Comunicação e responsabilidade no Carnaval

Entenda porque publicidade não é apenas fazer anúncio.

Carnaval é uma festa do cristianismo ocidental que antecede a quaresma. Geralmente é composto por festas públicas e desfiles nos quais as pessoas usam máscaras e fantasias de apelo circenses perdendo sua individualidade cotidiana para dar espaço a experimentações que não condizem com seus valores como indivíduos e com a ética da sociedade.

Antes de entrarmos no parâmetro da mídia, vale lembrar que propaganda vem de propagar, é a ação de dissipar uma mensagem em massa para o maior número de pessoas possíveis, com isso podemos perceber que a propaganda e a publicidade têm um papel de responsabilidade social muito grande perante ao público, já que ela tem o poder de autorizar certos comportamentos e ações dos indivíduos e da massa que cada qual faz parte.

Claro que não podemos colocar a total responsabilidade dos atos em um meio, mas não podemos deixar de lado que a mídia precisa se tornar ainda mais responsável pelas mensagens que dissipa e isso percebemos ano após ano, principalmente no carnaval que é um dos períodos mais esperados pelos brasileiros, seja para cair na folia ou aproveitar o feriado para viajar.

Campanhas que caíram na rede do povo

Campanha da Skol de 2015

Em 2015 a Skol, uma das maiores marcas de cerveja do Brasil, caiu na rede ao veicular um outdoor que dizia “Esqueci o “Não” em casa”. A marca se posicionou dizendo que a campanha tinha como mote aceitar os convites da vida e aproveitar os bons momentos (via UOL). Já nas redes sociais, a marca foi acusada de ser totalmente irresponsável pois estava sendo condizente com o abuso sexual.

Devemos lembrar que o carnaval tem um grande índice de abuso sexual no período da folia, digamos que ele é mais presente que a purpurina. Só no ano passado (2017), o número de denúncias de violência sexual subiu 90% nos quatro dias de carnaval em todo o Brasil (via G1).

Posicionamento do público

Outra campanha que não foi perdoada foi a do Ministério da Justiça na qual insinuava que a culpa de qualquer tipo de assédio ou erro era de quem bebia e não de quem abusava. O Ministério se retratou após 3 horas de repercussão pedindo desculpas para a população, a peça foi tirada do ar após o episódio.

A importância do departamento VDM (vai dar merda)

Conhecer o meio em que se vive, saber o que o público está pedindo e falando, dentro e fora das redes, é extremamente importante antes de se começar qualquer ideia de campanha publicitária, e não me refiro apenas a campanhas de grandes marcas ou de valores altíssimos, pode ser aquele post esporádico no Facebook ou em outra rede. Por isso, é muito importante que a equipe seja diversificada e esteja muito atenta a tudo que está acontecendo a sua volta e que a ideia passe por várias pessoas, principalmente nesses casos onde era possível prever que a campanha seria equivocada e de mensagem dúbia.

Precisamos lembrar que o público tem voz e há muitos meios de se expressar, vivemos hoje em mundo em que as pessoas aprenderam que podem, e devem, lutar por suas causas e seus direitos e os profissionais precisam estar a frente dessas conversas para que possam transmitir mensagens que condizem com o público e sua realidade, e além disso, as marcas precisam se certificar que sua cultura esteja em sintonia com o mercado.

O povo pede e as marcas (finalmente) ouvem

Chega 2018 e sentimos a diferença nas próprias campanhas. A Skol mesmo já havia se posicionado no ano passado com a sua campanha de mensagem irresponsável e neste ano (2018) a marca compreendeu que uma boa pesquisa de mercado e entender o seu público é muito importante antes de colocar um anúncio para rodar. Além da Skol, muitas marcas também tiveram essa percepção e colocaram campanhas conscientes nas ruas, segue algumas abaixo:

Reposicionamento da campanha do carnaval de 2015 realizada no mesmo ano após comoção nas redes sociais
Campanha de 2018
Postagem do Cemitério Jardim da Ressurreição contra o abuso sexual
Campanha da Defensoria Pública do RJ

Por fim, percebe-se que a publicidade pode servir para dar um aval a quem já tem tendências abusivas, pois passa a mensagem de que aquele ato é correto e “tá tudo bem” realizá-lo. Não respeitar o NÃO ou culpar quem bebeu além da conta de ter sido abusada, é incoerente e irresponsável. Os consumidores pedem, e exigem, que as marcas se responsabilizem e tenham consciência que a sua mensagem é extremamente impactante e pode ajudar a reter, mas também a autorizar certas ações.

Por isso é extremamente importante que a cultura e a mensagem estejam alinhadas com os consumidores e além disso, alinhadas com causas sociais e que impactam o meio ao todo.