[sem vestígios ou transformação do material]

Bólide Caixa 22, Apropriação. Mergulho do Corpo, Poema Caixa 4, 1967 (Inscrição em caixa d’água industrial) — Hélio Oiticica

volto anos atrás e lembro de um professor na faculdade de arquitetura falando com paixão da obra do Hélio Oiticica enquanto entendimento sensorial da arte e do espaço. às vezes eu me pego retornando a certos momentos da minha vida e imaginando como eu reagiria a eles agora, a partir de uma nova visão. talvez essa mania de nada adiante além de me fazer sentir a diferença comparativa das minhas leituras e retornos ao longo da passagem do tempo.

não sei se vocês sabem, mas o Oiticica também escrevia. era texto-construção-conceito, pesquisa artística, e era assim que ele transformava toda a sua obra em linguagem, reflexão entre palavra e objeto. a nossa recepção às suas obras depende da nossa leitura, do quanto mergulhamos na vivência do objeto, de modo a nos reinventarmos para além do significado comum do material. uma caixa deixa de ser uma caixa e o mergulho se torna mais profundo.

em uma semana no meio do curso de meditação, tive que escolher algum cômodo da casa para deixar sem vestígios. a ideia era garantir que, a cada vez que eu entrasse naquele espaço, ou não deixaria restos da minha passagem ou cuidaria para deixá-lo mais harmônico na saída que na entrada. na época escolhi a cozinha, pelo nível de dificuldade em mantê-la sempre organizada, mas até hoje uso a expressão como construção-conceito de algumas atividades diárias. tomo longos banhos massageando o couro cabeludo e o rosto com cremes, perfumando o corpo quase como uma limpeza de energia. nas quintas, os amigos batem à minha porta com sorriso e conversa vaporizando a carga da semana e asseando a alma. sem vestígios, eles já sabem. tem dias que sobra uma garrafa ou outra de cerveja pela casa, mas de repente meu movimento se aproxima do parangolé do Oiticica.
ontem mesmo, quinta, estava conversando em casa com o Matheus sobre física quântica, teorias e documentários ruins, e embora essa vontade de voltar ou avançar no tempo de vez enquando se faça presente, ainda não conseguimos realizá-la — nos resta o agora. podemos tentar ler de outra forma, ressignificar os materiais, mas ainda assim só possuímos esse instante.

nesse exercício de linguagem, acho que seguir sem vestígios é construção de purificação. não se trata de fazer uma limpeza total de nossas marcas, nem mesmo de não deixar rastros por onde passa. talvez seja reconhecer de corpo inteiro o espaço ocupado e a estranheza de si e dos objetos, tentar perfumar o ambiente, deixar delicadezas de entrega e intenções boas. às vezes bagunça, mas dá para organizar. assim uma caixa deixa de ser uma caixa e o mergulho se torna mais profundo.

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