No bico da cegonha: resenha

O que a adoção internacional pode nos ensinar quanto à adoção nacional?

Domingos Abreu reúne diferentes cenários e fontes neste livro que trata das ‘histórias de adoção e da adoção internacional no Brasil’. A partir do encontro informal com franceses que haviam adotado crianças brasileiras, o autor tece as bases do que viria a ser sua pesquisa [ * ]. Esse trabalho pauta-se em entrevistas com famílias adotivas francesas, genitoras brasileiras, juristas e também com os intermediários, aqueles que faziam chegar aos interessados na adoção as crianças, sobretudo em um período prévio ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Abreu incorpora igualmente em sua pesquisa a mídia e o modo como ela representa e produz discursos sobre a adoção.

O livro nos mostra o percurso da adoção internacional, tal como refletida na opinião pública brasileira: de saída generosa a uma população necessitada à suspeita generalizada de que poderia incluir riscos relativos ao tráfico de órgãos. Desenhado o cenário, Abreu nos faz mergulhar nos mecanismos que fazem funcionar a adoção internacional e as interrogações que ali podem ser vistas: como ela funciona? Como a adoção nacional e a internacional relacionam-se? O que busca o requerente na adoção internacional? Existem demandas diferentes entre adoção nacional e internacional? O que representa a criança adotada para a família adotiva e para a família de origem?

O tema da circulação de crianças, como explorado por Claudia Fonseca, é abordado também por Abreu, reiterando que se trata de prática que envolve, principalmente, o movimento de criança entre ascendentes e colaterais. Ele assinala igualmente que, no período estudado, o apelo à adoção internacional envolvia, por vezes, contornar previsões legais. Do mesmo modo, a adoção nacional também, por vezes, envolveria o contorno da lei, com a ‘adoção à brasileira’, por exemplo, que é o registro de criança como se ela tivesse sido gerada por aquele/s que demandam o reconhecimento civil da filiação.

Os intermediários, personagens de suma importância na narrativa tecida por Abreu, aparecem em seu texto com o nome pelo qual eram conhecidos: cegonhas. Tratava-se de mulheres, geralmente de classe média, que intermediavam a criança entre a família natural e a substituta. Se o estatuto caritativo era comum para designar essas personagens, nem por isso deixava de haver em alguns casos dinheiro envolvido, mesmo que sob a denominação de auxílio a obras de caridade. A ampliação dessa rede de cegonhas e a inclusão nela dos advogados e os efeitos que daí advêm, também são alvo da análise de Abreu.

A pesquisa não identifica mais ilegalidade na adoção internacional do que seria passível de encontrar na adoção nacional. Todavia, à adoção internacional aderiu-se a ideia de compra e venda de crianças, o que teria colaborado para a aversão que passaria a caracterizá-la. Por fim, o advento do próprio Estatuto da Criança e do Adolescente, ao estabelecer firme preferência pela manutenção da criança junto à família de origem e, em casos excepcionais, tendo a adoção nacional como primeira escolha, acabaria por colocar a adoção internacional em segundo plano.


Abreu mostra como a adoção internacional tem o seu boom a partir dos anos 1970, particularmente centrada na Europa, no rastro das guerras de Biafra e do Vietnã. Logo, ela seria marcada nesse momento como a representação de um gesto humanitário que, no entanto, revelava também outras faces. A adoção mostrava desde ali os conflitos sociais que encerra, entre as possibilidades de tráfico de pessoas e a de encontrar uma nova família para quem dela necessitasse.

Um aspecto importante do livro é o de apontar os pontos de contato entre a adoção nacional e a internacional no que tange aos movimentos de oferta e demanda de crianças ‘adotáveis’. Abreu mostra que, em princípio, brasileiros e franceses teriam a expectativa de um perfil muito semelhante de criança a ser adotada. No entanto, o estado brasileiro e o francês aparecem de modo diferente para os respectivos requerentes quanto ao seu lugar na adoção. O Brasil será diferente também para o requerente estrangeiro que, particularmente a partir do ECA, não terá acesso ao mesmo universo de crianças que os nacionais. Desse modo, instaura-se, pela quebra da oferta, modificações substanciais no campo da demanda. Essas mudanças são consolidadas com base em outros vetores, como, por exemplo, a possibilidade mais ampla de se dispor de recursos acessíveis de saúde, o que contribuiria para que, dentro de certa margem, crianças não adotadas no Brasil encontrassem seu destino assegurado no exterior.


Abreu, D. (2002). No bico da cegonha. Recuperado de http://bit.ly/29y2D7U

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