Uma dose de magia na próxima esquina

Fim de feriado e eu à toa em casa, resolvo dar uma banda pelas ruas ainda desconhecidas do bairro onde moro há 1 ano.

Errando sem destino ora à esquerda, ora à direita, no mais puro espírito ‘explorador urbano’ — prática que amo e que me acompanha desde o primeiro dia em que saí sozinho em minha vida — eis que dou numa região cheia de prédios com varanda gurmê, porém silenciosa, arborizada e até agradável.

Para minha surpresa, no meio de uma quadra pouco iluminada e tranquila e entre os prédios medonhos, duas casas geminadas largas dos anos 50 que à primeira vista julguei ser um predinho de dois pavimentos, com um considerável jardim frontal cheio de plantas que ocultava a fachada sob uma selvagem franja verde; o portãozinho baixo aberto e, sentados em dois banquinhos na calçada, um homem grisalho e um garoto de uns 10 anos, negros, tocavam, cada um com seu violão de nylon e com uma energia incrível, ‘Expresso 2222’.

Sem escolha e hipnotizado pela energia que aqueles dois seres encantados emanavam, parei e fiquei assistindo até o fim da execução, ao término da qual aplaudi e agradeci pela dose free de magia com a qual fui presenteado pelo acaso.

A magia é assim, transita por aí disfarçada, diluída nos eventos mais simples e inesperados que nos pegam quando estamos entregues ao fluxo do momento e distraídos do mundo, porém atentos à pulsação perene de nosso universo interior, apenas flanando na imaginação.

Fiz o resto do trajeto de volta pra casa com a nítida sensação de ter cruzado um portal entre mundos, de ter dado um passeio em outra dimensão.

Cheguei em casa leve, feliz e com os olhos cheios de folhas de bananeira.