Perdão por não ser sua filha

10 de Maio de 2015 foi o dia em que descobri que era adotada. Eu, que sempre desconfiava das histórias de minha mãe e sentia que a mesma escondia algo, não esperava que a verdade fosse a que eu mais temia. 
Não era sangue de seu sangue.

Logo comecei a entender o sentimento que carregava durante meus 22 anos, sempre me senti diferente em minha família, exceto por meu avô que me tratava com todo o amor do mundo e de uma forma para que eu não me sentisse diferente. Mas no restante da família eu sentia que era uma obrigação que faziam e não algo que vinha do coração.

Minha avó tratava meus primos com todo o amor que podia dar, minha mãe defendia os sobrinhos como se fosse seus filhos. Eu ouvia coisas terríveis e precisava ficar quieta para não arrumar confusão e se arrumasse ficava de castigo. Na escola eu era patinho feio, não conseguia me socializar e sofri muitas humilhações por parte de colegas da escola, tentava esconder da minha mãe com medo que me castigasse.

O tempo foi passando, passei para a adolescência e fiquei “rebelde”, não queria saber de ficar em casa, ia pra escola e dormia em todas as aulas, fazia de tudo pra ficar longe. Bebia muito com meus amigos, nunca cheguei a me drogar, porém a bebida me anestesiava. Um dia cheguei em casa um pouco alta, minha tia abriu a porta e me encheu de perguntas, tentei desviar, mentir…mas nada adiantou.

No outro dia…

“Sua filha nunca vai ter um futuro, vai ser drogada e puta”

“É uma biscate, deve já tá dormindo com vários”

“Sem futuro”

Fiquei calada esperando uma reação da minha mãe.

Silêncio.

Meu avô me chama de canto.

“Você não é nada disso e pode ser o que quiser, lute pelos seus sonhos e deixe que falem”

Minha mãe e minha vó pediram silêncio, não queriam que a família fosse destruída por uma coisa tão banal.

O ódio crescia. Eu sentia rancor, raiva e tristeza, mas de nada adiantava.

2010

Minha vó parte, falece e vai para outro plano. Meu avô fica desolado e meu medo de perdê-lo me sufoca.

7 dias depois.

Falta de ar, ambulância, desespero.

“Ele precisa ser internado”

Gritos, choros… meu coração aperta, eu sabia que era a última vez que o veria, ele iria embora.

Me mandam para casa.

Logo em seguida ele chega, tentando me acalmar e prometendo ficar, mas eu sabia que sua promessa não seria cumprida.

No outro dia ele volta para o hospital, tubos para todos os lados e em alguns dias ele é encaminhado para a U.T.I. E mais promessas são feitas, ele diz que só vai embora depois que me levar até o altar, que ia ver eu me formar. Mas 30 dias depois, ele diz adeus. Durante o velório eu sentia uma paz, era como se ele fosse se levantar a qualquer momento, mas isso não aconteceu. Na retirada do caixão eu me desabo a chorar, choro por meu avô, meu herói, meu pai. Choro por nossos momentos e os momentos que viriam, mas que não virão. Você se foi junto com seus sorrisos, seus sonhos e seu amor.

Talvez eu saiba, em algum lugar, no fundo da minha alma que o amor nunca dura e temos que arranjar outros meios de seguir em frente sozinhos ou ficar com uma cara boa […] Você é a única exceção.

6 anos se passaram e sinto a mesma dor, a mesma falta. Não comemoro meus aniversários, porque você não está lá para me dar um abraço. Natal e Ano Novo são apenas datas porque sua falta dói. No fim o que me restou foi saudade e sinto por não conseguir ser tão boa quanto o senhor me ensinou.

Junto com a noticia de minha verdadeira origem, veio mais um balde de água gelada. Minha mãe biológica era uma prostituta e também deu a luz a meu irmão/irmã que também fora abandonado(a), eu nasci depois. Ela me trocou por um maço de cigarros, foi a única coisa que pediu em troca de dar uma criança indefesa, tento pensar que ela quis que tivéssemos uma chance melhor e não que nos abandonou sem ao menos tentar.

Hoje estou me formando em Publicidade e Propaganda, consegui uma bolsa 100% pelo PROUNI. Hoje minha mãe adotiva mora comigo e olho pra ela sem sentir carinho, afeição e isso pesa, pesa muito. Como queria me sentir próxima, sentir vontade de abraça-la, beija-la e dizer "te amo, mãe” com todo o amor do mundo, mas a única coisa que consigo fazer é lembrar de um passado triste e trazer para o presente a falta que o amor materno me trás.

Me perdoe por isso, essa é a única coisa que consigo pedir a ti. Perdão pelas palavras impensadas, perdão pela falta de afeto que você merece, independente de qualquer coisa, e perdão por não ser sua filha. Era o que você queria e o que eu queria, mas que não é.

Perdão por tanto peso, talvez você não estivesse preparada para ser mãe e não soube lidar com a situação. Perdão por todo sufoco que deve ter passado para esconder-me a verdade. Perdão por todo o sofrimento que lhe causaram por ter uma filha “vindo da onde veio”. Perdão pela sua família, que nunca soube se colocar no lugar do outro e que muitas vezes, disseram coisas que machucavam mais que um tiro e perdão por todas as feridas, queria poder cura-las, mas no momento, estou tentando me curar de todo dano causado.

Perdoe
Perdoe-me
Perdoe-nos
Perdoe-se