19/04/16

Aparentemente o caos voltou pra minha vida e com ele alguns problemas que não saem da mente na hora de dormir e acordam comigo, destruindo meu vazio cotidiano. A primeira merda de vida adulta já aconteceu comigo mesmo eu tendo apenas 18 anos e acho que tudo vai piorar ainda. É por essa e outras razões que quero passar fora e morar longe da minha família, isso não me faz bem. Preciso aprender a viver, amadurecer, me virar. Posso ser mal agradecido, mas é inegável que minha família é uma ruína pós-guerra. Brigas e separações de todos os lados, saídas e mudanças de outros. Me apetece falecer.

No fim de semana (não lembro se era sábado ou domingo porque não faço nada da vida, não tenho compromissos ou utilidade) eu estava tranquilamente jogando Rocket League de tarde quando minha mãe abre a porta do meu quarto e diz “Tem alguém querendo falar com você”. Eu não entendi de primeira pois estava com o headset falando com meus amigos, soltei um “QUE?” e ela respondeu, já no corredor, “tem alguém querendo falar com você no portão”. Mas piorou, aí que não entendi caralha nenhuma mesmo. De quebra achei que era algum amigo meu me zoando ou algum otário qualquer. Fui lá atender e era uma caminhonete com quase a PORRA DA MINHA FAMÍLIA INTEIRA. Meu tio dirigindo, minha tia do lado, atrás uma outra tia (brigada com minha mãe, explicarei mais pra frente) e minha avó. Me explicaram que iam me levar pra pegar meu carro ou algo assim, e eu com uma expressão facial de “por quê?”. Como eu estava mal vestido, com roupa de ficar em casa (porque eu não sabia que eles iam chegar de surpresa), pedi que esperassem. Coloquei uma camisa mais nova e uma bermuda que não mostrasse o pau, como a que eu estava vestindo. Me troquei, subi na caminhonete e fomos até a casa do meu tio, onde estava guardado o carro.

Antes de continuar o relato, vou explicar imendando coisas de um pretérito mais que perfeito. Depois que meu avô morreu, minha avó vendeu o carro deles e comprou um novo pra ela, um Ford KA sem nada (duas portas, sem rádio, sem ar, manual, tudo default). Como eu era o neto mais próximo dela e o mais perto de fazer 18 anos, ela disse que quando ‘morresse’, o carro seria meu. No começo ninguém deu a mínima, eu só tinha uns 12 anos, até me deixou escolher a cor do carro. Escolhi vermelho, pois na minha mente adolescente achava legal e diferente, puta bosta. Anos e anos depois deu a primeira merda: partes da família começaram a discutir e discordar que o carro seria meu (não acho que estavam errados, eles têm razão. Seria muito fácil a vida de um moleque ganhar carro sem luta, sem ter trabalhado, o errado é que eles queriam o carro pra eles). Foi aí que minha mãe, carregada de mágoas passadas, brigou com minha tia e a família meio que se separou. Eu não fui culpado de nada porque era só um adolescente, eu nunca tinha pedido o carro pra mim. E ficaram anos brigadas, não podiam nem se encontrar. Eu acho que é babaquice e orgulho da minha mãe porque ela sempre fez isso e ainda faz com o meu pai, mas não tenho certeza, não vivi na época em que se relacionavam, não sei das coisas que aconteciam. Ao tempo passando, a família foi se resolvendo sobre essa questão do carro (mas minha mãe e tia ainda brigadas por outros motivos que eu nunca soube). Minha avó envelheceu demais e mal consegue pegar o carro, aí chegamos em 2016, ano que tirei a carta e a família apoiou, falsamente, eu ganhar o carro. Porque família é isso aí, falsidade, a palavra que define a continuação da história.

