O valor a se pagar quando produzimos arte.

É de senso comum ouvirmos opiniões confusas a par da personalidade dos artistas, sua visão do mundo e sua conduta social, sendo vista como deslocada das outras pessoas.
É comum também, disseminarmos a ideia de alegria como objetivo primordial da vida e que quanto mais parecermos felizes, mais nossas vidas serão valorosas, incríveis e invejáveis. Pintamos nossa imagem da melhor forma ao mundo e nem sempre — na verdade, na maioria dos casos — ela é real.
Este texto não se trata de uma crítica ao pensamento social contemporâneo, mas sim a uma pequena reflexão de como a arte sempre influenciou a humanidade em sua exteriorização de sentimentos e como isso reflete e impacta o nosso meio de convívio.
Nós seres humanos possuidores da racionalidade vivemos eternos conflitos internos e quando a pauta é sentimental nos tornamos ainda mais propícios a entrar em monólogos intermináveis, gerando crises existenciais dada a insatisfação pelo mundo em que habitamos.
O artista é ferida aberta desse mundo e o que produz, é basicamente, seu sangue escorrendo. É a vil insatisfação com o meio social, seja ele o trabalho, local de estudo ou lar. Simplesmente não enquadram sua frequência aos que estão a sua volta, e isso não acontece por prepotência ou complexo de superioridade, é porque não diminuem as angústias para enquadrar-se em aspectos supérfluos de felicidade e simpatia que soa apática.
Carregam um fardo gigante nos ombros: eles sofrem. O artista está fadado a sofrer desde que descobre que a arte é sua única maneira de aliviar-se.
São conversores.
Tomam para si a tristeza do mundo, devolvem a ele significantes exteriorizações expressivas, seja ela como dança, pinturas ou esculturas, temos vastas linguagens.
E detalhe: eles agradecem.
O artista funciona nessa dialética.
Pois ele sabe que não seria nada sem o que sente, e tenta de toda maneira aliviar àquilo.
O que todas as pessoas chamam de sensibilidade, eles veem apenas como sentir de maneira plena. Sua criação é um parto, eles dão uma vida brilhante utilizando como principal subsídio o seu caos pessoal.
Ignoram este dito de frieza, não os coube moldar-se a padrões de afastamento emocional, infelizmente — ou felizmente — eles são o genuíno sentir. Sua frequência estranha é um reflexo da curiosidade que tem com o mundo, nunca perdendo os olhos da criança, porém sentindo as dores da idade adulta.
E quem olha o resultado final de suas obras não imagina suas estrururas balanceadas, seus regressos a traumas e suas mexidas em feridas que deviam já ter cicatrizado.
O mais medíocre acontecimento lhe desperta as mais intensas emoções. Porque o artista, mais do que ninguém, vê o mundo através da película social, vê as pessoas através do sorriso falso para os flashs. Porque ele se permite.
Permite ser mundo e sentir junto a ele.
