Ensaio sobre querer ser

Ser muito sempre foi um monstro: um monstro grande, espaçoso e assustadoramente persistente. O muito é um incômodo artístico e encantador, que enche de pavor qualquer um que carregue uma energia puramente sentimental. O querer ser muito regula toda a sua vida, todas as suas atitudes, e mora na linha sutil que divide um sonho de um pesadelo. É uma vontade feita de antíteses, são contradições que constroem uma alma instável: ela tem ânimo delicado, uma ânsia incontrolável e uma aflição perturbadora. Seus movimentos refletem isso, ansiosos e cansados, ao mesmo tempo. Sua cabeça não tem descanso, e seus olhos são as janelas que mostram a desordem lá de dentro; são escuros, quase pretos.

Mesmo assim, a paixão pelo muito, pelo tudo e pelo mundo fazem seus pés flutuarem, eles pisam em nuvem. Esse desejo de ser muito é consequência do amar, apreciar e sentir muito, do querer tocar e experimentar muito. É um tipo de sensibilidade infinita, e se comporta como uma lente que torna tudo mais nítido, mais simples. É um mosaico que decodifica a complexidade das coisas, e a paixão pelos detalhes que vê gera o querer ser.

Se existe muito, ela quer ser muito. Se existe tudo, ela quer ser tudo.

[They] once
blamed me
for praying
this word:
I want
— Sappho, from The Complete Poems of Sappho tr. Willis Barnstone.

*Sempre gostei da palavra “ensaio” antes das coisas, dá um ar de seriedade né.