Crônica #2.

Um barulho e meus sentidos voltam, me certifico em minha mente se o cheiro, a temperatura, o tato e a iluminação sobre meus olhos fechados ainda são os mesmos, para então definir que estou no mesmo lugar e que isso se trata de uma realidade fora dos sonhos. Me pergunto o que era o barulho e se ele realmente existiu, e percebo que já não lembro o que era. Penso em me virar para o outro lado, mas percebo o quão cheia está a minha bexiga, proporcional à preguiça que tenho de ir ao banheiro.

Ainda de olhos fechados eu decido me virar, sinto a respiração de meu irmão, aquele bafo de alho saindo pelo nariz em fortes exalações. A vontade de ir ao banheiro aumenta, mas o meu rosto consegue sentir que fora do grosso cobertor o tempo está gelado, o que me desestimula. Ouço um ruído bem baixinho de farejar, um barulho de patinhas em baixo da cama, e finalmente um pequeno choro de reclamação de quem percebeu que alguém acordou mas não foi logo brincar consigo: O cachorro também despertou.

Enquanto eu decido se finalmente vou ao banheiro, o animalzinho arrasta o meu chinelo para longe, na expectativa de morder a faixa que fica entre os dedos. Mais um desestímulo é tocar nesse chão gelado, então lembro que o vaso sanitário também encontra-se na mesma sensação térmica. Paro para pensar no que sonhei, percebo que já não lembro mais, e ao fazer um esforço maior, percebo que não terei sucesso nisso e pode ser que eu nem sequer tenha sonhado.

Tento dormir novamente, meus olhos começam a querer abrir. Sinto-os secos ao passar as pálpebras pelas íris e logo retorno à posição inicial. Começo a sentir fome. Que raio de sentidos que me fazem querer levantar da cama sendo que eu ainda tenho sono e preguiça! O cachorro solta um gemido de pedido de atenção.

Desisto.

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