O carro tava na casa do meu tio porque um outro tio meu ficou desempregado e não tinha mais como pagar o aluguel de sua casa. Não tendo pra onde ir, minha avó ‘deu’ a casa dela pra eles, perdendo a garagem, agora lotada com os carros do meu tio que foi morar lá. Minha avó foi morar com minha tia brigada com minha mãe, também sem espaço na garagem, e teve que deixar o carro na casa do meu tio. Chegando lá entrei no KA que nunca tinha dirigido antes, com toda inexperiência de um recém formado motorista de categoria B, tirei da garagem com um desastre do caralho e parei na rua. Me deram a opção de ir pra minha casa com o carro ou ir tomar café com a família na antiga casa da minha avó. Falei, erroneamente, que iria tomar café com eles. Minha tia (não a brigada com minha mãe) perguntou se precisava que alguém fosse comigo, falei que sim. Porra, eu recém peguei a carteira, ainda não me acostumei, preciso ir com alguém. Fui com essa tia chata pra caralho (não sei como meu tio casou com essa porra, ele é super super gente boa), afoguei pra caralho e ela soltou uma frase com o sorriso e intenção mais falsos do mundo “não fique nervoso só porque eu estou aqui”. Vagabunda, não é culpa sua não, é que eu NUNCA PEGUEI AQUELE CARRO, NÃO TENHO NOÇÃO DA EMBREAGEM AINDA. Saindo do bairro nada mais fez sentido no mundo. Eu quase bati na porra de uma limousine em plena PEDERNEIRAS. Não tem nada mais aleatório do que isso, eu quase bati numa limousine que não sei porque caralhos estava nessa merda de cidade do interior. Fomos indo para o centro e passei um pare porque não tinha visto. Minha tia entrou em choque começou a gritar achando que eu ia bater na porra do carro. Meu deus do céu, era só um pare, o outro carro estava super devagar, não aconteceu porra nenhuma e essa maldita ficou traumatizada. Chegando na casa da minha avó ela esperou eu sair de perto e espalhou pra todo mundo A INFRAÇÃO, O CRIME DE TRÂNSITO que eu tinha feito. “Vocês não podem deixar esse menino dirigir sozinho! Ele fez um absurdo!”. Que vontade de mandar tomar no cu, é Pederneiras sua maluca, não tem movimento, ainda menos naquela ruazinha. Entramos na casa e sentei com meus tios porque não aguentava mais nenhuma dose de paranóia feminina naquele dia. Conversaram sobre carros, São Paulo, viagens, trabalho, etc, e eu lá boiando. Queria ir embora, era 5 horas da tarde e eu nem sei tinha almoçado, tava puto e a família me parabenizando falsamente por causa do carro.

Indo embora, minha tia trancou a casa com as chaves dentro. Sobrou pra mim, o “menino que subia nas coisas” pular o muro e abrir. Fui dirigindo até lá e pulei a porra do muro, passando uma vergonha do caralho. Antes de pular, dei a carteira pra minha avó pra eu ter mais ergonomia na hora de subir. Fui embora e esqueci a porra da carteira lá. Em casa, falei pro meu padrasto ir comigo porque eu sou inexperiente e estava sem lente no olho. Fomos voltando pra lá e meu padrasto me diz:

— Quais suas intenções com o carro? Vai ficar com ele?

— Acho que sim, eu quero…

— Já tem noção de preço? Como vai pagar?

— …

Meu padrasto é tenso. Com duas frases ele consegue me dar uma porrada que dura vários dias e noites mal dormidas. Ele disse isso porque minha mãe não quer o carro. Segundo eles, não tem onde colocar e claro que não querem pagar o seguro de um filho que mal interage com eles. Mas porra, eu tirei carta pra quê então? Não quero dirigir seu carro automático para burras que não sabem dirigir. Minha mãe até queria fazer uma outra garagem em casa pra guardar o carro. “Ah, tava muito caro, não vai ter garagem”. Porra, usa o dinheiro que ia gastar na garagem e paga o seguro. Eu até escolhi a cor daquele carro. Agora eles querem vender pra colocar na poupança e pagar minha moradia fora com o dinheiro do carro. Super ético e exemplar, meus parabéns à essa instituição pura, a família. Cheguei em casa e esqueci o farol ligado com as chaves dentro no KA na frente do meu padrasto, que se decepcionou irritadamente na hora.

E foi assim meu fim de semana. No meio do café da tarde fingindo estar feliz com o presente do carro mas sabendo dos problemas financeiros e de relacionamento em casa que aquilo ia gerar. Nunca foi tão triste ganhar um carro.

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