Branded discontent
ou Tudo aqui é clichê
Jota era aquele tipo: calça skinny, cabelo ensebado colado na testa, long de heineken numa mão e um marlboro na outra; pra completar, a camiseta de alguma banda que jamais curtira mas que já era cool pra caralho no rolezinho jovem-adulto-pop-descolado-de-agência-de-comunicação: Ramones ou Motörhead, tanto faz, ele não era mesmo muito bom em distingui-las.
Eu era um moleque cabaço e completamente deslocado naquele ambiente de agência, totalmente estrangeiro pra mim, tanto quanto eu para eles. Gordinho criado na base de nesquik, mega-drive e muito RPG, sabia de cor e salteado tudo sobre jornada do heroi, druidas, dragões e demais gordices de condomínio. Amigo de colégio do meu irmão, Jota viu alguma utilidade no meu conhecimento inútil, e de repente eu tinha um emprego.
Naquela noite Jota comemorava um desses prêmios que publicitários dão a publicitários naquele esquema cachorrada-se-reconhecendo-domingo-no-parque. Cervejinha, cigarrinho, vai-e-vem animado no banheiro, mais um drinquezinho, UHULLL! I’m so proud of me myself and I! Yes, I can! [em inglês, claro, porque estamos no Brasil].
Egos inflados voavam baixo, batiam no teto e seguiam abastecidos por doses heroicas de Jack Daniel’s que amorteciam a descida do giz amargo, santo sacramento dos lobos da Vila Olímpia. Forasteiro, eu assistia a tudo suspenso numa dimensão alheia a todo aquele espetáculo demasiadamente ~rebelde~ pra mim.
Lobos midiáticos com o lobo pré-frontal consumido pela rainha branca dos sacerdotes do consumo sem noção do ridículo. Snowblind, era como Jota chamava a si próprio naquele tom misto de cinismo, orgulho e autodepreciação programada, e numa de suas melhores referências — o petardo do Black Sabbath; sempre à frente dos demais, já era hipster quando os hipsters ainda eram straight edge.
Jota dançava, pulava e urrava como um símio no cio; esbanjou talento entoando canções bregas no karaokê, de cantores que nem gostava — mas curtir um brega já era cool pra caralho.
Apesar de toda a excitação e euforia, no subsolo de si mesmo, numa camada aquém de toda aquela alegria compulsória que só o dinheiro pode comprar, restava uma lacuna impreenchível, um vácuo úmido e frio como uma galeria de esgoto abandonada por uma obra inacabada da Sabesp.

Mas o vazio o frio e o úmido apontavam para a existência de um motor afetivo moribundo, subnutrido e atrofiado, mas que de alguma forma ainda respirava sob os escombros daquela vida de consumo artificial. Insuportável, Jota decidiu combatê-lo.
Impelido pela inequívoca e incômoda percepção do vazio, pegou mais um pino com o barman pra dar um boost no delírio maníaco de Super-homem e sem pestanejar correu direto pro banheiro. — Que mané porra de deprê agora é o caralho, hoje é o meu dia, O MEU DIA!
Impávido colosso, virou todo o conteúdo de uma só vez sobre a pequena tabuleta estrategicamente instalada na quina da parede e, num fôlego, inspirou-se numa carreira brilhante.
Já passava mais de hora quando deram por sua falta. Pergunta pra um, pra outro, ninguém sabe, ninguém viu. Pelo segurança não passou, o carro continua ali. Desapareceu sem deixar rastro, evaporou.
Sobre a tabuleta do banheiro, apenas um testamento involuntário subliminar na forma de clichê arquetípico, de sarcástica homenagem à vilipendiada deusa da vitória, na forma de jota.
