[13/10 ou resistência dos materiais humanos]

Ariane Almeida
Aug 25, 2017 · 4 min read

A Pair of Shoes, 1886 — Vicent Van Gogh

esse é meu décimo segundo do total estimado de treze semestres dentro da faculdade de engenharia. se eu estivesse dentro da linearidade, o curso deveria ser concluído em cinco anos. esses três semestres a mais são, portanto, referentes à incerteza de medição.

para calcular a incerteza, precisamos determinar o erro sistemático e o erro aleatório. o primeiro indica a tendência de um instrumento registrar resultados sistematicamente acima ou abaixo do valor real e qual a amplitude esperada desta variação — passei um ano no intercâmbio, portanto dois semestres de atraso já eram previstos. já o erro aleatório não segue uma tendência fixa, são pontos fora da curva. tenho um semestre a mais não-justificado e, embora eu queira me livrar de vez do campus do Pici, não o considero propriamente um erro — o ano italiano tratei como erro por mera construção de raciocínio, mas foi claramente um acerto.

2017.2 poderia facilmente ser chamado de assombração. obrigatoriamente eu tenho que cumprir três disciplinas que ficaram para trás por reprovação. fase 1: engenharia dos materiais; fase 2: tópicos de fabricação; e o chefão: química. desde o colégio sou péssima em nomear elementos e corro de moléculas orgânicas como quem foge de fantasmas. não por acaso química é a base das três disciplinas e esse semestre é meu limite de tolerância.

linearidade, incerteza, erro e tolerância são termos da aula de fabricação que tive hoje. muito focada em tentar entender pela terceira vez, criei uma nova estratégia para melhor compreensão dos significados. o professor disse que não cobraria definições, logo não vou conceituar deriva como a variação da indicação ao longo do tempo, contínua ou incremental, devida a variações nas propriedades metrológicas de um instrumento de medição. peço permissão da licença poética e digo que deriva é o desvio do caminho por um efeito externo. por outro lado, “deriva de sensibilidade” se refere ao quão a sensibilidade de um instrumento varia em função das condições ambientais. os instrumentos somos nós e se você se encontra à deriva, lembre que a expressão além de significar “sem rumo certo”, também pode ser interpretada como “ao sabor dos acontecimentos”.

no meio das definições de engenharia, colei um post-it escrito “filosofia da incerteza” para lembrar daquele momento onde o professor falava que não existia certeza universal e que para tudo, inclusive para os materiais fabricados com n especificações e máximo rigor de controle de qualidade, sempre haverá uma incerteza de medição. o princípio da incerteza de Heisenberg diz que não podemos medir a posição x e o momentum p de uma partícula com precisão absoluta — quanto mais precisamente conhecemos um desses valores, menos sabemos exatamente o outro. embora meus vinte e cinco anos estejam pesando as costas, não quero e não vou me deixar levar pela fantasia que eu deveria ter conquistado mais do que alguém ou estar assumindo um posto de poder empresarial ou estar ganhando mais que a média ou construindo uma carreira promissora que ninguém será capaz de derrubar ou passando por cima dos meus limites para satisfazer a demanda do mercado por um profissonal que confunde conquista pessoal com sucesso financeiro. o meu momentum é esse e essa é a posição que eu realmente deveria estar.

como exemplo de como as coisas acontecem no seu tempo, o Van Gogh demorou vinte e sete anos para começar a pintar. o seu acervo conta com novecentos quadros, o que daria uma média de dois quadros por semana até a sua precoce morte. antes dos vinte e sete, aparentemente, aos olhos dos outros, Van Gogh estava à deriva — tentou entrar na igreja, ser professor, negociador de arte, dentre outras profissões diante dos acontecimentos de sua vida. O Par de Sapatos do pintor é alvo de discussão de vários pensadores, existe um quê de existencialismo na obra. na minha interpretação livre, os sapatos gastos com marcas do caminho percorrido, sou eu. somos nós cansados.

lembro de ter lido uma coluna no El País que até hoje uso o título como referência quando me deparo com uma situação de (auto)cobrança exarcebada: estamos exaustos-e-correndo-e-dopados. a autora fala de como a sociedade do desempenho nos ilude no conceito de liberdade e de como estar exausto e, ainda assim, sentir pressa virou a condição humana dessa época. nos pressionamos a possuir mais, conquistar mais, ganhar mais e tudo isso no menor tempo possível, hábil, exequível. o mesmo texto cita o Nietzsche atentando que “por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie”. meu décimo terceiro semestre é de respiro.

hoje também tive aula do chefão química, ministrada pela professora Socorro. a turma, de horários complicados, é formada por alunos mais velhos de cursos diversos. dava para sentir o cansaço nos olhos querendo descansar, nas costas pesadas, na farda suada, na atenção frágil. são diversos os fatores ambientais externos que aumentam a sensibilidade. a não-linearidade se encontra ali, a olho nu. digo, a vida é a prática desses termos todos que me foram conceituados hoje — existe uma tendência, às vezes repetitividade, cada um tem um tempo de resposta e um limite de tolerância diferentes, lidamos com os erros, somos influenciados pelas sensibilidades e procuramos uma resolução.

dizem que a faculdade de engenharia te ensina a resolver problemas — analisar dados, aplicar ferramentas, construir soluções, pensar sistematicamente. semestre passado, estudando materiais, me deparei com a definição de resiliência:

resiliência é a capacidade de um material de absorver energia quando ele é deformado elasticamente e, depois, com a remoção da carga, permitir a recuperação dessa energia.

a faculdade de engenharia ensina a ser resiliente, a persistir apesar das barreiras, mesmo com a carga pesada e com a energia sendo constantemente modificada pelos fatores externos. nela, assim como na vida, se faz necessário respeitar seus limites, tomar frente do seu tempo, procurar saborear os acontecimentos, ver beleza na caminhada. acho que disso se pode falar com algum grau de precisão.

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