33 e morrendo sem morrer

Desde que me entendo por gente tenho sido uma pessoa do mundo das ideias, alguém que sempre sofreu de hipertrofia mental. O pensamento gratuito sempre foi minha principal ocupação; se em outros tempos, talvez um filósofo fosse — e não teria feito a menor diferença, pois filósofos nunca tiveram qualquer utilidade para a vida prática.

E eis que após 33 anos respirando sobre a superfície deste planeta, cujo propósito de existência desisti de encontrar, dou-me por completamente exaurido de tal modo existencial; ser uma pessoa das ideias terminou por gastar-me até a última das rugas de minha bolsa escrotal sem me render nada. Na idade mítica do Cristo crucificado e morto, coincidentemente experimento algo similar, e dia após dia esforço-me em depositar mais uma pá de terra sobre os resíduos de quem fui um dia, e que nenhuma satisfação pode mais me proporcionar já há algum tempo. Por favor, esqueçam quem eu fui; daquele que um dia conheceram, guardem só o nome e os cabelos cor de fogo — aquele já não é. Suas ideias não interessam mais, nem mais a este que vos fala, recém nascido — ou melhor, nascendo. Esqueçam, esqueçam, esqueçam. Apenas esqueçam. Suas crenças, ideias e aspirações, hoje contabilizadas, não me renderam um mísero grão de conforto ou de orgulho mas, pelo contrário, somaram fracassos que transpiram o cansaço de um longo caminho tomado por engano, e nestes casos a saída de retorno torna-se ainda mais distante e desanimadora.

Deste momento em diante quero ser tudo aquilo que não fui, tudo aquilo para o qual as circunstâncias jamais concorreram para que eu fosse; deste momento em diante deliberadamente mato o destino para o qual todos os sinais apontavam, mas com o qual meu coração só pôde encontrar desgosto e frustração. Deste momento em diante eu destruo o mito que dirigiu os meus passos e moldou meu caráter nesses 33 anos, abrindo meus caminhos para todos os contrários de quem eu fui um dia.

Alea jacta est.