Conto #1.

Eles se olhavam, corpo pra frente, rostos se encontrando, não podiam nem conseguiam chorar. Só se olhavam, de forma tenra, quase sem piscar. Nenhum dos dois conseguia quebrar o silêncio, estavam imóveis, apenas mexendo a pálpebra, olhos brilhando de uma possível lágrima que não iria sair naquele momento, uma vez ou outra o peito abria numa respiração mais forte, mas continuavam paralisados.

O dique era lindo à luz no nascer do dia, as luzes ainda não se apagaram e as fontes jorravam sem parar aquela água enlameada. O espelho refletia o sinal quebrado e o gramado desfeito. Não estava mais chovendo, apesar do céu estar carregado. Era março, época de muito temporal em Salvador, mas ainda era muito quente pra se dizer outono. Aquela terra tropical úmida refletia no suor que descia do cabelo dele e permanecia como bolinhas engraçadas no nariz dela.

Ele não havia bebido de noite, mas havia trabalhado muito naquela sexta-feira de fim de mês. Ela, por sua vez, aceitou algumas poucas taças de vinho oferecidas pela comadre. Eles tinham comido um belo Spaghetti ao molho Pomodoro, após uma bela entrada de queijos variados e seguido por um pudim feito pela anfitriã. Ele estava de dieta e só aceitou um cafezinho no lugar do doce.

Eles tinham que sair cedo de lá pois o sábado seria turbulento, mas a conversa estava tão boa… “Quantas vezes a gente se encontra? Vocês depois que casaram desapareceram!”, “Está bem, vamos ficar mais um pouco”.

Eles ainda não terminaram de mobiliar a casa, ela ia comprar aquele par de bancos lindos da Tok&Stok para colocar na cozinha apertada, e ele iria pregar as estantes do lavabo. O apartamento estava financiado mas eles iriam conseguir terminar de pagar em 4 anos. Ela é dermatologista e ele estava abrindo um albergue, o próximo verão prometia bombar.

Já não os restava muito tempo, alguém tinha que falar alguma coisa. Mas quem iria romper aquele momento? Ela pensou em brigar com ele, ele pensou em fazer alguma coisa, mas ambos saberiam que não resultaria em nada.

Ele resolveu tomar essa atitude, e antes que fosse tarde, apenas deixou as palavras saírem trêmulas de sua garganta

“Me desculpe”

Ela olhou-o nos olhos, a lágrima acabou escorrendo pesada e grossa do seu olho direito, seus lábios cheios e sua com voz já fraca, mas presente, disse-lhe

“Eu te amo”

E ambos fecharam os olhos quase que ao mesmo tempo, enquanto sentiam que aquela era a hora de fazê-lo. E foram felizes para sempre, afinal de contas.

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