Crise para quem?

Este texto foi publicado originalmente no site Promoview, em janeiro de 2014. Como a história mudou muito pouco desde então, resolvi compartilhar a reflexão aqui também.

Mudei para o Brasil, depois de 9 anos morando fora, em fevereiro de 2015. Me sentindo o clichê dos clichês, não consigo me acostumar com o preço das coisas. Não me conformei e fui dar uma voltinha virtual pelo mundo.

Encontrei alguns dados interessantes sobre distribuição de renda e também preços de aluguéis em Nova York. Onde vivem e quanto pagam de aluguel algumas das maiores celebridades do mundo?

Em alguns casos é menos do que pagam amigos e conhecidos de classe média no Rio de Janeiro.

A BBC publicou um estudo da ONG britânica Oxfam, que repercutiu no mundo inteiro. O levantamento aponta que o patrimônio das 85 pessoas mais ricas do mundo equivale às posses de metade da população total do planeta, que por sua vez vive em situações de pobreza ou abaixo dela. Em números:

  • As 85 pessoas mais ricas do mundo têm um patrimônio de USD 1,7 trilhão;
  • o patrimônio dos 85 mais ricos do mundo equivale ao patrimônio de 3,5 bilhões de pessoas;
  • 3,5 bilhões é o tamanho da população mais pobre do mundo;
  • a riqueza de 1% das pessoas mais ricas do mundo equivale a um total de US$ 110 trilhões;
  • U$S 110 trilhões representa 65 vezes o dinheiro que possui a metade mais pobre da população mundial.

“É chocante que no Século 21 metade da população do mundo — 3,5 bilhões de pessoas — não tenha mais do que tem a minúscula elite cujos integrantes poderiam caber confortavelmente em um double decker”, afirmou Winnie Byanyima, diretora-executiva da Oxfam.

O relatório da Oxfam, entretanto, destaca que países como o Brasil estão conseguindo ir contra esta tendência, diminuindo a desigualdade na última década.

Boris Johnson, prefeito de Londres, apresentando os mais modernos double deckers, onde cabem os 85 mais ricos do mundo (Foto: Divulgação).

“[O Brasil teve] sucesso significativo na redução da desigualdade desde o início do novo século” — “Em parte devido ao crescente gasto público social, uma ênfase no gasto com saúde pública e educação, um programa de transferência de renda de larga escala que impõe condiçoes para o recebimento (Bolsa Família) e um aumento no salário mínimo que subiu mais de 50% em termos reais desde 2003″, afirma o relatório. Na prática, sabemos, as coisas não são bem assim…

Com a imagem dos 85 mais ricos do mundo, que caberiam *confortavelmente* num ônibus inglês, atravessamos o Atlântico e chegamos em Nova York. E retomamos o paralelo com os aluguéis nas principais cidades brasileiras. Já se falou em castelos na Europa que custam menos do que um apartamento em Copacabana. Agora, nessa era de Big Brother, muitos podem ter a vida de celebridades, alugando ou comprando apartamentos no exterior.

Embora nos EUA a questão residência seja mais complexa, em Portugal e Espanha, por exemplo, em função da crise, o Governo anunciou recentemente que os estrangeiros interessados em adquirir imóveis podem receber imediatamente a residência como cidadãos europeus. Ou seja: comprar o apartamento mais barato do que no Brasil, ganhar de quebra uma casa de férias na Europa e poder circular e fazer negócios livremente no velho continente. Vantagens do mundo globalizado?

Para quem já pensou ou começou a pensar seriamente nestas hipóteses, deixo aqui o mapa de quanto custaria viver em Nova York. Escolha pelo número de quartos (BR = bedrooms) e se quer com (with doorman) ou sem porteiro (without doorman):

Agora, dê uma olhadinha onde vivem as principais celebridades. De acordo com o seu bolso, ser vizinho de uma delas pode representar, ainda, um desconto significativo na próxima ação promocional do seu cliente (ou não!). Além de status, ganhar também um bom networking não faz mal a ninguém.

Devaneios à parte, em terras de dinheiro $urreal é bom sonhar grande, antes que até isso torne-se alvo de alguma nova taxa inventada de última hora pelo governo, como o IOF para compra de moeda estrangeira em cartões que aumentou de 0.38% para 6.38% num sábado pela manhã, sem qualquer aviso prévio.

Engajamento com o target nulo, comunicação interna zero. Tudo isso deixa a sensação de que ser um brasileiro economicamente ativo vale tão pouco quanto aqueles brindezinhos furrecos que certamente já recebemos em eventos por aí.

Infográfico: Rentenna.com. Informações: BBC e IBtimes.com.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Ariane Feijo’s story.