seu ingresso no reino de Deus torna-se tão difícil quanto o dele. Eis, portanto, definida a eterna tragicomédia da história.

O espírito de classe média penetra em todos os grupos sociais, seja como contentamento do indivíduo com sua própria “posição”, acompanhado do desejo de resguardá-la a todo custo, seja como inveja do próximo, acompanhada do desejo de galgar uma boa posição e da vontade de conquistá-la a todo custo. Assim, o palco da história apresenta-nos uma cena tragicômica em que dois burgueses agarram-se mutuamente pelo pescoço, cada um deles imaginando-se defensor de um certo mundo particular oposto ao de seu inimigo. Ora, não é a posição econômica de uma pessoa que determina sua condição existencial como sendo ou não de classe média, mas a atitude espiritual que ela adota perante tal posição. Logo, em todas as classes, a condição existencial burguesa pode ser conquistada, espiritualmente. O processo histórico de criação de uma nação — leis, economia, costumes, idolatria da ciência — rege-se por critérios de classe média; e isso explica o fato de haver, na marcha da história, um quê de desesperança, um elemento de fracasso em todas essas conquistas.

O burguês pode existir em todas as esferas da vida espiritual. É possível ser burguês em matéria de religião, ciência, moral, arte etc. Já falamos da variante religiosa desse tipo humano, cuja imagem está representada nas sagradas escrituras. Em todas as esferas, o que o caracteriza é o desejo de parecer e a incapacidade de ser. Subsiste, não pela pujança ontológica de sua própria personalidade, mas apoiando-se na força vital ilusória e evanescente daquele ambiente espiritual estagnante em que ocupa (ou deseja ocupar) uma “posição”. Quando se manifesta na figura de um cientista ou acadêmico, é presunçoso, pedante e limitado; amolda a ciência à sua própria mediocridade, temendo a atividade criativa do pensamento e a liberdade do espírito questionador, e ignorando o conhecimento intuitivo. Já o moralista burguês, este é um juiz severo. Sua excelência moral é um critério implacável com que condena todas as pessoas. Ele odeia os pecadores e publicanos, é o guardião da moral do próximo. Mas o burguês comum é sempre moralista em certa medida. Seu moralismo assume diversas formas possíveis, que vão desde o conservadorismo mais profundo até o mais destrutivo espírito revolucionário, e pode provocar a repentina cristalização da vida e a suspensão de todo e qualquer movimento, ou mesmo a destruição total do mundo com todo o seu legado histórico. O burguês, então, pode ser tanto um ultra-conservador quanto um revolucionário radical. Em ambos os casos, porém, está acorrentado ao mundo visível e não sabe o que é liberdade espiritual. Seu moralismo é imune à graça. Procede de uma fonte externa e é surdo para a música das esferas celestiais. Enquanto faz do mundo um inferno, o burguês se apresenta como arquiteto de um futuro paraíso terrestre. A própria idéia de racionalização da vida, de harmonia social absoluta, é uma noção burguesa a que se deve contrapor a imagem do “homem do submundo”, do “cavalheiro de fisionomia retrógrada e zombeteira”.* Foi o burguês quem construiu a Torre de Babel. O espírito do socialismo é, por excelência, de classe média. O desejo excessivo de viver escraviza o homem aos bens terrenos. Por isso, superar o espírito burguês significa vencer os excessos da vontade que se volta para “o mundo”. Tudo que o burguês toca — a família, o Estado, a moral, a religião, a ciência — perde a força vital. Quanto à contemplação, que poderia libertá-lo, ele a desconhece. O paradoxo de sua vida está no fato de ele repudiar a tragédia. Sua incapacidade de aceitar a tragédia interna da vida, do Calvário, oprime-o e ensombra-o. Há um sentimento de alívio e liberdade que advém da aceitação da cruz, com toda a dor e todo o sofrimento decorrentes. Por ter uma consciência tão debilitada da culpa e do pecado, o burguês é o escravo do “mundo”, e seus ideais são o poder terreno e a riqueza material. O mistério do Gólgota revela-se-lhe inaceitável. O espírito burguês é, pura e simplesmente, a rejeição do Cristo crucificado. Mesmo aqueles cujos lábios o confessam provavelmente seriam os primeiros a crucificá-lo outra vez.

* Referência a Notas do subsolo, ou Notas do submundo (título com que a obra foi traduzida em Portugal), de Fiódor Dostoiévski. [N. do T.]


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