[diário vivo detalhado 18–22 agosto ou precisava dizer visitem o Pará]

Ariane Almeida
Aug 24, 2017 · 5 min read

Still life with apples and oranges, 1895 — Paul Cézanne

fico feliz quando alguém sugere escutar pink floyd em cenário de estradas. pra mim a banda sempre foi trilha sonora de viagens de volta, se enxergando da janela do carro. ontem no trajeto da Ilha de Mosqueiro a Belém elegi “breath” como encaixe à luz de fim de tarde. escolha tendenciosa de quem cede a esse trecho desde que era fã incapaz de votar numa música preferida da banda:

“all you touch and all you see
is all your life will ever be”

dias antes de viajar pra cá pensei no adesivo que queria fazer com essa frase para colar na parede do meu quarto. ideia tão antiga que precisou ser repensada em sua validade. vou só escrever na parede de giz mesmo, decidi. me perdi quando comecei a relacionar o ato de tocar e de ver ao meu fascínio por mãos e olhos. gosto de como as pessoas se acariciam e de como se encaram. o toque enquanto transferência de calor por condução — as moléculas se agitam até que o objeto tocado se aqueça. a visão enquanto ato contemplativo — enxergar beleza no objeto. não escrevi a frase em canto algum, fiquei me questionando qual dos cinco sentidos mais me sacudia. queria de alguma forma confirmar que a audição sempre fora meu maior apego. será que mais forte que a união poderosa entre tato e visão?
também antes de viajar, aluguei um novo livro, embora tenha fila de espera na minha cabeceira. queria participar de um roteiro diferente. percebi desde o início ser o livro certo para a ocasião certa, mas algumas reflexões me fizeram falar sobre isso em voz alta. o capítulo 5 entitulado “dos saberes aos sabores” usa a metáfora de uma criança de olhos fechados e com a boca sugando o seio da mãe para ilustrar o mundo enquanto um objeto de deleite. SAPIENTIA é conhecer a vida pela boca, conhecimento saboroso. em latim, SAPERE tem duplo sentido de “saber” e “ter sabor”. já na minha boca, sapere é falado com sotaque italiano, afinal foi lá que eu aprendi a tocar e a enxergar a comida além dos nutrientes para o corpo. final de semana antes desse que passou, inclusive, revivi um dia inteiro sendo alimentada por uma casa de italianos — o orgulho da culinária, a tradição, a alegria em servir. foi na Itália que percebi que cozinhar é demonstração de amor e que comer é alimentar de prazer o corpo e a alma. agora minhas viagens são aproveitadas em mais uma dimensão: a gastronomia.
ontem antes de partir para a ilha, me esbarrei numa balança e resolvi me pesar. claramente um erro, vi que engordei 1,5kg. subir na balança e ver o número crescer sempre me trouxe chateação. a diferença é que agora minha relação com a comida é outra. pensei nos sorvetes da cairu que tomei todos os dias aqui e ahhh, em fortaleza eu como umas maçãs pra compensar.
há alguns meses eu venho nessa vontade quase inexplicável de conhecer o Pará e quando me perguntavam o porquê eu justificava dizendo que devia ser um mundo diferente — as cores me pareciam mais vibrantes, os ritmos calorosos, a estética do encontro com a natureza, a culinária exótica. vim disposta a provar de tudo e isso pra mim quer dizer superar algumas manias. misturar peixe frito com açaí? minha cabeça diz “não combina”, mas foi a primeira refeição-aventura feita no estado. por outro lado, tinha certeza que das frutas eu ía gostar. na sorveteria quando via um nome diferente perguntava logo “isso é uma fruta?”. descobri o bacuri, renovei meus votos de amor ao cupuaçu, me apaixonei mais pelo cacau dentro da floresta e transformei em saudade minha decepção de não ter encontrado o rambutã. metade das fotos desses dias são de comida. entendo quem fica entediado com isso de tirar foto antes de comer, mas é que tem pratos que também alimentam os olhos.
no meu domingo belenense comprei um livro-guia do Cézanne, em perfeito estado e papel couche, por 2 reais. o impressionismo nunca me fez prender a atenção, mas existe uma calma nele que conversa muito com o agora. o Monet pintava diversas vezes a mesma paisagem, para alguns considerada banal. no outro dia voltava de novo para pintar a mesma paisagem. é que na realidade a paisagem já não é mais a mesma — a luz incide agora, nesse exato momento, diferente de como irradiou ontem, portanto a paisagem se modifica e este é um momento único. acho esse modo de pensar filosófico e consigo perceber a influência dele nas tantas fotos postadas dessa viagem. as de comida são tentativas de mostrar por imagem o sabor delas, assim como Cézanne tenta mostrar a singularidade de cada fruta em suas naturezas mortas. somos atraídos pelas tonalidades, pela forma como a luz penetra nelas. cada maçã de Cézanne é única, assim como eu enxergava as paisagens e comidas daqui. queria de algum modo tentar aproximar a visão de outras pessoas para as belezas daqui, incitar o toque, causar curiosidade, gostinho de quero mais que fotos.
os fortalezenses animados com o eclipse solar às 16:20 postaram sem cansar matérias sobre o mesmo no facebook. no quarto de hostel com quatro cearenses, “tudo que você precisa saber sobre o eclipse” era a notícia mais popular, embora o básico, que envolvia uma folha de raio-x para melhor enxergar a olho nu, nós não ficamos sabendo. por sorte os belenenses são não só receptivos, mas também prevenidos com muitas imagens de ossos quebrados, e assim nós conseguimos ver o eclipse solar diretamente do portal da Amazônia. achei poético. a única matéria que li inteira sobre o fenômeno dizia que a crosta terrestre iria inchar cerca de 4 centímetros e, assim, a força anti-gravitacional faria com que ficássemos com 500 gramas a menos. naquele momento eu perdi peso daqueles que ganhei. embora esse efeito sanfona da terra aconteça em diferentes proporções em toda lua nova, eu falava dele com muita animação. pra mim é uma metáfora de como o peso é relativo — tudo depende da gravidade que você dá aos acontecimentos, enquanto se sentir leve ou pesado não diz respeito à massa do corpo.
desapegada do peso, os dedos das mãos foram poucos para contar a quantidade de momentos gostosos que vivi nesses cinco dias. eu uso o termo gostoso como elogio para a beleza. há quem instantaneamente ligue o nome ao erotismo, eu sempre discordei — pra mim sempre foi pra dizer que o sabor de algo ou alguém ao esbarrar com o meu montou uma combinação saborosa, química, que palavras não conseguem descrever em todos os sentidos adjetivados. discordei ao contrário hoje ao ver uma definição de erotismo como o nome que se dá ao corpo quando ele sente as coisas em função do prazer que elas lhe causam. então sim, gostoso é mesmo esse termo erótico, mas sim, é minha palavra de enaltecimento.
o Pará tem gosto de novo, mas com pitadinha de familiaridade lá no fundo. dá frio na barriga da experimentação, mas é uma surpresa doce. geladinho para esfriar a cabeça energética e o calor úmido. a dormência do jambu é de êxtase. é gostoso. até desisti de trocar a cachaça de jambu pela de castanha do pará. as doses dela serão com sapere, degustação da cultura paraense.

PROVE O MUNDO!

)

    Ariane Almeida

    Written by

    escrevo para lembrar

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade