Igualdade de Gênero: O Xodó do Capitalismo

Polêmica com a famosa lanchonete de Belo Horizonte é mais um exemplo da luta vazia do movimento que tem se passado por feminismo: a igualdade simbólica nas condições de consumo.

As reuniões organizativas e os atos andam esvaziados, mas a arena da indignação na internet ainda permanece cheia. O que irritou os ativistas de sofá nessa semana foi o anúncio de um rodízio de milk shake no Xodó — aquele lugarzinho em que todo mundo que frequenta a Praça da Liberdade vai fazer xixi, e que também vende sanduíches.

A polêmica ficou por conta dos preços: R$ 17,99 para mulheres, R$ 21,99 para homens e R$ 36 para o casal. Até aí, tudo mais ou menos bem, a julgar pela enorme quantidade de rodízios de qualquer outra coisa que têm a mesma prática e não tiveram toda essa atenção. Mas o Xodó, prevendo a bagunça que isso podia virar, colocou um critério para definir quem paga quanto: o documento civil.

Veja bem, o estabelecimento não fez menção a sexo biológico em nenhum momento, e ainda falou em “gênero”. Tampouco já havia sido denunciado por não respeitar a forma como nenhuma pessoa prefere ser tratada em relação a acesso aos banheiros, que são outro ponto sensível que frequentemente causa indignação. Todo o problema aqui foi que o Xodó estabeleceu um critério. Que não por acaso é o mesmo critério cuja importância o movimento reconhece, e pelo qual luta.

Por um lado, o movimento trans (e o LGBT e a maioria do feminista) defende que seja possível alterar os documentos de registro para ficarem em conformidade com os estereótipos que a pessoa resolve adotar para si — a chamada “identidade de gênero” — passando ou não por procedimentos cosméticos como cirurgia genital, cirurgias faciais, cirurgias no peito, aplicação de hormônios, depilação, fazer a barba e etc. Por outro, esse mesmo movimento luta para que os documentos não sejam necessários para que a construção identitária da pessoa seja reconhecida. São duas lutas distintas, e seria coerente que o movimento escolhesse uma das vias. Afinal de contas, ou o documento importa, ou ele não importa. Não tem como ser as duas coisas ao mesmo tempo.

O caso acaba por revelar que o reconhecimento formal perante o Estado é na verdade algo secundário para os ativistas pró-gênero, qualquer que seja o movimento em que estejam. A julgar pelo tamanho da indignação e pela aparente irrelevância do evento que a provocou, a maioria de nós está se perguntando: mas isso importa tanto assim mesmo? E por que?

A luta por condições iguais (de consumo)

A causa da indignação aqui é a ruptura da expectativa de uma experiência de consumo acolhedora à diversidade de identidades culturais da nossa época. É o ato de consumir, e não a igualdade formal ou a igualdade de fato, que valida essas identidades, sejam elas quais forem. Trans, não binário, mulher, homem, geek, lacradorx, gay, a relevância dessas identidades cada vez mais é a identificação como nichos de mercado, conforme vemos um Estado neoliberal enfraquecido, enfiado numa crise política sem fim, que segue uma crise de representatividade política profunda.

Não é o documento validado pelo Estado, e nem mesmo o reconhecimento de familiares e conhecidos que provê a satisfação buscada pelos indivíduos, ativistas e movimentos que buscam a afirmação da diferença e defendem o sistema de gênero. É a possibilidade de consumir de acordo com suas escolhas identitárias. É por isso que vemos demandas absurdas como que mulheres trans sejam atendidas por ginecologistas, e não urologistas — uma especialidade médica que cuida especificamente do aparelho reprodutor do sexo masculino, que mulheres trans continuam tendo ainda que alterem a aparência do mesmo a partir de cirurgias. É também por isso que alternativas sensíveis, que contemplem as necessidades de todos são rejeitadas, como as possibilidades de banheiros extras, além dos femininos e masculinos, sem marcação de quem pode ou não utilizá-los.

O único critério que vale na prática, conscientemente ou não, para os indignados online é o reconhecimento irrestrito das identidades pelo mercado. A busca não é por igualdade na lei e nem de fato. A busca é pela igualdade simbólica nas condições de consumo, a despeito da desigualdade real. A luta pelo reconhecimento legal e social é relevante somente por que ambas influenciam na igualdade nas condições de consumo, mas recentemente a estratégia pressionar para que o mercado se adapte às demandas ignorando a realidade tem sido cada vez mais utilizada pelos movimentos e indivíduos, com cada vez mais sucesso.

Lutas contra machismo e homofobia perdem a importância

Uma discussão marginal, que não ganhou a devida visibilidade, mas que também é reveladora, é a diferença de preços entre homens e mulheres. A lógica que motiva a decisão sobre o preço é simples: mulheres comem menos, mulheres pagam menos. A situação não é nem mesmo análoga ao caso das casas noturnas que cobram mais barato de mulheres para garantir a presença de mulheres como atrativo para um público masculino, que reconhecidamente gasta mais, pois tem mais dinheiro. Qual teria sido então o incômodo?

