O valor dominante - João Camilo de Oliveira Torres

O Elogio do Conservadorismo e eutros escritos, pág. 311–314

Toda situação histórica é dominada por um valor principal, que constitui o motivo principal da ação humana, a causa final dos atos da maioria dos homens. Naturalmente há valores dominantes para situações e para conjuntos de situações, como para culturas inteiras. Este valor dominante reflete-se em todas as atividades humanas, criando uma verdadeira identidade de manifestações, isto que normalmente chamamos de “estilo” de uma época, e a que Spengler dedicou análises por vezes justíssimas. Certamente não constitui o estilo a forma do valor dominante, mas, sim, a maneira pela qual ele se reflete nas diferentes manifestações humanas. Assim, para citarmos um caso muito conhecido, o mais conhecido de todos, o da Idade Média, sentimos que o valor dominante, a aspiração à transcendência, reflete-se por toda parte, principalmente sob a forma de um sentido ascensional da vida e da organização social. A arte gótica, a poesia de Dante, a escolástica, a hierarquia feudal, tudo, enfim, revelava a mesma tônica: o homem à procura de Deus. Era a cultura medieval uma réplica do livro de São Boaventura: Itinerarium Mente ad Deum.* O mesmo se verifica em todas as épocas, tanto assim que podemos definir a historia de qualquer época, com uma palavra, que designa o valor dominante.

O que primeiramente assinala o valor dominante é a sua onipresença: não há aspecto da cultura que ele não atinja, dentro de certas limitações que veremos em seguida, e, naturalmente, com as variações de ordem particular, a realizarem o fenômeno da “heresia”.

Em segundo lugar, o valor dominante acha-se oculto aos contemporâneos — daí ser impossível a historia do tempo presente. Podemos, graças a um penoso esforço de objetivação de nossa própria situação, tentar a fixação do valor dominante de nosso tempo. Mas, podemos errar fragorosamente.

Inconsciente, embora, o valor dominante apresenta-se aos contemporâneos através de suas manifestações concretas. E, principalmente, pode ser considerado, e visto, através do que consideramos “moderno”. O conceito de “modernidade”, tão bem estudado por Alceu Amoroso Lima, refere-se ao valor dominante. Consideramos “moderno”, e que pertence ao valor dominante, o que reflete a sua côr e a sua tônica. Assim, no século XIX — o valor dominante foi o da Liberdade. Certamente todos consideravam a Liberdade um valor eminente — mas, nem todos cuidavam que, em todos os casos, estavam afirmando a liberdade do individuo, mesmo quando, talvez, a estivessem negando. Um exemplo concreto: a Religião da Humanidade, de Augusto Comte; das criações do século, a menos individualista por admitir um ser coletivo, um “Grão-Ser”, secularização da doutrina católica do Corpo Místico de Cristo. Mas, a própria religião de Augusto Comte pressupunha, no fundo, uma visão individualista do mundo, pois, negando uma revelação — fundava-se na “Fé demonstrada” — fazia, de qualquer modo, o individuo a realidade mais alta. Certamente, a Humanidade, o Grão-Ser, era quantitativamente, mais do que os indivíduos componentes. Mas, sê-lo-ia mais, qualitativamente? Todos nós possuímos a natureza humana, participamos da essência humana. A Humanidade reduzida a um só individuo, este a conteria toda — é esta a razão filosófica da doutrina do Pecado Original: foi um pecado de toda a Humanidade, embora fosse esta apenas um homem. E isto atingiu a natureza humana. E, seja lá como for, se sou uma parte da divindade, participo, indiscutivelmente, da divindade. Membro do Deus, sou Deus. E novamente, o homem escutava a voz da Serpente: “Erit sicut dii”… E, pois, não poderia haver maior afirmação do individualismo, nenhuma formula mais afirmativamente liberal do que reconhecer em cada homem uma parcela da divindade…

