José Marginal

Dezessete anos. Pai. Segundo “casamento”, aspas porque casar é morar junto. — Fumo desde os doze, professora, é pra desestressar! — Na escola é o primeiro a concluir o exercício, diz que precisa ter um futuro melhor, dar um futuro pro filho que já tem um ano. É o primeiro a concluir o exercício — de pintar — método altamente condenável, mas mais condenável é o futuro desse José, mais um José entre tantos, porque o colega da mesa ao lado, o único da sala com lápis de cor na bolsa, os carrega numa sacola de supermercado e cora o rosto quando os amigos veem as alças da mesma, escapando a mochila rasgada, as enfia de volta rápido e disfarça inventando apelidos pros amigos. Os olhos de José enchendo de lágrimas porque parece não ter com quem falar sobre a vida, sobre os problemas, sobre a sina. Sina que está fadado a cumprir, sem perspectiva, sem auxílio, vítima da periferia social. José é só mais um José, prisioneiro da exclusão, prisioneiro do sistema educacional, que o ensina a pintar aos dezessete anos e que, se não desistir, provavelmente aos dezoito vai continuar nos desenhos — não como arte, mas sim como imposição — enquanto seu filho começa a fazer o mesmo com os lápis de cor. Os olhos tristes, o cigarro na mão, mas José é só mais um José — não tem jeito, não aprende, só vem pra escola pra comer — José é negro, e sabe o peso que sua cor tem, o trabalho ruim, o salário que mal dá pra sustentar a família desestruturada se formando, mas é assim porque José é só mais um José, José é um ninguém, e ninguém está disposto a lutar por ele. José tem o mundo nos olhos, mas seus olhos mal conseguem enxergar o mundo.