Nos comentários dos internautas, os motivos identificados seriam o sexismo em se afirmar que mulheres comem menos. Muitos comentam que conhecem mulheres que comem mais que homens, ou homens que comem menos do que mulheres. É bem verdade que não é exatamente a biologia que define quem come quanto, mas fatores culturais — os mesmos que fazem as feministas de esquerda argumentarem que não é o batom, a maquiagem ou o documento que faz alguém mulher — ligados à divisão da sociedade em duas classes sexuais ajudam a explicar por que mulheres, sim, comem menos. Da pressão pelo corpo perfeito, que faz com que estejamos sempre de dieta ou pelo menos “de olho” no que comemos, até a divisão desigual da carne e da comida preparada pelas famílias, mulheres têm sim no geral uma alimentação mais restrita e menos calórica.

O incômodo com a diferença de preço é na verdade um incômodo com o reconhecimento da diferença, qualquer que seja ela. Isso mostra que o conceito de “igualdade” mascara as diferenças que existem, contra as melhores evidências que temos de que somos, sim, diferentes. Algumas diferenças são biológicas, outras são culturais, outras, ainda, estruturais. Sem reconhecer o que de fato existe não é possível lutar para que mude, nem separar o que é uma diferença resultante da opressão, que deve ser mudada, do que é uma diferença baseada na biologia, que vai permanecer a menos que tomemos a decisão questionável de alterar a biologia a partir de procedimentos médicos ou estéticos, por achar que isso vai garantir alguma forma de melhoria.

Algumas poucas mulheres vão contra a corrente e comentam: mas então a gente vai ter que pagar mais caro, é isso? E de fato, continuamos ganhando menos, comendo menos, e a única igualdade que nos servem é gastar ainda mais dinheiro.

Uma outra questão, deixada de lado ainda mais, é qual a definição de casal adotada pela lanchonete. Será que duas lésbicas contaria? Será que as lésbicas prefeririam pagar pelo preço de um casal, e não por duas contas individuais femininas? Será que só estamos discutindo isso por que incomoda os homens gays? No fim das contas, parece que ambos os argumentos, tanto o do sexismo em afirmar que mulheres comem menos quanto o questionamento de como o estabelecimento cobraria a conta de casais homossexuais parecem ser apenas pontos de apoio para aumentar a indignação principal, que é a necessidade de comprovar com o documento se é homem ou mulher.

Não é por acaso que as lutas contra a misoginia e a homofobia perdem espaço. Ambas necessariamente articulam lutas concretas pela melhoria das condições materiais das mulheres e dos homossexuais, e nenhuma das duas se beneficiam do apagamento discursivo e simbólico das diferenças que existem de fato entre mulheres e homens, heterossexuais e homossexuais, pois sem elas é impossível lutar por direitos e pela redistribuição de recursos.

A igualdade de gênero: mais uma mentira capitalista

A conclusão que podemos tirar a partir do caso do Xodó é que esse ativismo pró-gênero, tão criticado pelas feministas de esquerda (ou como costumávamos dizer antigamente, as feministas), é extremamente interessado em construir as melhores condições possíveis de consumo, de acordo com seus próprios critérios, e se interessa muito pouco pelas condições da produção — e menos ainda pelas de reprodução. A igualdade simbólica que o movimento se empenha tanto em construir, apartada da igualdade social só serve para mascarar que a nossa sociedade é sim marcada por rígidas divisões, com o objetivo de explorar grupos específicos de pessoas. Mas observando a partir do consumo vai ficando cada vez mais difícil enxergá-las.

Olhando pra quem produz, e como produz, fica bem mais fácil. É quando olhamos pra quem faz o trabalho de cuidado que entendemos quem é homem e quem é mulher na nossa sociedade. É preciso também não ignorar que existem exceções, mas existem regras, e que a nossa sociedade ainda é rigidamente dividida em classes. Seja entre burguesia ou proletariado, homens ou mulheres, ou a luta anticolonialista, a luta de classes permanece viva no mundo contemporâneo, e mascará-la com a promessa do consumo igualitário não vai salvar a nenhum de nós.

Afirmar uma falsa igualdade por pressão de um movimento que luta pela manutenção do que mulheres e homossexuais precisam destruir para se libertarem — o gênero — é um tiro no pé, para dizer o mínimo. Precisamos voltar a lembrar e dizer que mulheres comem menos, sim, mas mais importante do que isso, que mulheres recebem menos, trabalham mais e morrem mais. É isso que precisa mudar, e não tem preço igualitário de rodízio de milk shake nenhum que resolva essa situação.