No estudo do principio do valor dominante (que pode ser de uma situação, de uma época, de um conjunto histórico e de toda uma civilização) convém recordar que pode haver o valor dominante geral da situação — aquele princípio que envolve todas as manifestações da cultura (o valor da Liberdade, no mundo do liberalismo, conforme o exemplo citado), como também valores dominantes especiais, para determinados conjuntos particulares. Pode ocorrer que, numa dada situação, haja contradição real, ou aparente, entre o valor dominante genérico e o especial. Isto pode ver-se no exemplo do mundo do liberalismo — um dos paradoxos do liberalismo provém do fato de que a metafísica liberal negava a liberdade do homem, a quem quase todas as doutrinas filosóficas geradas no século XVIII recusavam o livre-arbítrio. Se o homem, ontologicamente, não era livre, como poderia sê-lo, politicamente? Na realidade, o paradoxo nascia de um conceito particular de liberdade, que era o de liberalismo — antes uma atitude de autonomia do individuo em face de Deus, do que, realmente, de uma autonomia especifica do ser humano como tal. O homem não estava sujeito a Deus, mas, sim, às forças da natureza.

Mas, nem todos os homens seguem os valores dominantes. Uma das maneiras clássicas de negação do valor dominante é a heresia, no sentido genérico da expressão. O herege é o homem que segue verdades em oposição ao valor dominante. Do ponto de vista da verdade como tal, pode ocorrer, e tem ocorrido, que o herege tenha razão sobre seus contemporâneos, como acontece, também, de ser um herege, materialmente falando, um defensor do erro. Comumente, o valor dominante e o valor herético representam aspectos parciais da verdade. Os homens costumam, habitualmente, defender extremisticamente uma parcela da verdade e deixar a outra abandonada.

Há muitas maneiras pelas quais um herege recusa o valor dominante. Podemos destacar três: a heresia fundada no extremismo, ou heresia no sentido literal da palavra, trata-se do caso clássico do dissidente que adota uma visão peculiar do valor dominante, recusando ver “todos os lados da questão”, como temos exemplos clássicos nas doutrinas monofisitas — ou o Cristo era Deus unicamente, ou homem, apenas — ; outra modalidade é a do “saudosista”, aquele que defende o valor da situação anterior, fato muito comum; a terceira forma de heresia, é a do “futurista”, que adota valores que acredita serem os valores da situação futura. O herege, nestes três sentidos que indicamos aqui, realiza um trabalho útil (afinal, as heresias são convenientes) pois permite uma decantação do valor dominante, seja num sentido ou noutro. A experiência da Igreja Católica nesse particular é altamente elucidativa — cada heresia considerada oportunidade para um aperfeiçoamento e melhoria da Teologia. Igualmente o saudosista, analisando a situação antiga, pode, por sua vez, focalizar aspectos novos e construir soluções novas — a Historia sempre alimentou reformas. E, obviamente, o futurista, por sua própria natureza é o homem que lança sementes de transformações.

A oposição ao valor dominante (quase sempre parcial e limitado) exige, habitualmente, a contribuição do pensador independente, que, desligado de outros compromissos além dos que o subordinem à verdade, criam o clima para a meditação solitária, geralmente angustiada, necessária, porém, à renovação da sociedade. O mundo moderno, aliás, está necessitado de focalizar a posição do pensador independente, que será menos o homem sem compromisso do que o homem sem funções diretamente ligados à profissão de pensar. Certamente ele não está desvinculado da cidade e nem isento de subordinação e dos deveres de lealdade. Mas, na realidade, ele pensa em seu canto, mesmo que, assim fazendo, defenda Deus e o Rei.

_____________

* São Boaventura, em sua obra filosófico-teológico-mística, O Itinerário da Mente para Deus, diz: “Todas as criaturas deste mundo sensível levam para o Deus eterno a alma do filósofo e a do contemplativo.” (Itinerarium, I, 2). Como filósofo e teólogo, Boaventura descobre os traços de Deus, tanto no plano da natureza, como nos domínios da cultura. Teve o mérito de complementar e enriquecer a visão franciscana do mundo, restaurando a valorização religiosa da realidade integral, quer proceda diretamente da mão do Criador, quer indiretamente, através da criatividade humana.

Like what you read? Give Arcádia Editora a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.